Especialista alerta que promessas
de melhora imediata podem agravar a inflamação e atrasar o cuidado adequado
para uma condição que pode atingir 12,3% da população feminina adulta
brasileira
Foto: Francine Ferreira
À medida que o Lipedema deixa de ser uma
condição pouco conhecida e passa a ocupar mais espaço nas conversas sobre
saúde, estética e qualidade de vida, cresce também a preocupação com a busca
por tratamentos que prometem resultados rápidos para uma doença crônica,
progressiva e sem cura definitiva. A condição, que ainda é frequentemente
confundida com obesidade, retenção de líquido ou linfedema, pode atingir 12,3%
da população feminina adulta brasileira, segundo estimativa de 2025 do Consenso
Brasileiro de Lipedema.
O Instituto Brasileiro de Lipedema estima que
ao menos 5 milhões de brasileiras apresentam sintomas, embora muitas ainda não
saibam que se trata de uma doença. Nesse cenário, a falta de informação, a
demora no diagnóstico e a fragilidade emocional causada pelas mudanças no corpo
tornam muitas pacientes mais vulneráveis a promessas de tratamentos
“milagrosos”, especialmente quando a oferta envolve melhora estética imediata.
Diferentemente do senso comum de que a
patologia se resume ao inchaço desproporcional nas pernas, o Lipedema também
pode acometer braços, tornozelos e pés. A doença causa dores, sensação de peso
nos membros, hematomas frequentes e dificuldade de emagrecimento nas áreas
afetadas, que não respondem a dietas e exercícios físicos da mesma forma que o
restante do corpo.
Para quem convive com a condição, a ausência
de um caminho claro pode representar anos de tentativas frustradas até
encontrar o profissional e o tratamento adequado. Conforme explica a biomédica,
esteticista e terapeuta linfática especialista em Lipedema, Cláudia Farias, por
ser uma doença ainda pouco contemplada por estudos médicos, muitas pacientes
acabam realizando procedimentos que podem piorar a condição dos membros
acometidos.
De acordo com Cláudia, existem dois tipos de
tratamento para o Lipedema: o conservador e o invasivo. O primeiro busca
controlar os sintomas, reduzir a inflamação e melhorar o conforto da paciente
no dia a dia, enquanto o segundo envolve procedimento cirúrgico e precisa ser
avaliado com acompanhamento médico. Segundo ela, o problema está nas abordagens
agressivas vendidas como soluções imediatas, especialmente quando apresentadas
sem o devido cuidado multidisciplinar.
“O tratamento conservador busca desinflamar a
região afetada pelo Lipedema, diminuir as dores sentidas pela paciente e trazer
mais conforto no dia a dia. É um tratamento que também precisa ser acompanhado
por consultas médicas e combinado com exercícios físicos e uma dieta
específica. Já os procedimentos divulgados como milagrosos são mais agressivos
e o paciente acaba por acreditar que a melhora do Lipedema vai ser imediata,
quando na verdade a inflamação só piora”, explica a especialista.
O Consenso Brasileiro de Lipedema também
indica que o manejo conservador deve ser a primeira opção em todos os casos.
Esse cuidado inclui mudanças no estilo de vida do paciente, nutrição, terapia
compressiva, exercícios de baixo impacto, fisioterapia descongestiva e, em
alguns casos, uso de medicação, sempre prescrita, acompanhada e direcionada por
um médico. Já o procedimento invasivo é cirúrgico, deve ser feito em conjunto
com médico clínico, cirurgião e paciente, e tem como objetivo a melhora da
mobilidade em situações mais graves.
O
que é o Lipedema
Segundo o Consenso Brasileiro de Lipedema, o
Lipedema é uma doença genética, crônica, sistêmica e progressiva, geralmente
desencadeada por mudanças hormonais, como puberdade, gravidez e menopausa. A
patologia é caracterizada pelo acúmulo anormal e doloroso de gordura
subcutânea, principalmente nos membros inferiores e, em alguns casos, nos
braços, sendo frequentemente confundida com obesidade ou linfedema.
Além dos sintomas físicos, o Lipedema pode
comprometer a qualidade de vida e a saúde mental, principalmente das mulheres.
Como os membros afetados não respondem a dietas e exercícios físicos de forma
convencional, o acompanhamento médico multidisciplinar é necessário para frear
a progressão da doença e aliviar os sintomas.
Comercialização
da doença e tratamentos ineficazes
A relação entre Lipedema, aparência corporal
e autoestima é um dos fatores que favorece a procura por alternativas de efeito
rápido. Cláudia afirma que, por se tratar de uma doença que afeta a estética do
corpo, muitas pacientes chegam emocionalmente fragilizadas e iniciam uma busca
intensa por tratamentos que ofereçam melhora imediata no aspecto das áreas
afetadas. Nesse processo, podem encontrar profissionais que se aproveitem dessa
vulnerabilidade.
“Isso nada mais é que a comercialização de
uma doença. As mulheres historicamente sofrem com a pressão estética e o
Lipedema acaba por aumentar esse sentimento de insatisfação e insegurança com o
próprio corpo. Essas pacientes ficam mais suscetíveis a tratamentos enganosos e
ineficazes, que acabam piorando a inflamação da gordura por serem agressivos e
inadequados”, alerta.
Como não há cura definitiva, o Lipedema exige cuidado contínuo, inclusive nos casos em que há indicação cirúrgica. O tratamento tem como foco aliviar sintomas, reduzir a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida. Entre as medidas utilizadas estão compressão elástica, fisioterapia descongestiva, alimentação anti-inflamatória e, quando necessário, medicação prescrita por médico especialista, além de lipoaspiração específica em alguns casos.
Claudia Farias - biomédica, terapeuta linfática e esteticista, com atuação especializada no cuidado de mulheres com lipedema. Criadora do método autoral Massagem Inteligente, registrado no INPI, desenvolveu uma abordagem própria que integra técnica, leitura corporal e atendimento individualizado, incluindo a adaptação da Massagem Inteligente (MI) para lipedema, construída a partir de formação específica no Instituto Amato. Atualmente, cerca de 70% de sua agenda é dedicada a pacientes com lipedema e ela também ministra a Jornada do Lipedema, capacitando profissionais para um cuidado correto, personalizado e alinhado à fisiologia da condição.
Texto: Shaiane Corrêa
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