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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Cânceres de pâncreas, estômago, fígado, esôfago, peritônio e colorretal somam mais de 70 mil mortes por ano no Brasil

Levantamento a partir de dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, realizado pelo cirurgião oncológico Felipe Coimbra, sobre tumores abdominais, mostra que esses seis grupos de tumores abdominais concentram cerca de 74 mil óbitos anuais no país. Com sintomas pouco específicos nas fases iniciais e diagnóstico frequentemente tardio, essas doenças apresentam elevada letalidade e evidenciam a importância de prevenção, vigilância de grupos de risco e acesso oportuno ao tratamento 

 

Mais de 70 mil brasileiros morrem, todos os anos, em decorrência de cânceres abdominais como pâncreas, estômago, fígado, esôfago, peritônio e colorretal. Em 2025, esses tumores somaram 74.001 mortes no país, segundo levantamento a partir de dados do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, realizado pelo cirurgião oncológico Felipe José Fernández Coimbra. O câncer colorretal, que reúne cólon e reto, respondeu por 23.539 óbitos. Na sequência aparecem o câncer de pâncreas, com 14.571 mortes; o de estômago, com 14.363; o de fígado, com 11.305; o de esôfago, com 8.245; e as neoplasias do peritônio, com 1.978 mortes .

Os dados contemplam as neoplasias malignas do pâncreas (CID C25), do estômago (CID C16), do fígado (CID C22), do esôfago (CID C15), dos tecidos moles do retroperitônio e do peritônio (CID C48) e do câncer colorretal, que reúne as neoplasias malignas do cólon (CID C18) e do reto (CID C20), conforme a Classificação Internacional de Doenças. A análise desses códigos permite observar a evolução da mortalidade ao longo dos últimos anos e dimensionar o peso desses tumores na carga oncológica brasileira.

A série histórica revela crescimento consistente em praticamente todos esses cânceres. O câncer de pâncreas, por exemplo, passou de 10.754 mortes em 2017 para 14.571 em 2025. No mesmo período, o câncer de fígado subiu de 10.201 para 11.305 óbitos, enquanto o de estômago manteve patamar elevado, com pequenas variações anuais. O câncer de esôfago também se mantém estável em níveis altos, sempre acima de 8 mil mortes por ano. Já o câncer colorretal apresenta aumento progressivo, acompanhando a tendência de crescimento da incidência no país.

 

Levantamento de mortalidade por câncer no Brasil – Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) – Ministério da Saúde. 

Câncer

2025

2024

2023

2022

2021

2020

2019

2018

2017

Estômago

14.363

14.917

14.824

14.340

14.260

13.850

15.111

14.762

14.314

Esôfago

8.245

8.677

8.429

8.517

8.430

8.307

8.716

8.649

8.554

Fígado

11.305

11.688

11.119

10.618

10.598

10.764

10.902

10.551

10.201

Cólon

16.680

16.730

15.845

13.921

13.167

12.422

12.768

12.196

11.791

Reto

6.859

6.665

6.114

5.573

5.401

5.239

5.472

5.370

5.168

Peritônio

1.978

1.844

1.865

1.817

1.715

1.445

1.448

1.385

1.326

Pâncreas

14.571

14.379

13.507

12.654

11.974

11.893

11.801

11.099

10.754


A elevada mortalidade está diretamente associada ao diagnóstico tardio. Em grande parte dos casos, esses tumores evoluem de forma silenciosa, com sintomas inespecíficos que dificultam o reconhecimento precoce. O câncer de pâncreas é o exemplo mais emblemático dessa dinâmica. Embora represente cerca de 1% dos diagnósticos oncológicos no Brasil, responde por aproximadamente 5% das mortes por câncer.

“O câncer de pâncreas é um dos maiores desafios justamente porque ele se desenvolve de forma silenciosa e agressiva”, afirma Felipe José Fernández Coimbra, cirurgião oncológico, secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), Diretor Internacional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica e Head do Instituto Integra Saúde. “Os sintomas iniciais são vagos, como dor abdominal ou lombar difusa, perda de peso ou fraqueza, diabetes, e acabam sendo atribuídos a problemas comuns do dia a dia, o que atrasa a investigação”, aponta.  

