O Brasil vive
uma emergência silenciosa. Enquanto o debate público se concentra em crises
políticas e econômicas, o câncer já é a segunda maior causa de morte entre
mulheres e a terceira entre homens no país, atrás apenas das doenças
cardiovasculares e, no caso masculino, das causas externas.
A segunda edição
do relatório A Situação do Câncer no Brasil, publicada pelo Instituto Nacional
de Câncer (INCA) em 2026, oferece o retrato mais completo e inquietante dessa
realidade.
Os números são
brutais. Para o triênio 2026–2028, o país deve registrar centenas de milhares
de novos diagnósticos a cada ano, distribuídos de forma profundamente desigual
entre regiões e populações. O relatório aponta nove tipos prioritários de
câncer, mas cinco deles — mama, próstata, colorretal, pulmão e estômago —
concentram a maior carga de doença e morte. Juntos, esses cinco tumores devem
somar quase 268 mil novos casos por ano e foram responsáveis por mais de 107
mil óbitos apenas em 2023.
O que se segue é
uma análise de cada um deles promovida pelo Mestre, MD e PhD em Oncologia, Dr.
Wesley Pereira Andrade.
*1. Câncer de
Mama — O mais incidente entre mulheres, o que mais mata*
São 78.610 casos
novos projetados por ano no triênio 2026–2028, a maior cifra absoluta entre
todos os tipos analisados. A taxa bruta de incidência é de 71,57 por 100 mil
mulheres. Em 2023, o câncer de mama matou 20.165 brasileiras.
O relatório
documenta uma tendência preocupante: entre 1990 e 2017, a incidência cresceu
quase 40% no país. As regiões mais ricas apresentam as maiores taxas — Sudeste
(51,72 por 100 mil ajustada) e Sul (47,65) — mas são as regiões Norte e
Nordeste que registram o maior crescimento da mortalidade, reflexo de barreiras
ao diagnóstico precoce, baixa escolaridade e acesso precário à saúde.
O Rio de Janeiro
lidera com taxa bruta de 114,57 por 100 mil mulheres, seguido por Santa
Catarina (106,07) e São Paulo (87,24). No extremo oposto, o Maranhão registra
apenas 31,68.
Os fatores de
risco para câncer de mama se organizam em duas grandes categorias: os que você
não controla e os que você pode modificar. O denominador comum é a exposição
prolongada a estrogênio — quanto mais tempo e mais intensamente o tecido
mamário fica exposto a esse hormônio, maior o risco.
*Fatores
não modificáveis*
Idade acima de
50 anos — o risco cresce progressivamente com o envelhecimento.
Menarca precoce
(antes dos 12 anos) — a puberdade antecipada significa mais anos de ciclagem
hormonal e, portanto, mais exposição estrogênica ao longo da vida.
Menopausa tardia
(após os 55 anos) — mesma lógica: prolonga a janela de exposição hormonal.
Mutações BRCA1 e
BRCA2 — predisposição genética hereditária. O relatório destaca que a exposição
a estrogênos amplifica ainda mais o risco em portadoras dessas mutações.
Histórico
familiar — antecedentes de câncer de mama em parentes de primeiro grau aumentam
o risco, inclusive por fatores genéticos além do BRCA.
*Fatores
modificáveis — e aqui mora a oportunidade de prevenção*
Nuliparidade e
primeiro filho após os 35 anos. O relatório cita o estudo clássico de MacMahon
(1970) como marco: a idade tardia do primeiro parto a termo é um dos fatores
reprodutivos mais bem estabelecidos. Ter o primeiro filho antes dos 20 anos, ao
contrário, é protetor.
Não amamentação
— amamentar protege a mãe. A lactação suprime os ciclos ovulatórios e reduz a
exposição estrogênica cumulativa.
Reposição
hormonal na pós-menopausa — risco aumentado. Na pós-menopausa, quando os
ovários param de produzir estrogênio, a reposição reintroduz artificialmente o
estímulo ao tecido mamário.
Obesidade — este
é um mecanismo que o relatório explica em detalhe. Na pós-menopausa, a
principal fonte de estrogênio passa a ser o tecido adiposo, que converte
androgênios em estrogênio. Quanto maior a gordura corporal, mais estrogênio
circulante. Além disso, a obesidade gera hiperinsulinemia, aumento de IGF-1 e
inflamação crônica — todos promotores de carcinogênese.
Consumo de álcool
— classificado pela IARC como carcinógeno grupo 1 (mesmo grupo do tabaco). O
relatório é enfático: não existe quantidade segura. O álcool aumenta os níveis
circulantes de estrogênio e age como solvente, facilitando a penetração de
outros carcinógenos nas células. Em 2012, 17 mil casos de câncer no Brasil
foram atribuíveis ao álcool — e o câncer de mama está entre os principais.
Inatividade
física — o sedentarismo é fator de risco independente. A atividade física
regular reduz níveis de estrogênio, insulina e inflamação sistêmica.
*A
mensagem para o país:*
*O
câncer de mama expõe como nenhum outro a fratura entre o Brasil desenvolvido e
o Brasil que ainda luta pelo básico. A mortalidade cai em países ricos; no
Brasil, ainda sobe. A expansão do rastreamento mamográfico e do acesso ao
tratamento não é uma questão médica — é uma questão de justiça.*.
*2.
Câncer de Próstata — O mais frequente entre homens*
Com 77.920 novos
casos estimados para cada ano do triênio 2026–2028 e uma taxa de incidência de
74,62 por 100 mil homens, o câncer de próstata é a neoplasia masculina mais
comum no Brasil. Em 2023, matou 17.258 homens.
As desigualdades
regionais chamam atenção: a taxa de incidência ajustada varia de 29,94 por 100
mil na região Norte até 94,90 no Sudeste — uma disparidade que o INCA atribui
menos à diferença de risco biológico e mais à distribuição desigual dos
registros de câncer no território.
