Histórias como a da advogada Geórgia Zoia mostram como cães e gatos já ocupam papel de filhos nas famílias; enquanto Justiça ainda os trata como bens
Quando o
relacionamento chegou ao fim, a advogada Geórgia Zoia precisou lidar com uma
dor que ia além da separação amorosa: deixar de conviver diariamente com Max,
cachorro com quem construiu uma forte relação de afeto comparada à de mãe e
filho. Na época do término, ele tinha seis anos - e hoje, aos nove, segue sendo
parte fundamental da vida dela.
“No começo foi
muito difícil aceitar a ideia de que eu não o veria mais todos os dias. A gente
é muito ligado e ele também sente”, conta.
A história poderia
ser apenas mais um término comum, mas revela uma realidade cada vez mais
frequente no Brasil: disputas emocionais envolvendo pets após separações. Em
muitos casos, cães e gatos passaram a ocupar um espaço semelhante ao de filhos
dentro das famílias, enquanto a legislação brasileira ainda os enquadram como
bens patrimoniais.
Geórgia afirma não
ter dúvidas sobre o lugar que Max ocupa em sua vida. “Eu e o Max temos um laço
fortíssimo de mãe e filho. Não sou mãe de humano, mas graças a ele sou mãe de
pet e acredito sentir na mesma intensidade”, diz.
Apesar da forte
conexão emocional, a situação foi conduzida sem conflitos. Max permaneceu com a
família do ex-namorado, decisão tomada pensando no bem-estar do animal.
“Na casa da minha
mãe já havia seis gatos e nossa rotina era passar o dia inteiro fora. Então eu
entendi que o melhor para ele era permanecer lá”, relembra.
Casos como esse
ajudam a explicar por que o debate sobre guarda compartilhada de pets ganhou
espaço no Judiciário e no Congresso Nacional. Recentemente, voltou a repercutir
o avanço de propostas que buscam regulamentar regras para convivência e divisão
de despesas envolvendo animais após separações.
Para a advogada
especialista em Direito de Família, Monica Perez, o crescimento dessas
situações escancara uma transformação social que a legislação ainda não
conseguiu acompanhar.
“A lei ainda trata
o animal como patrimônio, mas a realidade das famílias mudou. Hoje, os pets
ocupam um lugar afetivo muito diferente dentro das relações”, afirma.
Segundo ela,
embora propostas de regulamentação possam ajudar a reduzir conflitos, a
discussão vai muito além de regras sobre visitas ou despesas.
“O animal sente
ausência, cria vínculos e sofre com mudanças bruscas de convivência. Estamos
falando de relações construídas no afeto, mas que ainda são analisadas
juridicamente como divisão de propriedade”, explica.
Para Geórgia,
qualquer discussão sobre guarda compartilhada precisa priorizar o bem-estar do
animal acima das mágoas do casal.
“Eles são seres
sencientes, têm sentimentos e demonstram emoções. Só quem tem um bichinho
entende esse amor e faz o impossível para vê-lo feliz”, afirma.
Ela acredita que o
respeito e a flexibilidade entre as partes são fundamentais para que a
convivência funcione. “Assim como acontece com filhos humanos, existem
imprevistos, mudanças de rotina e acordos que precisam ser ajustados com
compreensão”, completa.
Especialistas
apontam que o aumento dessas disputas acompanha uma mudança no perfil das
famílias brasileiras, onde muitos casais optam por não ter filhos, mas
constroem vínculos profundos com seus animais de estimação.
Nesse cenário, a
Justiça começa a enfrentar um desafio cada vez mais comum: encontrar maneiras
de lidar com relações emocionais intensas que a legislação ainda insiste em
tratar apenas como patrimônio.

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