 

Incidência no Brasil e no mundo

Embora o foco central deste levantamento seja a mortalidade, os dados de incidência ajudam a dimensionar a magnitude desses tumores. As estimativas do Instituto Nacional de Câncer para o triênio 2026–2028 indicam que o Brasil deverá registrar cerca de 59,5 mil novos casos por ano considerando quatro cânceres abdominais: estômago, pâncreas, esôfago e fígado .

A esse conjunto soma-se o câncer colorretal, que, isoladamente, apresenta estimativa de 53.810 novos casos anuais. Quando analisados em conjunto, esses cinco grupos de tumores abdominais ultrapassam 113 mil novos casos por ano no Brasil, evidenciando a dimensão epidemiológica dessas doenças.

Dentro desse total, o câncer colorretal é o mais incidente, seguido pelo câncer de estômago, com 22.530 novos casos anuais. Na sequência aparecem o câncer de pâncreas, com 13.240 casos por ano; o câncer de fígado, com 12.350; e o câncer de esôfago, com 11.390 novos diagnósticos anuais . O crescimento proporcional mais acentuado ocorre no câncer de pâncreas, que apresenta aumento superior a 20% em relação ao triênio anterior .

No cenário global, a relevância desses tumores também é expressiva. Em 2022, o câncer colorretal registrou cerca de 1,9 milhão de novos casos no mundo, seguido pelo câncer de estômago, com aproximadamente 968 mil, pelo câncer de fígado, com 866 mil, e pelos tumores de esôfago e pâncreas, ambos com cerca de 510 mil novos diagnósticos . Esses números refletem a ampla distribuição de fatores de risco, como alimentação inadequada, sedentarismo, consumo de álcool, tabagismo e infecções crônicas, além do envelhecimento populacional.

 

 Levantamento de incidência de câncer abdominal no mundo de acordo com o Globocan 2022, da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer (IARC/OMS) 

Câncer

Incidência

Mortalidade

Estômago

968.784

660.175

Esôfago

511.054

445.391

Fígado

866.136

758.725

Colorretal

1.926.425

904.019

Pâncreas

510.992

467.409

 

 

Mortalidade em comparação com o mundo 

Os dados brasileiros encontram paralelo no cenário internacional, onde esses tumores também apresentam alta letalidade. Em 2022, de acordo com a Agência Internacional para Pesquisa do Câncer da Organização Mundial da Saúde (IARC/OMS) o câncer colorretal foi responsável por mais de 904 mil mortes no mundo, enquanto o câncer de fígado causou cerca de 758 mil óbitos e o de estômago aproximadamente 660 mil. O câncer de pâncreas registrou cerca de 467 mil mortes e o de esôfago aproximadamente 445 mil, mantendo-se entre os tumores mais letais globalmente.

De acordo com Coimbra, a combinação entre biologia agressiva e diagnóstico tardio explica boa parte desses números. “Estamos falando de tumores em que a cirurgia, quando possível, continua sendo a principal chance de cura, mas ela só é viável quando o diagnóstico é feito a tempo”, afirma. 

 

Incidência, mortalidade e sobrevida em cinco anos nos Estados 

Nos Estados Unidos, a partir de dados do National Cancer Institute (NCI), é possível analisar de forma integrada a incidência, mortalidade e sobrevida em cinco anos. Para 2026, são estimados 158.850 novos casos de câncer colorretal, com 55.230 mortes; 67.530 casos de câncer de pâncreas, com 52.740 óbitos; 42.340 casos de câncer de fígado, com 30.980 mortes; 22.530 casos de câncer de esôfago, com 16.290 óbitos; e 31.510 casos de câncer de estômago, com 10.750 mortes.

A sobrevida em cinco anos varia de forma significativa entre os diferentes tumores e está diretamente relacionada ao estágio da doença no momento do diagnóstico. Quando o câncer é identificado em fase localizada (restrito ao órgão de origem, sem disseminação para linfonodos ou outros órgãos) as chances de tratamento curativo são substancialmente maiores.

Nesse cenário, os dados mostram diferenças marcantes entre os tumores. No câncer colorretal, a sobrevida em cinco anos em doença localizada é de cerca de 90%. No câncer de estômago, essa taxa fica em torno de 70%. Já no câncer de esôfago, a sobrevida em estágio localizado gira em torno de 47%. No câncer de fígado, os casos diagnosticados precocemente apresentam sobrevida próxima de 35%. No câncer de pâncreas, apesar da baixa sobrevida global, a taxa pode alcançar cerca de 44% quando o tumor é identificado ainda restrito ao órgão, porém observando-se melhora significativa nos últimos anos.

