Com 80,4% das famílias endividadas, especialista alerta para riscos do consumo por impulso e uso inadequado do crédito
O Dia
das Mães, segunda data mais importante do varejo nacional, deve movimentar este
ano quase R$38 bilhões nos setores de comércio e serviços no país, levando
cerca de 127 milhões de consumidores às compras. A expectativa é que 78% deles
comprem ao menos um presente. É o que aponta levantamento da Confederação
Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil.
Apesar
do otimismo do comércio, o cenário econômico exige atenção redobrada dos
consumidores. O nível de endividamento das famílias brasileiras atingiu um novo
recorde, com 80,4% dos lares relatando algum tipo de dívida, segundo a Pesquisa
de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela CNC no
fim de março de 2026. Os juros médios do rotativo continuam sendo uma bola de
neve agressiva, rondando na casa dos 445% ao ano no mercado geral.
O
planejador financeiro CFP® e especialista em finanças pessoais, Jeff Patzlaff,
destaca que o planejamento financeiro é fundamental para evitar decisões
impulsivas: “Faça uma análise detalhada da sua vida financeira, comece
separando o que você ganha e quais os seus gastos fixos. Anote tudo o que vai
vencer no mês que vem e veja o que realmente não vai fazer falta para o mês. O
presente da sua mãe deve estar alinhado com os seus gastos de lazer, e não da
fatia do supermercado”.
Jeff
recomenda definir o seu próprio limite de gastos para o presente, como R$
100,00 por exemplo, e quando for pesquisar, filtrar os produtos rigorosamente
por esse preço. “Seja realista e não olhe nada acima disso para não cair em
tentação. Se for comprar em loja física deixe apenas com o dinheiro na conta ou
diminua o limite pontualmente para essa compra”, explica.
Além
do controle de orçamento, Patzlaff chama atenção para o comportamento do
consumidor diante das estratégias de marketing. “As lojas sabem do forte
apelo emocional da data, então você precisa ser mais estratégico que o
marketing delas. Para diferenciar uma compra planejada de uma compra por
impulso, preste atenção na sua lista. A compra planejada acontece quando você
sai de casa sabendo o que vai comprar, onde e por quanto. O impulso é quando
você entra só para dar uma olhadinha e sai com várias sacolas”, afirma.
O
especialista recomenda ainda a regra das 24 horas: “Vá para casa e se no dia
seguinte, de cabeça fria, a compra ainda fizer sentido e o dinheiro existir,
você compra. Na maioria das vezes, a vontade passa”.
Jeff
também alerta para armadilhas comuns, como compras motivadas por culpa ou
competição familiar. “O maior erro que as pessoas cometem é comprar guiadas
pela culpa ou por uma competição invisível de querer dar um presente mais caro
que o dos irmãos. Nessa pressa, muita gente esquece do frete, que em compras
online de última hora pode custar mais caro que o próprio produto, ou cai na
grande armadilha do limite do cartão. Muita gente ainda acha que limite é
dinheiro na conta, quando na verdade é dinheiro do banco emprestado, que caso
você não pague no vencimento os juros será altíssimo”, alerta.
Outro
ponto crítico é o parcelamento, que pode comprometer o orçamento por longos
períodos. “A parcela de R$ 30 parece inofensiva, mas ela engessa o seu
orçamento. Se você parcelar o presente em 10 vezes, estará pagando por ele no
Natal, no IPVA do ano que vem e no Carnaval de 2027. Só parcele se a loja não
der nenhum desconto à vista e se a parcela couber tranquilamente no seu mês. E
o parcelamento nunca pode durar mais que a lembrança do presente. Se precisar
de muitas parcelas, é sinal vermelho de que o item está fora do seu padrão de
vida atual”, esclarece Jeff.
Para
economizar, o especialista recomenda o uso de ferramentas digitais e pesquisa
de preços. “Como estamos a poucos dias da data, os preços nas vitrines
físicas já começam a inflar. Por isso, pesquise com inteligência. Coloque o
item no carrinho da loja online, faça seu login e feche o site. Muitas lojas
enviam cupons de desconto horas depois para te convencer a finalizar a compra.
Use aplicativos que devolvem parte do dinheiro da compra. Esse valor já pode
ajudar a pagar a sobremesa do almoço de domingo”, comenta. Jeff também
sugere comprar olhando sempre o gráfico de preços dos sites comparadores nos
últimos meses. Isso evita que caia no conto do falso desconto, aquela velha
tática de subir o preço em abril para dar desconto em maio.
Para
quem enfrenta dificuldades financeiras, a orientação do planejador financeiro é
priorizar a transparência e evitar novos compromissos: “Se a grana está
muito curta ou se você já está enrolado com dívidas, o melhor caminho é ser
honesto com ela. Nenhuma mãe que ama o filho quer vê-lo perdendo o sono ou
pagando juros abusivos só para impressioná-la. Fazer um empréstimo ou estourar
o limite para comprar um presente caro é o pior presente que você pode dar para
a sua própria saúde mental e para a paz da família.”
Por
fim, Patzlaff reforça que o valor emocional da data não está no preço do
presente: “Muitas mães valorizam a intenção e o seu tempo com elas, viva
momentos verdadeiros com elas enquanto ela ainda tiver tempo para você. Que tal
você mesmo cozinhar o prato favorito dela, montar uma cesta de café da manhã em
casa comprando as coisas no mercado, ou organizar um álbum de fotos impresso
com memórias da família? Um abraço apertado, sinceridade e um tempo de
qualidade valem muito mais do que qualquer item de grife. Amor e afeto não se compra
em vitrine”.
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