Após decisão da Anvisa, especialistas
explicam por que substância usada há anos pode causar arritmias graves e por
que o risco pode superar o benefício.
Xaropes para tosse, tradicionalmente vistos como soluções simples
e inofensivas, passaram a levantar um alerta importante entre especialistas da
área da saúde. O motivo: substâncias utilizadas há anos podem provocar efeitos
adversos graves — especialmente quando usadas sem orientação.
Um dos exemplos é o clobutinol, presente em medicamentos indicados
para tosse seca. A substância atua diretamente no sistema nervoso central,
reduzindo o reflexo da tosse. No entanto, esse mecanismo também pode gerar
impactos fora do alvo esperado.
Segundo Isabel Christina Mignoni Homem, farmacêutica e docente do
curso de Medicina do Centro Universitário FAPI, o risco está justamente nessa
ação não específica.
“Nenhum medicamento é totalmente seletivo. O clobutinol age no
centro da tosse, mas também interfere em canais de potássio do coração, podendo
prolongar o intervalo QT e favorecer arritmias graves”, explica.
Essa alteração na atividade elétrica cardíaca pode evoluir de
forma silenciosa. Em muitos casos, os sintomas só aparecem quando o quadro já
apresenta maior gravidade.
“Os sinais incluem palpitações, tontura, sensação de batimento
irregular e desmaios. Em situações mais severas, pode evoluir para parada
cardíaca e morte súbita”, alerta a especialista.
O médico otorrinolaringologista Henrique Wendling Sava, também
docente do curso de Medicina na FAPI, destaca que o uso desse tipo de
medicamento já vinha sendo questionado há anos na prática clínica.
“Foi um medicamento bastante utilizado no passado, principalmente
para tosse seca, mas deixou de ser recomendado porque apresenta mais risco do
que benefício. Hoje existem alternativas mais seguras”, afirma.
Ele também chama atenção para um ponto importante: nem toda tosse
deve ser suprimida.
“Em casos de tosse produtiva, por exemplo, o uso de antitussígenos
pode dificultar a eliminação de secreções e agravar o quadro, podendo evoluir
até para complicações como pneumonia.”
Outro fator que agrava o problema é a automedicação. Por serem
facilmente acessíveis, xaropes para tosse costumam ser utilizados sem avaliação
médica — o que aumenta os riscos.
Além disso, há o perigo das interações medicamentosas. O
clobutinol pode potencializar efeitos cardíacos quando combinado com
substâncias presentes em antibióticos, antidepressivos e até medicamentos para
enjoo.
“A orientação é clara: não utilizar esses medicamentos por conta
própria e, caso já esteja em uso, interromper e procurar avaliação
profissional”, reforça Isabel.
O cenário reforça a importância do acompanhamento médico mesmo em
situações aparentemente simples. Isso porque a tosse, muitas vezes, é apenas um
sintoma — e pode estar associada a condições mais complexas, como infecções
respiratórias, asma ou outras doenças.
Para os especialistas, a principal mensagem é de cautela: aliviar
o sintoma não pode significar ignorar a causa.
Porque, quando se trata de saúde, o que parece simples pode esconder riscos importantes.
Centro Universitário Fapi
Nenhum comentário:
Postar um comentário