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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Empresas começam a olhar para as “canetas” contra obesidade e diabetes como investimento em saúde do trabalhador

Com queda de preços prevista a partir da concorrência no mercado, medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida podem entrar na lista de benefícios corporativos, mas especialista da SBEM-SP defende critérios clínicos, acompanhamento multiprofissional e monitoramento de resposta

 

A incorporação dos medicamentos conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras” aos pacotes de benefícios oferecidos por empresas pode representar um novo passo no cuidado com a saúde dos trabalhadores. A avaliação é do Dr. Marcio Mancini, endocrinologista membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo (SBEM-SP). Para ele, a medida é bem-vinda, desde que seja acompanhada de critérios médicos claros, orientação multiprofissional e monitoramento da resposta ao tratamento. 

Mais do que medicamentos para perda de peso, essas terapias também têm papel importante no tratamento do diabetes e de outras condições metabólicas. Entre elas estão a liraglutida, a semaglutida e a tirzepatida, fármacos que vêm mudando a abordagem da obesidade por promoverem redução de peso mais expressiva do que medicações anteriores e, ao mesmo tempo, benefícios adicionais à saúde. 

“Eu acho muito bem-vinda a incorporação das canetas como benefício para os funcionários. Não são canetas somente para perda de peso, porque são canetas também para tratamento de diabetes. Com a redução do preço, com a quebra de patente da liraglutida e da semaglutida, os valores começam a ficar mais competitivos. Subsidiando parcialmente, com o funcionário pagando uma parte e a empresa outra, começa a se vislumbrar um valor factível, que deixa de ser tão oneroso ao paciente”, afirma o Dr. Marcio Mancini. 

Segundo o especialista, o tratamento adequado da obesidade pode trazer impacto global na saúde do trabalhador. Com a redução de peso e a melhora metabólica, alguns pacientes podem reduzir a necessidade de outros medicamentos, como aqueles usados para diabetes, hipertensão arterial e outras doenças associadas. 

“Eu não vejo riscos nesse cenário, e sim benefícios. Diferentemente dos remédios antigos, que focavam muito na redução do peso, esses medicamentos mais modernos, principalmente semaglutida e tirzepatida, têm muitos estudos voltados também para melhora da saúde”, explica. 

Entre os benefícios já observados com essas terapias, o endocrinologista cita estudos com semaglutida relacionados à redução de gordura no fígado e melhora da fibrose hepática, além de melhora em pacientes com insuficiência cardíaca, com aumento da distância caminhada. Há também evidências de redução de dor e menor necessidade de analgésicos, inclusive opioides, em pessoas com osteoartrose grave. No caso da tirzepatida, estudos mostram melhora expressiva da apneia do sono moderada e grave, condição que até então tinha como principal tratamento o uso do CPAP durante a noite. 

“São medicamentos realmente revolucionários e que levam à melhora da saúde. Quando a empresa investe nesse tipo de benefício, ela está investindo na saúde do funcionário”, ressalta Mancini.

 

Benefício deve ir além do custeio do medicamento

Para o especialista da SBEM-SP, no entanto, não basta que a empresa apenas subsidie parte do valor da medicação. O melhor modelo é aquele que inclui avaliação médica, acompanhamento nutricional e orientação para atividade física. 

“A empresa vai ganhar muito mais se tiver um pacote em que o paciente passe por um médico e tenha também um educador físico e um nutricionista para orientá-lo. Isso vai fazer com que as mudanças de estilo de vida sejam implementadas com mais facilidade”, afirma.

O acompanhamento também é importante para avaliar se o tratamento está funcionando. De acordo com Dr. Mancini, após o escalonamento da dose até a dose terapêutica, espera-se que o paciente perca pelo menos 5% do peso nas 12 semanas seguintes. Esse parâmetro ajuda a identificar quem responde bem à medicação e tende a ter bons resultados ao longo de um ano. 

“Se o paciente não perder esses 5%, não vale a pena manter o tratamento, porque ao final de um ano ele terá perdido pouco peso e terá pouco benefício em termos de melhora da saúde. É interessante que isso também seja monitorado pela empresa, para que ela invista no funcionário que está tendo boa resposta”, orienta.

 

Obesidade como doença crônica

A discussão também reflete uma mudança de percepção no ambiente corporativo. Para o médico, há uma tendência de as empresas passarem a enxergar a obesidade como uma doença crônica, que exige cuidado contínuo, e não apenas como uma questão estética ou de comportamento individual.

 

Critérios clínicos são fundamentais

Apesar dos benefícios, o médico reforça que o acesso a essas medicações deve obedecer a critérios médicos. O objetivo é evitar o uso inadequado por pessoas sem indicação clínica, como indivíduos com peso normal que buscam emagrecimento sem necessidade terapêutica. 

Na avaliação dos especialistas da SBEM-SP, o benefício deve ser destinado a pessoas com diabetes, obesidade ou índice de massa corporal maior ou igual a 27 associado a alguma doença relacionada. Para isso, é necessário laudo ou prescrição médica. 

“Havendo avaliação e acompanhamento médico adequados, essa medida pode trazer benefícios significativos aos funcionários. A melhora da saúde tende a torná-los mais saudáveis e, consequentemente, mais produtivos. Dessa forma, há ganho mútuo: o paciente se beneficia com melhores condições de saúde, enquanto a empresa se beneficia com o aumento da produtividade. Além disso, a melhora de comorbidades pode reduzir a necessidade de uso de outros medicamentos, diminuindo custos relacionados a diferentes condições de saúde”, reforça o presidente da SBEM-SP, Dr. Felipe Henning Gaia Duarte. 



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