Dados de atendimento do maior e mais
completo hospital pediátrico do país reforçam que a primeira infância concentra
a maioria dos casos de violência
Essa imagem foi gerada por IA
com edição de Wynitow Butenas
Ela não sabe falar. Não consegue pedir ajuda. Depende totalmente de quem deveria protegê-la. E, mesmo tão vulnerável e incapaz de qualquer autonomia, sofreu violência sexual no ambiente doméstico. Esse triste exemplo retrata uma das 637 crianças e adolescentes atendidos pelo Hospital Pequeno Príncipe em Curitiba, em 2025, por suspeita de violência. A criança mais nova trazida à instituição no ano passado, com indícios de abuso sexual, foi uma bebê que tinha apenas 6 meses de vida. Em outro caso, um bebê de 10 dias precisou ser internado sob cuidados intensivos, com múltiplas lesões físicas. Situações extremas — mas que estão longe de ser isoladas.
Os dados mostram um padrão alarmante: esse tipo de agressão contra
crianças começa cada vez mais cedo, concentra-se justamente na fase de maior
vulnerabilidade e é cometida por quem deveria zelar por elas. Dos atendimentos
de crianças e adolescentes vítimas de violência pelo Hospital em 2025, 67% tinham
até 6 anos de idade. Esse número evidencia que a primeira
infância é hoje o principal grupo de risco e revela uma realidade silenciosa:
crianças que ainda não conseguem compreender ou relatar a violência dependem
exclusivamente do olhar atento e da ação de adultos próximos para serem protegidos.
Quando
a violência acontece onde deveria existir proteção
E não só começa cedo — acontece dentro de casa. Em 2025, 70% das ocorrências atendidas pelo Hospital (considerando crianças até 6 anos de vida) foram registradas como violência intrafamiliar, envolvendo pessoas próximas à criança. Esse contexto torna o problema ainda mais complexo, já que muitas vítimas convivem diariamente com o agressor.
Além
disso, os episódios raramente são isolados. Em 70 casos envolvendo a primeira
infância, os profissionais conseguiram identificar, por meio de marcas ou
lesões, que não foi a primeira vez que aconteceu. A agressão se repete —
prolongando o sofrimento e agravando as consequências no desenvolvimento físico
e emocional.
A
violência que mais se repete — e mais se esconde
Entre todos os tipos de agressão, a sexual segue como a mais
recorrente e a mais devastadora. Em 2025, ela representou 64% dos
atendimentos realizados pelo Hospital Pequeno Príncipe. E,
novamente, os dados apontam para a primeira infância: dos 425 casos, 305 vítimas
desse tipo de violação tinham até 6 anos de idade. São crianças
que, na maioria das vezes, não conseguem relatar o que aconteceu — o que torna
as situações ainda mais invisíveis e difíceis de interromper.
Violência afeta o desenvolvimento cerebral na infância
Quando a violência começa tão cedo — e muitas vezes se repete dentro do ambiente familiar —, os impactos vão muito além do momento da agressão. A ciência já demonstra que a violência na primeira infância não é apenas um evento pontual.
De acordo com o Center on the Developing Child, da Universidade de Harvard, situações de abuso, negligência ou violência geram o chamado “estresse tóxico”, que pode alterar a arquitetura do cérebro em formação, prejudicando funções essenciais como memória, aprendizagem e controle emocional.
A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a violência na infância está associada a prejuízos no desenvolvimento cognitivo, dificuldades escolares e maior probabilidade de problemas de saúde mental ao longo da vida.
“A violência sofrida na primeira infância pode ter impacto profundo e duradouro no desenvolvimento da criança, porque esse é um período de intensa maturação cerebral. Por isso, proteger a criança nos primeiros anos é uma medida essencial de promoção de saúde e desenvolvimento”, avalia o neuropediatra Anderson Nitsche, do Hospital Pequeno Príncipe.
Na prática, isso significa que a violência não termina quando o
episódio acaba. Ela pode comprometer o crescimento e a saúde emocional da
criança e perpetuar ciclos de vulnerabilidade na vida adulta.
Duas décadas de enfrentamento à violência
Em um cenário que se mantém, o Hospital Pequeno Príncipe já ultrapassou dez mil atendimentos de crianças e adolescentes em situação de risco nas últimas duas décadas — um crescimento de 126% na série histórica e um indicativo da persistência da violência contra esse público.
Diante dessa realidade, o principal desafio não é somente tratar as vítimas, e sim interromper o ciclo da violência. A proteção da infância exige uma rede ativa: familiares, professores, profissionais da saúde, cuidadores, vizinhos, poder público e toda a sociedade.
É nesse contexto que a Campanha Pra Toda Vida, do Hospital Pequeno Príncipe, completa 20 anos em 2026 como uma das principais iniciativas do país no enfrentamento da violência contra crianças e adolescentes. Criada para romper o silêncio e incentivar a denúncia, a campanha evoluiu e hoje se consolida como um movimento contínuo de proteção, baseado em dados, produção de conhecimento e atuação integrada com a rede de cuidado.
Referência, o Hospital Pequeno Príncipe atua não só no acolhimento das vítimas, mas também na formação de profissionais, no compartilhamento de informações, na geração de evidências e na mobilização da sociedade.
Em 2026, com o mote “Proteger a infância é um compromisso de todos”, a iniciativa reforça que enfrentar a violência contra crianças e adolescentes é uma responsabilidade coletiva — e urgente.
“O Pequeno Príncipe chama atenção para a importância de todos os
atores sociais estarem atentos ao enfrentamento da violência contra crianças e
adolescentes. Quando a violência atinge crianças tão pequenas, estamos falando
de uma realidade que depende da ação de todos. Pela pouca idade, muitas vezes a
criança não consegue identificar os maus-tratos nem pedir ajuda, o que torna
essencial um olhar atento para interromper essas situações”, afirma a
diretora-executiva do Hospital Pequeno Príncipe, Ety Cristina Forte Carneiro.
Denunciar
pode mudar uma história
A denúncia é o primeiro passo para interromper a violência — e
pode ser feita de forma anônima.
- Disque 100 (nacional)
- 181 (Paraná)
- 156 (Curitiba)
Para
saber mais sobre a campanha, consulte o hotsite no Link.
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