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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Avanço do debate sobre Lipedema aumenta preocupação com tratamentos enganosos

Foto: Francine Ferreira
Especialista alerta que promessas de melhora imediata podem agravar a inflamação e atrasar o cuidado adequado para uma condição que pode atingir 12,3% da população feminina adulta brasileira

 

À medida que o Lipedema deixa de ser uma condição pouco conhecida e passa a ocupar mais espaço nas conversas sobre saúde, estética e qualidade de vida, cresce também a preocupação com a busca por tratamentos que prometem resultados rápidos para uma doença crônica, progressiva e sem cura definitiva. A condição, que ainda é frequentemente confundida com obesidade, retenção de líquido ou linfedema, pode atingir 12,3% da população feminina adulta brasileira, segundo estimativa de 2025 do Consenso Brasileiro de Lipedema.


O Instituto Brasileiro de Lipedema estima que ao menos 5 milhões de brasileiras apresentam sintomas, embora muitas ainda não saibam que se trata de uma doença. Nesse cenário, a falta de informação, a demora no diagnóstico e a fragilidade emocional causada pelas mudanças no corpo tornam muitas pacientes mais vulneráveis a promessas de tratamentos “milagrosos”, especialmente quando a oferta envolve melhora estética imediata.


Diferentemente do senso comum de que a patologia se resume ao inchaço desproporcional nas pernas, o Lipedema também pode acometer braços, tornozelos e pés. A doença causa dores, sensação de peso nos membros, hematomas frequentes e dificuldade de emagrecimento nas áreas afetadas, que não respondem a dietas e exercícios físicos da mesma forma que o restante do corpo.


Para quem convive com a condição, a ausência de um caminho claro pode representar anos de tentativas frustradas até encontrar o profissional e o tratamento adequado. Conforme explica a biomédica, esteticista e terapeuta linfática especialista em Lipedema, Cláudia Farias, por ser uma doença ainda pouco contemplada por estudos médicos, muitas pacientes acabam realizando procedimentos que podem piorar a condição dos membros acometidos.


De acordo com Cláudia, existem dois tipos de tratamento para o Lipedema: o conservador e o invasivo. O primeiro busca controlar os sintomas, reduzir a inflamação e melhorar o conforto da paciente no dia a dia, enquanto o segundo envolve procedimento cirúrgico e precisa ser avaliado com acompanhamento médico. Segundo ela, o problema está nas abordagens agressivas vendidas como soluções imediatas, especialmente quando apresentadas sem o devido cuidado multidisciplinar.


“O tratamento conservador busca desinflamar a região afetada pelo Lipedema, diminuir as dores sentidas pela paciente e trazer mais conforto no dia a dia. É um tratamento que também precisa ser acompanhado por consultas médicas e combinado com exercícios físicos e uma dieta específica. Já os procedimentos divulgados como milagrosos são mais agressivos e o paciente acaba por acreditar que a melhora do Lipedema vai ser imediata, quando na verdade a inflamação só piora”, explica a especialista.


O Consenso Brasileiro de Lipedema também indica que o manejo conservador deve ser a primeira opção em todos os casos. Esse cuidado inclui mudanças no estilo de vida do paciente, nutrição, terapia compressiva, exercícios de baixo impacto, fisioterapia descongestiva e, em alguns casos, uso de medicação, sempre prescrita, acompanhada e direcionada por um médico. Já o procedimento invasivo é cirúrgico, deve ser feito em conjunto com médico clínico, cirurgião e paciente, e tem como objetivo a melhora da mobilidade em situações mais graves.



O que é o Lipedema


Segundo o Consenso Brasileiro de Lipedema, o Lipedema é uma doença genética, crônica, sistêmica e progressiva, geralmente desencadeada por mudanças hormonais, como puberdade, gravidez e menopausa. A patologia é caracterizada pelo acúmulo anormal e doloroso de gordura subcutânea, principalmente nos membros inferiores e, em alguns casos, nos braços, sendo frequentemente confundida com obesidade ou linfedema.


Além dos sintomas físicos, o Lipedema pode comprometer a qualidade de vida e a saúde mental, principalmente das mulheres. Como os membros afetados não respondem a dietas e exercícios físicos de forma convencional, o acompanhamento médico multidisciplinar é necessário para frear a progressão da doença e aliviar os sintomas.



Comercialização da doença e tratamentos ineficazes


A relação entre Lipedema, aparência corporal e autoestima é um dos fatores que favorece a procura por alternativas de efeito rápido. Cláudia afirma que, por se tratar de uma doença que afeta a estética do corpo, muitas pacientes chegam emocionalmente fragilizadas e iniciam uma busca intensa por tratamentos que ofereçam melhora imediata no aspecto das áreas afetadas. Nesse processo, podem encontrar profissionais que se aproveitem dessa vulnerabilidade.


“Isso nada mais é que a comercialização de uma doença. As mulheres historicamente sofrem com a pressão estética e o Lipedema acaba por aumentar esse sentimento de insatisfação e insegurança com o próprio corpo. Essas pacientes ficam mais suscetíveis a tratamentos enganosos e ineficazes, que acabam piorando a inflamação da gordura por serem agressivos e inadequados”, alerta.

 

Como não há cura definitiva, o Lipedema exige cuidado contínuo, inclusive nos casos em que há indicação cirúrgica. O tratamento tem como foco aliviar sintomas, reduzir a progressão da doença e melhorar a qualidade de vida. Entre as medidas utilizadas estão compressão elástica, fisioterapia descongestiva, alimentação anti-inflamatória e, quando necessário, medicação prescrita por médico especialista, além de lipoaspiração específica em alguns casos.

 


Claudia Farias - biomédica, terapeuta linfática e esteticista, com atuação especializada no cuidado de mulheres com lipedema. Criadora do método autoral Massagem Inteligente, registrado no INPI, desenvolveu uma abordagem própria que integra técnica, leitura corporal e atendimento individualizado, incluindo a adaptação da Massagem Inteligente (MI) para lipedema, construída a partir de formação específica no Instituto Amato. Atualmente, cerca de 70% de sua agenda é dedicada a pacientes com lipedema e ela também ministra a Jornada do Lipedema, capacitando profissionais para um cuidado correto, personalizado e alinhado à fisiologia da condição.


Texto: Shaiane Corrêa

 

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