A relação entre o CEO
e o Conselho está entre as mais estratégicas para a sustentabilidade
de uma empresa — e, ao mesmo tempo, as mais delicadas de administrar. Por
mais que uma divergência de pensamentos e visões entre eles seja algo natural
(e saudável) de existir, qualquer desalinhamento mais profundo nessa relação é capaz
de romper com a governança interna, prejudicando a capacidade de tomadas de
decisões com consistência, velocidade e estratégia. A grande questão, então,
é como evitar que a situação chegue a esse nível?
Por mais que muitos ainda olhem
para as divergências entre eles como uma falha, é crucial mudar essa
percepção para um sinal de maturidade interna. Afinal, os conselhos
existem, justamente, para desafiar premissas, ampliar perspectivas,
provocar reflexões e elevar a qualidade das decisões estabelecidas. Quando
todos concordam com tudo que é dito ou feito, os riscos de que os debates
estratégicos se tornem superficiais se elevam, além de
abrir espaço para que este grupo atue de forma passiva em uma posição tão
importante para o destaque corporativo.
Segundo uma pesquisa publicada no Harvard
Law School Forum on Corporate Governance, 60% desses
conflitos entre CEO e Conselho têm origem em falhas de comunicação e
expectativas de desempenho mal estabelecidas desde o início da relação - o que
torna o esclarecimento a respeito dos papéis, deveres e limites de cada
lado algo primordial para evitar essa falta de alinhamento.
Enquanto é dever do Conselho
direcionar a companhia estrategicamente, supervisionar o que é
feito, acompanhar eventuais riscos, avaliar o CEO e pensar
na perpetuidade da empresa, o C-Level deve
executar as estratégias que forem alinhadas, liderar as operações,
desenvolver as pessoas e
entregar os resultados esperados. Nesse sentido, os problemas
podem aparecer quando o conselho começa a operar empresa, ou quando a diretoria
deixa de ter transparência e alinhamento com o board, por
exemplo.
Uma relação saudável entre as partes envolve transparência, fluxo
constante de informações, clareza sobre responsabilidades, alinhamento
estratégico a longo prazo e, acima de tudo, comunicação frequente entre eles.
Não precisam concordar com tudo, mas atuar como parceiros estratégicos
alinhados à perpetuidade e sustentabilidade do negócio.
Conselhos maduros desafiam as premissas,
questionam riscos, ampliam o repertório e intencionam discussões estratégicas
que amadureçam a performance corporativa, construindo a perpetuidade
sustentável das operações. Ao mesmo tempo, bons CEOs prezam por um
conselho que agregue e desafie sua visão, com amplo repertório, experiência
e capacidade de antecipar o futuro – reduzindo vieses nas decisões e
medidas impulsivas ou concentradas nos executivos em si.
O grande ponto a este respeito é que divergências,
em si, não necessariamente são um problema, apenas quando deixam de ser
institucionais e passam a se tornar relacionais ou políticas - derivadas por
disputas internas por poder, agendas paralelas entre eles, vaidade ou,
justamente, a falta de clareza entre cada um dos seus papéis - o que
costuma ocorrer em empresas que estão em um contexto de crescimento acelerado,
em processo de sucessão familiar, ou que mantiveram estruturas antigas ou
arcaicas que não fazem mais sentido no mercado atual.
Uma boa governança transforma essas divergências em
oportunidades de qualificar as tomadas de decisões, estabelecendo uma visão
forte a longo prazo que traga resultados que gerem valor ao negócio. Não é
sobre evitar tensão, mas usá-la de forma positiva
como inteligência coletiva, gerando debates saudáveis com respeito
institucional que sempre se comprometam com o melhor interesse para a empresa
em si.
Essa é uma jornada eterna, que não existe regra de bolo que sirva para toda empresa. Apesar disso, boas práticas podem ser inspiradas como pilar central em cada negócio, de forma que essas diferenças sejam encaradas como algo positivo a favor de fortalecer a governança e tomadas de decisões, fortalecendo cada vez mais as operações como um todo.
Jordano Rischter - headhunter e sócio da Wide Executive Search, boutique de recrutamento executivo focado em posições de alta e média gestão.
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