Os defensores
alegam que é parte da economia da experiência potencializada pelo digital e
agora também pela Inteligência Artificial.
Os críticos
destacam os impactos na economia, na sociedade e até mesmo na saúde mental. E
até Lula se manifestou, apontando que problema do endividamento recorde de 82
milhões de brasileiros tem causa nas apostas em bets.
O inegável é que
renda e recursos financeiros estão migrando do varejo, do consumo e dos
serviços, os maiores geradores privados de emprego no Brasil, para apostas de
toda forma.
Não é fenômeno
restrito ao Brasil. Ele atinge de forma mais direta a economia ocidental, em
especial Europa e Estados Unidos – com o Brasil em destaque.
A tal ponto que,
por aqui, o Conselho Monetário Nacional (CMN) acaba de proibir as apostas
preditivas para tudo além do que não se restringe ao mercado financeiro, já que
esse modelo vinha aproveitando brechas na legislação para atuar de forma ilegal
no mercado “protegido” das bets.
O tema
envolvendo essas práticas tem criado problemas em vários países. Nos Estados
Unidos, já se fala de uma epidemia fora de controle reunindo as bets, as
apostas esportivas e as preditivas.
No Brasil, as
apostas em bets atingem perto de R$ 300 bilhões por ano considerando as legais
e as que não são controladas ou autorizadas – e que já responderiam por perto
de 50% do todo.
Para efeito de
referência e comparação, esse valor é equivalente ao todo do faturamento do
setor de foodservice, que inclui bares, restaurantes, padarias, delivery e fast
food do país. Ou perto de todo o faturamento do setor de telecomunicações,
envolvendo empresas como Vivo, Claro, Tim e outras. Ou cerca de 50% do setor de
supermercados, hipermercados e atacarejo do País.
É muito recurso
desviado do consumo de bens e serviços para o mercado do “entretenimento” e que
atrai cada vez mais empresas e estímulos promocionais para o metacassino que se
criou e que cresce pelo aumento de empresas e negócios envolvidos, incluindo
tradicionais veículos de comunicação, atraídos pela explosiva expansão.
Tudo parece
conspirar para um processo alienante e viciante de entretenimento digital que
tira o foco dos problemas reais cada vez mais complexos nos campos político,
econômico e social.
Avanço
recente e avassalador
Vale lembrar que
esse movimento das bets começou por aqui em 2018 com a legalização das apostas
esportivas, explodiu no período de 2019 a 2022 e foi regulamentado de forma
definitiva em 2024.
A empresa
legalizada e autorizada paga R$ 30 milhões pela outorga da licença e 12% sobre
a receita bruta das bets, o que gera um potencial de arrecadação total estimado
entre R$ 6 e R$ 12 bilhões por ano. E toda arrecadação é importante para
equilibrar o aumento dos gastos públicos exponenciado pelo período eleitoral.
Esses números
desconsideram tudo que as empresas informais capturam à margem da legalidade,
sobre o que fica difícil gerar estimativas.
Parte relevante
desse recurso migra para o mercado externo, para as controladoras ou operadoras
das empresas no Brasil.
As apostas
preditivas, o mais recente negócio desse ecossistema de atividades, têm a
simplicidade e a amplitude de alternativas a seu favor, aumentando o potencial
de massificação de acesso, pois os apostadores podem comprar probabilidades de
eventos envolvendo eleições, inflação, clima, preços, comportamento de consumo
ou lançamento de produtos, numa infinidade de oportunidades.
A razão
fundamental da interferência do CMN proibindo as apostas preditivas foi a
redução do potencial de arrecadação pela brecha identificada de ser parte do
mercado financeiro e, portanto, não precisando pagar pela outorga e os impostos
envolvidos.
Uma questão
adicional é o uso de IA também como apostadora, jogando um jogo muito mais
complexo que ao final tem por objetivo fundamental envolver, entreter, aumentar
o volume de apostas e os ganhos das empresas envolvidas no metacassino e do
governo com a arrecadação de impostos.
E desviando
recursos, renda e emprego do consumo de produtos, serviços e marcas no varejo e
no mercado.
Para
integrar consumo, varejo e entretenimento
Muitos
mecanismos promocionais adotados pelo varejo e marcas de alguma forma
representam atuação nesse universo das apostas, ainda de forma tímida.
Sorteios,
concursos, ofertas, promoções dinâmicas e outros mecanismos usados pelo varejo
representam, de certa forma, uma “gamificação” do consumo, que parece ter apelo
crescente na experiência do consumidor.
Existem
diferentes modelos e alternativas, envolvendo cashback probabilístico, cupons
progressivos, programas de fidelidade gamificados, ofertas limitadas ou mesmo
engajamento de consumidores como promotores de vendas, que podem ser
consideradas alternativas para maior envolvimento nessa febre, aparentemente
não passageira, do entretenimento, apostas e experiência.
Exemplos da
China, da Europa e dos Estados Unidos sinalizam oportunidades que, se não se
podem eliminar o problema, ao menos indicam formas de aprender a jogar com ele.
Para
fechar
A arrecadação de
impostos com o varejo e o consumo formais, aliada à geração de emprego e renda,
tem impacto social e econômico muito mais relevante e mais importante do que o
gerado pelos impostos das bets formais.
Isso sem
esquecer a ampliação do risco social e de saúde mental associados ao vício e ao
endividamento.
As bets e suas
variantes criaram um dos maiores grupos de pressão no Congresso, reunindo e
complementando os “4 Bs” que influenciam decisões por lá: as bancadas ligadas à
Bíblia, Bala, Boi – e, agora, Bets.
Mas, de outro
lado, é importante considerar que existe uma mensagem clara: o apelo do
entretenimento está cada vez mais associado aos hábitos dos omniconsumidores, e
cabe ao varejo, ao consumo, às marcas e aos serviços buscar alternativas para
jogar também esse jogo de forma criativa, inovadora e envolvente para manter ou
expandir seus negócios.
É assim que é.
Marcos Gouvêa de Souza - fundador e diretor-geral da
Gouvêa Ecosystem
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