*3.
Câncer Colorretal — O tumor que acompanha o desenvolvimento econômico*
Com 53.810 casos
novos estimados por ano e 23.953 óbitos registrados em 2023, o câncer
colorretal é o segundo mais incidente no Brasil em ambos os sexos. Ele é, nas
palavras do relatório, “um marcador de desenvolvimento econômico” — sua
incidência cresce junto com a urbanização, a mudança alimentar e o
sedentarismo.
Santa Catarina
lidera a incidência (28,33 por 100 mil), seguida pelo Rio de Janeiro (23,51) e
São Paulo (22,43). As menores taxas estão no Maranhão (6,67), Acre (7,82) e
Amapá (7,86) — estados com menor IDH.
A mortalidade
acompanha esse padrão: 9,61 óbitos por 100 mil na região Sul contra apenas 4,88
na região Norte.
*O
paradoxo:*
*O
tumor que mais cresce é também um dos mais evitáveis. Alimentação rica em
fibras, redução de carnes processadas, controle de peso e atividade física são
fatores protetores amplamente documentados. O rastreamento por colonoscopia
pode interceptar a doença em fase pré-maligna. No entanto, o Brasil não possui
programa organizado de rastreamento colorretal de base populacional.*.
*4.
Câncer de Pulmão — O mais letal, o mais evitável*
É o tipo que
mais mata no Brasil: 31.239 óbitos em 2023 — superando mama e próstata juntos
em letalidade. São estimados 35.380 novos casos por ano no triênio 2026–2028.
Cerca de 80% a
90% dos pacientes que são diagnosticados com câncer de pulmão irão falecer em
função da doença.
O tabagismo
responde por 83,3% dos casos em homens e 64,8% em mulheres. A boa notícia: as
políticas antitabaco reduziram a prevalência de fumantes de 43,3% (homens,
1989) para 12,7% (2016). A má notícia: os efeitos dessa redução levarão décadas
para se refletir plenamente nas estatísticas de mortalidade. Enquanto isso,
fatores ocupacionais e ambientais — poluição, sílica, amianto — impulsionam
casos em não fumantes.
A geografia do
pulmão é a geografia do tabaco: Santa Catarina (19,38 por 100 mil), Rio Grande
do Sul (18,28) e Paraná (13,98) lideram. A mortalidade ajustada no RS (17,29
por 100 mil) é mais que o dobro da verificada na Bahia (6,92).
*O
veredicto:*
*O
câncer de pulmão é a prova viva de que política pública funciona — e de que
seus resultados demoram a chegar. O investimento contínuo no combate ao
tabagismo e a vigilância sobre novas fontes de exposição (cigarros eletrônicos,
queimadas, poluição urbana) são inegociáveis.*.
*5.
Câncer de Estômago — O tumor da infecção e da desigualdade*
O quinto mais
incidente, com 22.530 casos novos estimados por ano e 14.823 óbitos em 2023. O
fator de risco dominante é a infecção por Helicobacter pylori, responsável por
até 90% dos casos.
O mapa do câncer
de estômago inverte o padrão dos demais: as maiores taxas de incidência estão
na região Norte — Amapá (16,18 por 100 mil), Pará (11,77) e Amazonas (11,06). A
mortalidade segue a mesma lógica: 6,99 por 100 mil no Norte, contra 4,14 no
Centro-Oeste.
A incidência vem
caindo lentamente no Brasil, especialmente no Sudeste e Sul, acompanhando a
melhoria das condições sanitárias e a redução da prevalência do H. pylori. Mas
nas regiões mais pobres do país, onde o saneamento básico ainda é precário, o
tumor resiste.
O elo central da
origem do é o Helicobacter pylori. A bactéria é responsável por até 90% dos
casos de câncer gástrico, segundo os dados do relatório (Martel et al., 2020).
E a transmissão do H. pylori está intimamente ligada a condições sanitárias
precárias — água contaminada, aglomeração domiciliar, falta de esgoto tratado.
São exatamente as condições que predominam nas regiões mais pobres do país.
Por isso o mapa
do câncer de estômago inverte o padrão dos outros quatro tumores do ranking.
Enquanto mama,
colorretal e próstata predominam no Sudeste e Sul (regiões ricas, estilo de
vida ocidentalizado), o estômago castiga o Norte: Amapá com 16,18 por 100 mil,
Pará com 11,77, Amazonas com 11,06 — taxas até três vezes maiores que as do
Centro-Oeste (6,93).
Os outros
fatores de risco reforçam essa associação: consumo de alimentos conservados em
sal (padrão alimentar de populações sem acesso a refrigeração adequada),
tabagismo e álcool — todos com prevalência maior em contextos de
vulnerabilidade social.
*A
lição:*
*O
câncer de estômago é, em essência, uma doença da pobreza. Enfrentá-lo exige não
só política oncológica, mas política de saneamento, de segurança alimentar e de
atenção primária. É um lembrete de que, no Brasil, a agenda do câncer é
inseparável da agenda do desenvolvimento.*.
*O
Retrato Completo*
O relatório do
INCA não é apenas um documento técnico é um mapa potencial de ação
governamental para reduzir a mortalidade por câncer.
O Brasil dispõe
de conhecimento científico, estrutura institucional e recursos humanos para
mudar esta trajetória. O que falta é vontade política sustentada — o tipo de
compromisso que sobrevive a ciclos eleitorais e modas ministeriais.
Cinco tumores.
Mais de 107 mil mortes em um único ano. A pergunta que este relatório nos
obriga a responder é simples: sabendo o que sabemos, o que estamos dispostos a
fazer?
Nenhum comentário:
Postar um comentário