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De dores nas costas a gastrites persistentes, os sinais físicos do esgotamento muitas vezes levam pacientes a consultórios errados
O burnout nem sempre começa com um colapso emocional, mas sim como
dor física silenciosa. No Brasil, os afastamentos por esgotamento cresceram
677% em cinco anos, saltando de 628 casos em 2019 para 4.880 em 2024, segundo a
Fundacentro.
Em meio a esse avanço, as novas diretrizes da NR-1, que entram em
vigor a partir de 26 de maio, passam a exigir que empresas identifiquem e
gerenciem riscos psicossociais no trabalho, como o estresse crônico –
justamente o gatilho por trás de sintomas como gastrite persistente, dores nas
costas e insônia que ainda levam pacientes a buscar o diagnóstico nos
consultórios errados.
“O burnout é uma síndrome, ou seja, um conjunto de sinais e
sintomas relacionados ao estresse crônico no contexto profissional. Dentre as
principais características estão a exaustão extrema, esgotamento físico,
ansiedade, depressão, alteração de humor, negatividade e falta de interesse em
realizar as atividades”, explica a psiquiatra Livia Beraldo de Lima, do
Sírio-Libanês.
No Brasil, o Ministério da Saúde reconhece o burnout como um
distúrbio relacionado ao trabalho, associado à exaustão extrema, estresse e
esgotamento físico, além de sintomas como dores no corpo, tontura e fadiga
persistente. Do ponto de vista fisiológico, o impacto vai além da saúde mental.
A condição provoca alterações no sistema nervoso autônomo, mantendo o organismo
em um estado de "luta ou fuga" constante. Nessa dinâmica, o corpo
perde a capacidade de retornar ao estado de descanso, elevando os níveis de
cortisol – hormônio responsável pelo estresse - por períodos prolongados.
“Os impactos do burnout não são apenas emocionais, mas também
físicos, e podem incluir desde alterações no sono até prejuízos cognitivos
importantes, como dificuldade de concentração e memória”, afirma a médica.
Quando o excesso de dedicação mascara o problema
A dificuldade em identificar o burnout precocemente muitas vezes
reside na confusão com outra condição correlata, embora menos óbvia, o burnon.
“O termo burnon tem sido utilizado para situações em que há
dedicação excessiva ou obsessão pelo trabalho, com dificuldade de impor
limites. A pessoa acredita que sua entrega nunca é suficiente e mantém níveis
elevados de exigência pessoal”, diz Livia. Nesse padrão, o corpo também paga o
preço. O estado de alerta constante mantém o cortisol elevado, o que pode
impactar o sistema cardiovascular, aumentar o risco de hipertensão e
comprometer a imunidade. Psicologicamente, surgem a ansiedade crônica, insônia
e, com o tempo, o próprio burnout.
Entre os sinais mais comuns estão a hiperatividade no trabalho, o
perfeccionismo, a dificuldade de relaxar e a sensação persistente de estar
sempre devendo mais. Mesmo cansada, a pessoa segue produzindo, muitas vezes
mascarando sintomas físicos e emocionais.
A especialista afirma que práticas simples, como respiração
diafragmática e exercícios físicos regulares, ajudam o cérebro a reduzir a
produção de hormônios do estresse. Em quadros mais graves, com perda de memória
ou cansaço persistente mesmo após o repouso, a busca por ajuda profissional é
indispensável. “Sinais como exaustão que não melhora, insônia persistente ou o
uso de substâncias para ‘desligar’ indicam a necessidade de apoio
especializado. Reconhecer que o trabalho não pode ser o único eixo da vida é o
primeiro passo para uma produtividade sustentável e para a preservação da saúde
mental”, finaliza Livia.
Checklist: Você pode ter burnout se...
Identificar o esgotamento antes do colapso total é fundamental. Se
você se identifica com os pontos abaixo, é hora de acender o sinal amarelo e
rever sua relação com o trabalho:
- O descanso não recupera: Você acorda tão cansado quanto deitou, e mesmo após um final
de semana ou férias, a sensação de exaustão permanece intacta.
- O cinismo se tornou sua resposta
padrão: Você se sente distante,
"anestesiado" ou desenvolveu uma visão negativa e irônica sobre
suas tarefas, colegas e clientes.
- Sua saúde física começou a falhar
sem explicação: Dores de cabeça frequentes,
gastrite, tensão muscular crônica e palpitações tornaram-se parte da sua
rotina.
- A produtividade despencou: Tarefas que antes eram simples agora parecem montanhas
intransponíveis, e você sente que sua competência desapareceu.
- Sua memória e foco estão falhando: Você esquece compromissos recentes, perde o fio da meada em
reuniões e sente um "nevoeiro mental" constante.
- Você não consegue mais sentir
prazer nas conquistas: Receber um
elogio ou bater uma meta não gera mais satisfação, apenas o alívio
temporário de que "pelo menos acabou".
Checklist: Você pode ter burnon se...
Diferente do burnout, o burnon é o esgotamento de quem
continua produzindo a todo vapor, mas sob um estado de alerta constante que
consome a saúde silenciosamente. Fique atento se:
- Você não consegue
"desligar" o modo trabalho: Mesmo em momentos de lazer ou antes de dormir, sua mente
continua projetando planilhas, e-mails e pendências. A pausa gera culpa em
vez de relaxamento.
- Sua entrega nunca parece
suficiente: Por mais que os resultados sejam
excelentes, você convive com uma sensação persistente de que está
"devendo" ou que poderia ter feito melhor.
- Você funciona no "piloto
automático": As tarefas são executadas com
perfeição técnica, mas você se sente desmotivado e descontente por dentro,
como se estivesse apenas cumprindo um protocolo sem alma.
- O perfeccionismo se tornou uma
prisão: Você impõe a si mesmo padrões
irreais e tem uma dificuldade enorme em dizer "não" ou delegar,
por medo de que a qualidade caia ou sua imagem seja prejudicada.
- Você mascara o cansaço com
hiperatividade: Quando o corpo pede trégua, sua
resposta é trabalhar ainda mais. Você ignora sinais de fadiga e usa a
produtividade como uma armadura.
- Suas necessidades pessoais são
sempre a última prioridade: Atividades
físicas, consultas médicas, hobbies e até o convívio familiar são
sacrificados sistematicamente em prol do ambiente profissional.
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