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Maio
costuma ser lembrado pelas homenagens às mães. Mas, por trás das mensagens de
afeto e celebração, existe uma realidade que ainda é pouco falada: muitas
mulheres atravessam a maternidade em silêncio, lidando com medo, culpa,
exaustão e tristeza em um período que, socialmente, ainda é tratado como
sinônimo obrigatório de felicidade.
A
campanha Maio Furta-cor, movimento voltado à conscientização sobre a saúde
mental materna. A proposta é chamar atenção para os impactos emocionais da
gestação, do parto, do puerpério e da maternidade, lembrando que cuidar da mãe
também é uma forma de cuidar do bebê e de toda a família.
Um
levantamento da Fundação Oswaldo Cruz aponta que mais de 25% das mães
brasileiras são afetadas pela depressão pós-parto. Um problema que, muitas
vezes, é confundido com cansaço, adaptação à nova rotina ou até falta de
preparo para a maternidade.
Nos
primeiros dias após o nascimento do bebê, é comum que a mulher enfrente uma
oscilação emocional intensa. Esse período é conhecido como baby blues, ou blues
puerperal, uma tristeza leve e passageira que atinge cerca de 70% a 80% das
mulheres no pós-parto. O quadro costuma surgir entre o 2º e o 5º dia após o
parto e pode provocar choro fácil, irritabilidade, ansiedade, sensibilidade
emocional e sensação de sobrecarga.
Na
maioria das vezes, o baby blues está ligado às mudanças hormonais bruscas, à
exaustão física, à privação de sono e ao próprio processo de adaptação à
chegada do bebê. Os sintomas costumam desaparecer espontaneamente em até duas
semanas. O alerta surge quando essa tristeza não passa, quando a angústia se
aprofunda.
Quando
sentimentos como exaustão extrema, tristeza profunda, culpa, medo constante,
isolamento, ansiedade intensa ou dificuldade de criar vínculo com o bebê persistem,
o quadro pode indicar depressão pós-parto e precisa de acompanhamento
especializado.
Para
Dra. Mayara Rizzardi, psicóloga do Complexo Hospitalar Santa Casa de Bragança
Paulista, um dos maiores desafios ainda é romper com a ideia de que a mãe
precisa dar conta de tudo sozinha. “A maternidade ainda é cercada por uma
expectativa muito rígida de felicidade. Quando a mulher sente tristeza, medo ou
culpa, muitas vezes ela acha que está falhando. Mas sofrimento emocional no
pós-parto não é fraqueza, não é falta de amor e não deve ser enfrentado em
silêncio”, explica.
A
depressão pós-parto pode estar relacionada a diferentes fatores. Alterações
hormonais, privação de sono, histórico de ansiedade ou depressão, falta de rede
de apoio, dificuldades financeiras, gravidez não planejada, conflitos
familiares, experiências traumáticas e sobrecarga nos cuidados com o bebê podem
contribuir para o surgimento ou agravamento do quadro.
Os
sinais nem sempre aparecem de forma evidente. Em algumas mulheres, o sofrimento
se manifesta pelo choro frequente e pela tristeza persistente. Em outras, vem
como irritabilidade, sensação de incapacidade, medo excessivo de não cuidar bem
do bebê, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações no sono
e no apetite, dificuldade de concentração e isolamento.
“Nem
toda mãe vai dizer claramente que está deprimida. Às vezes, ela apenas se
afasta, fica mais irritada, perde o brilho, sente culpa por tudo ou passa a
acreditar que não é uma boa mãe. Por isso, a escuta precisa ser atenta, sem
julgamento e sem minimizar o que ela está sentindo”, afirma.
A
prevenção passa por um cuidado que começa antes mesmo do parto. Durante a
gestação, é importante que a saúde emocional da mulher seja acompanhada com a
mesma atenção dedicada aos exames físicos. Perguntas simples, como “você tem
conseguido descansar?”, “tem se sentido apoiada?”, “sente medo ou tristeza com
frequência?” e “com quem você pode contar?”, podem abrir espaço para
identificar vulnerabilidades antes que o sofrimento se agrave.
No
pós-parto, a rede de apoio tem papel decisivo. Mais do que visitar o bebê,
familiares e pessoas próximas precisam olhar para a mãe. Ajudar nas tarefas da
casa, permitir que ela descanse, dividir cuidados, ouvir sem julgamentos e
incentivar a busca por ajuda profissional são atitudes que podem fazer
diferença.
“Frases
como ‘isso é normal’, ‘toda mãe passa por isso’ ou ‘você precisa ser forte’
podem silenciar uma mulher que está pedindo socorro. O acolhimento real
acontece quando alguém escuta, valida o sofrimento e ajuda essa mãe a chegar ao
cuidado adequado”, destaca.
Complexo Hospitalar Santa Casa de Bragança Paulista

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