Especialista alerta para o desgaste emocional vivido por mulheres que passam anos tratando o problema errado antes de descobrir doença crônica ainda pouco reconhecida no Brasil
Mulheres que passam anos ouvindo que precisam apenas emagrecer, ter mais disciplina ou “se esforçar mais” para lidar com dores, inchaços e alterações corporais. Segundo o Dr. Fábio Kamamoto, diretor do Instituto Lipedema Brasil, esse é um dos impactos mais invisíveis — e menos discutidos — do lipedema no Brasil hoje.
Embora estimativas indiquem que cerca de 10 milhões de brasileiras convivam com a doença, o lipedema ainda é frequentemente confundido com obesidade, retenção de líquido e problemas vasculares, fazendo com que muitas pacientes percorram uma longa trajetória de tratamentos sem resultado antes do diagnóstico correto.
“O que vemos no consultório não é apenas o impacto físico da doença, mas um desgaste emocional muito profundo. Muitas mulheres chegam acreditando que falharam durante anos, porque fizeram dietas, tratamentos, exercícios e ainda assim não tiveram a resposta esperada”, afirma o médico.
Na prática clínica, Kamamoto relata que é comum receber pacientes que passaram por inúmeros especialistas, dietas extremamente restritivas, tratamentos vasculares recorrentes e até cirurgias sem melhora significativa dos sintomas. Em alguns casos, o atraso no diagnóstico acaba impactando diretamente a relação dessas mulheres com alimentação, autoestima e imagem corporal.
“Muitas desenvolveram uma relação de culpa constante com o
próprio corpo. Existe uma sensação recorrente de que o problema era falta de
esforço ou disciplina, quando na verdade havia uma doença que nunca foi
identificada corretamente”, explica.
Caso real - A administradora paulistana Leila Alves de Oliveira Lima, de 38 anos, viveu esse processo durante quase uma década. Beneficiada pelo programa social da ONG Movimento Lipedema, organização vinculada ao Instituto Lipedema Brasil, antes de descobrir o lipedema, passou por nutricionistas, endocrinologistas, medicações e chegou a realizar cirurgia bariátrica na tentativa de controlar sintomas que persistiam. “Eu seguia tudo o que me orientavam, mas nada resolvia completamente. Existia uma sensação constante de frustração”, relembra.
Segundo especialistas, o crescimento das discussões sobre
lipedema também tem ampliado debates sobre saúde feminina, cultura da dieta e
doenças historicamente subdiagnosticadas em mulheres. Hoje, o Brasil ainda não
possui protocolos amplamente consolidados para diagnóstico e tratamento do
lipedema no sistema público de saúde, o que contribui para o atraso no
reconhecimento da doença e amplia os impactos físicos, emocionais e financeiros
dessa jornada.
Fontes
Dr. Fábio Kamamoto - cirurgião plástico e diretor do
Instituto Lipedema Brasil
Leila Alves de Oliveira Lima - paciente diagnosticada
após anos de tratamentos equivocados
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