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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Maior estudo genômico do Brasil encontra mutação hereditária em 1 a cada 10 pacientes com câncer e em quase 40% dos seus familiares

Estudo nacional com sequenciamento de genoma completo em pacientes com câncer de mama, próstata e colorretal no SUS mostra que até 10,7% dos casos têm origem hereditária e que 38% dos seus familiares carregam as mesmas variantes, evidenciando o papel estratégico do teste genético no rastreamento, na prevenção e na organização do cuidado oncológico na saúde pública 

 

Publicado inicialmente online e com edição prevista para o volume de junho de 2026 da revista científica The Lancet Regional Health – Americas, o Brazilian Genome Map Oncology Subproject traz evidências inéditas sobre o impacto da genômica no cuidado oncológico no Brasil. O estudo realizado no âmbito do PROADI-SUS, mostra que entre 7,1% e 10,7% dos pacientes com câncer de mama, próstata e colorretal apresentam variantes germinativas patogênicas ou provavelmente patogênicas associadas à predisposição hereditária. O achado ganha ainda mais relevância quando analisado em conjunto com os dados familiares, que mostra que entre os parentes testados, 38% carregavam a mesma alteração genética, consolidando o potencial do rastreamento em cascata como estratégia de prevenção e diagnóstico precoce.

Na prática, os resultados demonstram que o teste genético não se limita ao paciente, mas se expande para a família, permitindo identificar indivíduos com risco elevado antes do desenvolvimento da doença. Trata-se de um movimento que desloca o cuidado oncológico de uma abordagem centrada no tratamento para um modelo que incorpora prevenção, vigilância e estratificação de risco com base em evidências genômicas.

“Quando encontramos uma alteração genética hereditária no paciente, conseguimos investigar de forma muito mais direta os seus respectivos familiares, procurando exatamente essa mesma alteração. Isso torna o processo mais simples, rápido e acessível. No estudo, vimos que 38% dos familiares testados também tinham essa alteração, o que mostra que é possível identificar pessoas com maior risco antes mesmo de a doença aparecer, abrindo espaço para prevenção e diagnóstico precoce”, afirma o urologista e cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR), coordenador dos Departamentos Cirúrgicos Oncológicos da BP e pesquisador principal do estudo.

Os dados mostram ainda que a presença de mutações hereditárias varia conforme o tipo de tumor. A maior frequência foi observada no câncer de mama, com 10,7% dos casos, seguida pelo câncer de próstata, com 9,2%, e pelo câncer colorretal, com 7,1%. Essa distribuição reflete o papel já conhecido de genes como BRCA1, BRCA2 e TP53 nos tumores de mama, de ATM, CHEK2 e HOXB13 nos tumores de próstata e de genes de reparo de DNA, como MLH1, MSH6 e PMS2, nos tumores colorretais.

“Os resultados mostram que cerca de 10% dos pacientes carregam variantes germinativas relevantes, mas esse número varia conforme o tipo de tumor. No câncer de mama, por exemplo, essa proporção é maior, enquanto no colorretal é menor, embora ainda significativa. Isso reforça que a genética tem um papel diferente em cada doença, mas, em todos os casos, a identificação dessas variantes muda a forma como conduzimos o cuidado”, explica Guimarães.


PROADI-SUS e o fluxo integrado do estudo

O estudo foi desenvolvido dentro do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde, o PROADI-SUS, que viabiliza projetos estruturantes em parceria com hospitais de excelência. No caso do braço oncológico do Brazilian Genome Map, o desenho conecta centros de referência distribuídos pelo país a um laboratório central de genômica, sob coordenação da BP.

O fluxo assistencial começa com a inclusão de pacientes com diagnóstico recente de câncer, passa pela coleta de dados clínicos, epidemiológicos e familiares e pela obtenção de amostras de sangue e tecido tumoral. Essas amostras são submetidas ao sequenciamento de genoma completo, permitindo a análise integrada de variantes germinativas e somáticas. O processo inclui aconselhamento genético antes e depois dos testes e, nos casos positivos, a oferta de testagem direcionada para familiares.

Esse modelo cria uma ponte direta entre pesquisa e prática clínica, permitindo que os resultados retornem ao paciente e à sua família com recomendações baseadas em diretrizes internacionais. Ao mesmo tempo, consolida um banco de dados robusto para análises futuras, ampliando o potencial de impacto em saúde pública. Conforme explica Guimarães, é uma estratégia que, ao ser incorporada de forma progressiva no SUS, pode contribuir para reduzir desigualdades no acesso ao diagnóstico genético e qualificar a tomada de decisão clínica em diferentes níveis de atenção.