Quando se consideram todos os estágios da doença, essas taxas caem de forma significativa: 65,4% para câncer colorretal, 39,8% para estômago, 22,2% para esôfago, 21,9% para fígado e 13,7% para pâncreas. A diferença entre esses cenários evidencia o impacto direto do diagnóstico precoce no prognóstico.

“Quando olhamos para esses dados de sobrevida por estágio (estadiamento), fica evidente que não estamos lidando apenas com tumores biologicamente agressivos, mas com doenças que, em grande parte, estão sendo diagnosticadas tarde demais. Existe uma janela de oportunidade importante, em que o tumor ainda está restrito ao órgão e a cirurgia pode ser curativa. Porém, essa janela é frequentemente perdida porque os sintomas são inespecíficos ou subvalorizados”, afirma Felipe José Fernández Coimbra. 

 

Incidência e mortalidade nos Estados Unidos
Novos casos estimados para 2026 – SEERS/NCI/NHI

Câncer

Incidência

Mortalidade

Sobrevida em 5 anos

Estômago

31.510

10.750

39.8%

Fígado

42.340

30.980

21.9%

Esôfago

22.530

16.290

22.2%

Colorretal

158.850

55.230

65.4%

Pâncreas

67.530

52.740

13.7%

 

 

Ainda segundo o especialista, isso muda completamente o desfecho. “No câncer de pâncreas, por exemplo, quando conseguimos identificar a doença em fase inicial, a sobrevida pode mais que triplicar em relação aos estágios avançados. O mesmo raciocínio se aplica a outros tumores do aparelho digestivo. O problema é que ainda não temos, para a maioria deles, estratégias de rastreamento populacional bem estabelecidas, o que exige um nível maior de suspeição clínica e organização do sistema de saúde para reduzir o tempo entre os primeiros sinais e o diagnóstico”, completa.

No caso do câncer de pâncreas, cerca de 80% dos pacientes recebem o diagnóstico em fases avançadas, quando o tumor já ultrapassou o órgão de origem ou apresenta metástases, o que limita as opções terapêuticas. Esse padrão também se observa em outros tumores abdominais, como esôfago e fígado, em razão da falta de especificidade dos sintomas iniciais e da ausência de estratégias estruturadas de rastreamento.

A comparação entre incidência, mortalidade e sobrevida mostra que o estágio ao diagnóstico é um dos principais determinantes dos desfechos clínicos, com impacto direto na possibilidade de tratamento curativo e na redução da mortalidade. Apesar da gravidade desses números, avalia Felipe Coimbra, há uma mensagem importante de esperança. “Muitos desses desfechos podem mudar com informação, prevenção e acesso mais rápido ao diagnóstico. Manter hábitos saudáveis, evitar o tabagismo e o consumo excessivo de álcool, buscar acompanhamento médico diante de sintomas persistentes e realizar exames de rastreamento quando indicados são atitudes que fazem a diferença”, orienta.

Ainda de acordo com o especialista, o recado para a população, o recado inclui não ignorar sinais do corpo e procurar atendimento cedo pode ampliar as chances de tratamento e cura. Segundo ele, com mais consciência, organização do sistema de saúde e diagnóstico oportuno, é possível reduzir mortes e oferecer a mais brasileiros a oportunidade de viver mais e melhor.

  

Felipe Coimbra – Médico cirurgião oncológico referência nacional e mundial em câncer abdominal, Felipe José Fernández Coimbra se graduou em Medicina pela Universidade Federal do Pará, fez Residência Médica em Cirurgia Geral na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e em Cirurgia Oncológica no A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. Atualmente é secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência de Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo. Presidiu a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncologia no biênio 2015-2017 e foi o primeiro brasileiro a presidir a Americas Hepato-Pancreato-Biliary Association (AHPBA), em 2019/2020. Faz parte do comitê científico internacional da International Hepato Pancreato Biliary Association (IHPBA) e é representante internacional da Society of Surgical Oncology Americana (SSO).



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