Durante décadas,
organizações estruturaram suas estratégias comerciais partindo de um
pressuposto simples: do outro lado da jornada existe uma pessoa. Branding,
relacionamento e experiência foram desenhados para decisões humanas, muitas
vezes guiadas por emoção e percepção. No entanto, esse pressuposto está prestes
a mudar – e muito em breve.
Com a evolução dos
agentes de Inteligência Artificial (IA), surge um novo tipo de consumidor: o “machine
customer”. Estamos falando de sistemas capazes de pesquisar,
comparar, decidir e executar compras em nome de pessoas ou empresas. E essa
transformação já começou. Segundo uma pesquisa, quase 70% das organizações devem integrar agentes
de IA em seus fluxos de trabalho já em 2026 – um sinal claro de que a tomada de
decisão automatizada está se tornando parte da operação. Outros levantamentos indicam que até 79% das empresas já possuem
iniciativas com agentes em andamento, reforçando que a adoção deixou de ser
experimental e passou a ser estratégica.
O impacto dessa
mudança é profundo. Quando o cliente deixa de ser humano, a lógica de decisão
muda. Máquinas operam com base em critérios objetivos: preço, qualidade,
disponibilidade e prazo. Isso aumenta a comparabilidade entre ofertas e tende a
pressionar margens. Esse movimento já começa a reorganizar o mercado. À medida
que agentes assumem a interface de decisão, a Internet passa a se dividir em
duas camadas – uma voltada para humanos e outra para sistemas automatizados.
Dentro dessa
mudança estrutural, quando o cliente deixa de ser humano, a lógica de decisão
muda radicalmente. Máquinas não são influenciadas por marca ou storytelling.
Elas operam com base em critérios objetivos. Isso aumenta a comparabilidade
entre ofertas e pressiona margens, especialmente em mercados comoditizados.
Além disso, a competição muda de natureza. Em um ambiente orientado por
agentes, dados estruturados, integração e confiabilidade passam a ser fatores
decisivos. Não basta mais convencer o cliente: é preciso ser elegível para o
algoritmo.
Estudos recentes indicam que a adoção de agentes já é
significativa – mais de 70% das companhias os utilizam em atividades como
pesquisa digital – e cresce também a percepção de uma nova “web agêntica”, em
que sistemas automatizados passam a interagir diretamente entre si. O impacto
direto está nos canais. A lógica “interface-first” dá lugar a um modelo “API-first”,
no qual sistemas passam a interagir diretamente entre si. A experiência deixa
de ser apenas do usuário e passa a incluir a “machine experience”.
Setores como
financeiro e pagamentos já estão avançando nesse sentido. Em 2026, a Mastercard
realizou suas primeiras transações financeiras end-to-end com
agentes de IA na América Latina, com autorização, rastreabilidade e controle –
ainda em ambiente controlado, mas funcional. Porém, a adoção em escala ainda
enfrenta desafios relevantes. O principal não está na decisão, que já pode ser
automatizada, mas na execução. Pagamentos, compliance, fraude e responsabilidade
sobre transações ainda não estão totalmente preparados para agentes autônomos.
Isso ajuda a explicar um fenômeno recente: enquanto a IA já transforma a
descoberta e comparação de produtos, a etapa final de compra ainda permanece
parcialmente restrita.
À medida que
agentes de IA ganham autonomia e assumem papéis cada vez mais estratégicos,
cresce também a oportunidade de fortalecer controle, governança e
confiabilidade em sua adoção. Um levantamento recente mostra que cerca de 80% das empresas
reconhecem a importância de evoluir seus modelos de governança de IA para atender
plenamente a requisitos de auditoria, mesmo já utilizando esses sistemas em
decisões críticas. Outro estudo reforça que o grande potencial desses sistemas está
justamente em sua capacidade de escala: quando bem monitorados e orientados,
tornam-se poderosos amplificadores de produtividade, eficiência e qualidade
operacional.
Nesse contexto,
torna-se evidente que alinhar velocidade de adoção com mecanismos robustos de
controle e governança será um dos principais diferenciais competitivos na
próxima fase da transformação impulsionada por IA. Por isso, esse cenário exige
uma abordagem pragmática. Empresas não precisam esperar maturidade total do
mercado. O caminho mais eficaz é a experimentação faseada, começando com
escopos controlados, definindo limites claros, testando interações e expandindo
gradualmente a autonomia.
Mais do que uma
mudança tecnológica, trata-se de uma mudança no modelo de negócio. Produtos
precisam ser estruturados para serem consumidos por máquinas. Já sistemas
precisam ser integráveis, e decisões precisam ser auditáveis. A pergunta,
portanto, não é se esse cenário vai acontecer, mas quando.
Companhias que
iniciarem desde já a estruturação de dados, a documentação de APIs, o redesenho
de jornadas para clientes máquina e a construção de frameworks de governança
para transações agênticas estarão, na prática, desenvolvendo capacidades
críticas de forma antecipada. Esse movimento permite aprender mais cedo,
evoluir com consistência e consolidar uma base sólida que acelera a captura de
valor ao longo do tempo – resultando em uma vantagem competitiva difícil de
replicar apenas com velocidade ou investimentos tardios. E, em um ambiente onde
decisões passam a ser automatizadas, aprender antes pode ser a diferença entre
participar da escolha, ou sequer ser considerado por ela, já que o “cliente
máquina” não tem paciência com sistemas legados. Ele simplesmente não volta.
Eduardo Villela - Diretor de Dados & IA no Brasil da GFT Technologies
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