Perfil clínico e fatores de risco reforçam relevância do rastreamento

Além dos achados genéticos, o estudo traça um panorama detalhado dos pacientes incluídos. A média de idade ao diagnóstico variou entre 55 anos no câncer de mama, 65,3 anos no câncer de próstata e 58,9 anos no colorretal. Houve predominância de mulheres, reflexo do peso do câncer de mama na amostra, e maioria de indivíduos autodeclarados pardos.

Os dados de estilo de vida mostram diferenças relevantes entre os grupos. O tabagismo foi menos frequente entre pacientes com câncer de mama, enquanto o consumo de álcool foi mais elevado entre os pacientes com câncer de próstata. A alimentação apresentou padrões semelhantes entre os três tipos tumorais, com alta ingestão de açúcar refinado e consumo frequente de alimentos ultraprocessados, além de elevada prevalência de sedentarismo.

Outro ponto de destaque é o histórico familiar. Os dados mostram que 75,3% dos pacientes relataram pelo menos um parente com câncer, com alta frequência de casos em familiares de primeiro e segundo grau. Entre esses familiares, os tumores mais comuns incluíram próstata, mama, cólon (intestino grosso), pulmão e neoplasias hematológicas, evidenciando a diversidade de manifestações associadas à predisposição genética.

Esse conjunto de informações reforça que o risco oncológico não é determinado apenas por fatores genéticos isolados, mas por uma interação complexa entre herança, ambiente e comportamento. Nesse contexto, a incorporação da genômica permite refinar essa análise e orientar estratégias mais personalizadas.


Impacto direto na prevenção e no cuidado oncológico

A combinação entre sequenciamento genômico, aconselhamento genético e rastreamento em cascata aponta para uma transformação do cuidado oncológico no SUS. Ao identificar indivíduos em risco elevado, torna-se possível antecipar diagnósticos, ajustar estratégias de vigilância e, em alguns casos, implementar medidas preventivas antes do surgimento da doença.

“Esse modelo integrado mostra que conseguimos sair da pesquisa e chegar ao paciente. O sequenciamento de genoma completo, associado ao aconselhamento genético e ao rastreamento em cascata, permite identificar indivíduos de alto risco, orientar estratégias de prevenção e, ao mesmo tempo, direcionar o tratamento com base em alterações moleculares. Isso tem o potencial de transformar o cuidado oncológico no SUS, tornando-o mais preciso, mais eficiente e mais focado no paciente e na sua família”, afirma Guimarães.

Além do impacto na prevenção, os dados genômicos também contribuem para o direcionamento terapêutico, especialmente com a identificação de variantes somáticas que podem orientar o uso de terapias-alvo e influenciar decisões clínicas. O estudo demonstra, assim, que a medicina de precisão é viável no contexto do sistema público brasileiro e pode ser incorporada de forma estruturada.

O estudo foi conduzido em nove centros públicos de referência em oncologia distribuídos pelas cinco regiões do Brasil, refletindo a diversidade populacional e epidemiológica do país. A iniciativa integra o Programa Brasileiro de Genoma e contou com financiamento do Ministério da Saúde, por meio do PROADI-SUS.



O artigo científico 

Ferreira FO, Rossi BM, Palmero EI, Carvalho Barros LR, Domingos de Nicola P, Monteiro Dos Santos EM, Pereira de Souza J, Thiago de Souza-Santos P, Matta BP, da Silva Sabato C, Braz NC, Monteleone VF, Campacci N, Bastos GM, Guerra TS, Quirino CV, Pereira N, de Oliveira Costa M, Alves da Silva A, Serra AL, Lopes AJ, Alves Coelho BL, Mylla de Aguiar D, Chagas GL, Silva da Costa J, Lima JF, Jaqueline de Souza M, Oliveira SR, da Fonseca C, Cascapera F, Alencar de Moura FA, Perroni Dos Santos G, Guimaraes da Silva L, Campacci L, Sacilotto L, Soares Dos Santos S, Queiroz WDS, Goto GT, Badesso Fonseca TR, De Oliveira Mattoschoell VY, Rosa RO, Sandoval RL, Gambardella DD, Ciconelli RM, Beraldo da Costa Saad M, Guimaraes GC; Collaborative Working Group “Brazilian Genome Map Oncology - BGMO”. The Brazilian Genome Map Oncology Subproject: a nationwide multicentre hospital-based whole-genome sequencing study of breast, prostate, and colorectal cancer. Lancet Reg Health Am. 2026 Apr 27;58:101470. Disponível em https://www.thelancet.com/journals/lanam/article/PIIS2667-193X(26)00100-6/fulltext

  

Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica Dr. Gustavo Guimarães – IUCR


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