Condição afeta a segurança da alimentação, aumenta
o risco de pneumonias e pode ser sinal de doenças neurológicas; diagnóstico
precoce é fundamental
Envelhecer traz mudanças naturais ao organismo, inclusive na capacidade de mastigar e engolir alimentos. No entanto, engasgos frequentes, demora excessiva durante as refeições, perda de peso sem explicação e alterações nos hábitos alimentares não devem ser encarados como consequências normais da idade.
Conhecida como disfagia, a dificuldade para engolir pode comprometer o estado nutricional, favorecer infecções respiratórias e até mesmo indicar a presença de doenças neurológicas. Dados de um estudo sobre o perfil da deglutição dos brasileiros apontam que 13,6% dos adultos acima de 20 anos apresentam algum grau de dificuldade relacionada ao ato de engolir, prevalência que aumenta de maneira significativa após os 60 anos. Este e outros foram debatidos durante o 40º Congresso Panamericano de Otorrinolaringologia, promovido pela Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), que reuniu especialistas para discutir os desafios do envelhecimento e da saúde da deglutição na América Latina.
De acordo com a
Dra. Eliézia Alvarenga, professora afiliada de Otorrinolaringologia da
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro do departamento de
foniatria da ABORL-CCF, que palestrou sobre Difagia no Idoso: o que esperar do
envelhecimento “normal” no Congresso, algumas alterações são esperadas com o
avanço da idade, mas merecem acompanhamento. Ela explica que com o
envelhecimento é esperado que exista uma lentificação da deglutição e mudanças
na preferência alimentar. “Muitas vezes a pessoa passa a evitar determinadas
consistências porquê percebe que engasga com mais facilidade. Além disso,
alterações dentárias, comuns após os 60 anos ou 70 anos, também podem dificultar
a mastigação e a adaptação a diferentes tipos de alimentos”, comenta, ao
revelar que essas adaptações, muitas vezes feitas espontaneamente pela própria
pessoa idosa, podem trazer consequências importantes quando não há
acompanhamento profissional. “Um fator preocupante é quando o paciente retira
proteínas ou alimentos sólidos da dieta e não compensa adequadamente a ingestão
calórica. Isso favorece a perda de massa muscular, algo que já ocorre
naturalmente com o envelhecimento e que também afeta estruturas essenciais para
a deglutição, como a musculatura da língua.”
De olho na
alimentação
Além das
alterações físicas, fatores cognitivos também influenciam a segurança da
alimentação. Segundo a Dra. Eliézia, com o envelhecimento, a redução de algumas
funções neurológicas pode dificultar a realização simultânea de atividades
durante as refeições “A alimentação exige preparo e concentração e, por essa
razão, a pessoa idosa precisa estar bem alerta e bem posicionada, prestando
atenção ao que está fazendo. Comer assistindo televisão ou envolvido em outras
atividades aumenta o risco de engasgos, pois as funções de atenção e deglutição
compartilham mecanismos neurológicos que também sofrem alterações com a idade”,
afirma a especialista, ao ressaltar que é importante combater a ideia de que
engasgar faz parte do envelhecimento. “A pessoa idosa não pode achar que isso é
apenas o preço de envelhecer. Quando ela normaliza o problema, perde a
oportunidade de receber um diagnóstico e iniciar um tratamento adequado.”
Sinais de
alerta
Embora nem todo engasgo indique uma doença, a ocorrência frequente deve ser investigada. De acordo com a médica, é fundamental que familiares e cuidadores passem a observar os sinais, que muitas vezes passam despercebidos. “O engasgo é um mecanismo de proteção do organismo. Nem todo engasgo significa doença, mas ele merece atenção, e a ausência de tosse ou de reação diante de um engasgo pode ser tão preocupante quanto sua presença, pois alguns idosos perdem sensibilidade e não conseguem se proteger adequadamente”, diz.
Dentre os principais sinais de alerta, Dra. Eliézia destaca os engasgos frequentes durante a alimentação; o pigarro constante; a alteração da voz, especialmente a chamada “voz molhada”; a demora excessiva para terminar as refeições; a perda de peso não intencional; as pneumonias de repetição; a abdicação de alimentos específicos e o isolamento social relacionado ao momento das refeições. Segundo a professora, quando o paciente passa a evitar encontros; demonstra estresse durante as refeições ou começa a se isolar por medo de engasgar, isso pode ser um indicativo importante de disfagia. “Ela pode impactar diretamente a qualidade de vida e a saúde geral da pessoa idosa. Entre os riscos mais comuns estão a desnutrição, a desidratação, o agravamento de doenças crônicas e as infecções respiratórias.”
De acordo com a
médica especialista, a dificuldade para engolir pode comprometer a ingestão
adequada de nutrientes; dificultar o uso correto de medicamentos e aumentar o
risco de aspiração de saliva ou alimentos para os pulmões, favorecendo o
surgimento de pneumonias. Ela relata que o problema também pode ser um dos
primeiros sinais de doenças neurológicas e neuromusculares. “A disfagia pode
aparecer em condições como acidente vascular cerebral; doença de Parkinson;
doença de Alzheimer; miastenia gravis e esclerose lateral amiotrófica. E
por essa razão que precisamos valorizar a deglutição na população 60+”, atesta.
Evite
complicações
Manutenção da higiene bucal; adoção de postura adequada durante as refeições e a redução de distrações estão entre as principais medidas para evitar complicações. Segundo a Dra. Eliézia, além de cuidar da saúde bucal, evitar comer deitado e não se deitar logo as refeições são atitudes importantes, assim como reduzir as distrações para que a atenção esteja voltada apenas ao ato de comer. “O convívio social é vital. Por isso, se necessário, adapte os horários ou as quantidades de alimentos consumidas durante os encontros, mas mantenha o convívio, pois ele é fundamental para a qualidade de vida.”
Para a
palestrante, a pessoa idosa precisa ter seu tempo respeitado durante as
refeições, estando em seu melhor estado de alerta e inserido em um ambiente
adequado para se alimentar com segurança. “Respeitar esses cuidados é uma
maneira importante de preservar a saúde e autonomia”, ressalta.
Associação
Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial - ABORL-CCF
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