Na década de 1970, um anúncio de carro, veiculado na TV, retratava um
pequeno automóvel percorrendo um trecho da BR 230, uma cicatriz aberta no meio da
floresta pela rodovia Transamazônica. Em outra cena, enormes tratores de
esteira derrubavam árvores gigantescas para a abertura da dita “estrada da
integração nacional”. O slogan da campanha era: “desbravando o inferno verde”.
Passados 50 anos, infelizmente ainda há muito reflexo deste ideal de
ocupação da Amazônia, baseado em conhecimentos exóticos, de total
desconhecimento e desrespeito às realidades amazônicas,
principalmente nos meios políticos e empresariais. Isso porque é mais
fácil destruir que conhecer, é mais fácil matar o desconhecido, do que
aceitar novas perspectivas e novas formas de convívio com o ambiente natural.
Os jovens que não vivem na Amazônia e, também muitos dos
que estão nas grandes e médias cidades amazônicas, pouco ou
nenhum conhecimento têm sobre este extenso e rico território. Os
currículos escolares pouco retratam a geografia e a história de
ocupação da Amazônia, o que deixa um vácuo na formação de nossos jovens, que
conhecem mais sobre os parques temáticos dos Estados Unidos e da Europa,
do que sobre as maravilhas observadas, ao
navegar os rios e igarapés amazônicos.
Embora, muitos devam trazer a Amazônia em seu
imaginário, pois, invariavelmente, o noticiário relata
acontecimentos infelizes, como garimpo em terras indígenas, tráfico de
drogas e de animais silvestres, desmatamentos por atividades
irregulares, perseguição e morte de lideranças comunitárias, de
servidores públicos e de ambientalistas.
Por outro lado, o contato com a ambiente amazônico e o
convívio com comunidades ribeirinhas e com os
saberes tradicionais, provocam um choque cultural em quem
tem esta oportunidade. Na Amazônia o ritmo é outro,
e quem tem o privilégio de vivenciar tais experiências, se sente revivido
e muda o modo de pensar e de agir.
É preciso perceber as belezas do ambiente
amazônico, além de seus problemas e sua realidade da degradação
ambiental, para saber discernir sobre que futuro queremos para a
Amazônia e, por que não dizer, para o nosso planeta.
Paulo Spínola - biólogo, analista ambiental e autor do livro “O Mistério do Povo Mamoé”, uma obra para adolescentes que atravessa a história de ocupação e a geografia da Amazônia.
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