Mães descobrem o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade após o nascimento dos filhos, revelando uma jornada de autodescoberta e superação.
A maternidade é uma jornada de amor e dedicação,
mas também de desafios intensos. Para milhares de mulheres, essa fase da vida
se torna um catalisador para uma descoberta surpreendente: o diagnóstico de
Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Muitas delas só
percebem que vivem com o transtorno após o nascimento dos filhos, muitas vezes
ao identificar os mesmos traços nas crianças.
Segundo o Dr. Matheus Trilico, neurologista
referência no tratamento de TDAH em adultos, a maternidade expõe as
dificuldades de organização e regulação emocional de uma forma que a vida antes
não exigia. “A chegada de um filho traz uma sobrecarga mental e de rotina que,
para uma mulher com TDAH não diagnosticado, pode ser avassaladora. É como
tentar gerenciar uma orquestra sem a partitura”, explica o especialista.
A sobrecarga invisível da "gerência
doméstica"
A vida de uma mãe exige planejamento constante,
memória de trabalho impecável e uma capacidade de inibição de impulsos que nem
sempre está presente em quem tem TDAH. Tarefas como organizar a casa, lembrar
de compromissos escolares, gerenciar a alimentação e ainda cuidar de si mesma
se tornam montanhas intransponíveis.
Estudos mostram que falhas nas funções executivas –
como planejamento, memória de trabalho e controle inibitório – impactam
diretamente a gestão doméstica e o cuidado com os filhos. Mães com TDAH
frequentemente enfrentam dificuldades em organização, regulação emocional e
consistência parental. Cerca de 44% dos adultos com TDAH apresentam déficits executivos
significativos, o que adiciona uma morbidade substancial à vida diária, indo
além dos sintomas clássicos do transtorno.
O TDAH feminino: um diagnóstico tardio e silencioso
Historicamente, o TDAH foi mais associado a meninos
hiperativos e impulsivos. No entanto, a ciência moderna revela que o transtorno
se manifesta de forma diferente em mulheres, o que contribui para um
subdiagnóstico massivo. Enquanto na infância a proporção é de cerca de 2
meninos para cada menina diagnosticada, na vida adulta essa razão se aproxima
de 1:1.
“Mulheres com TDAH tendem a apresentar mais
sintomas de desatenção, como divagação mental, dificuldade em organizar tarefas
e esquecimento, em vez da hiperatividade visível. Elas também desenvolvem
estratégias de camuflagem social, ou masking, para se encaixar nas
expectativas, o que esconde os sintomas e atrasa o diagnóstico”, afirma o Dr. Matheus
Trilico. Esse esforço constante de mascarar os sintomas está
diretamente ligado a uma menor satisfação com a vida e a um aumento significativo
de sintomas depressivos.
A desregulação emocional é outro componente central
do TDAH em mulheres, frequentemente mediada por essas falhas executivas. A
fadiga crônica também é uma característica comum, com 62% dos adultos com TDAH
relatando exaustão, o que torna a maternidade, com suas demandas 24 horas por
dia, um terreno fértil para o esgotamento.
O "diagnóstico em cascata": a mãe se
descobre através do filho
A hereditariedade do TDAH é uma das mais altas na
medicina, variando entre 74% e 80%. Isso significa que, se um filho é
diagnosticado, a probabilidade de um dos pais também ter o transtorno é muito
elevada. Estudos mostram que o risco relativo de TDAH é 8,4 vezes maior em mães
de crianças com o transtorno, superando o risco paterno.
É comum que o diagnóstico do filho atue como um
espelho para a mãe. Ao observar os comportamentos da criança, a mãe começa a
reconhecer em si mesma os mesmos padrões de desatenção, impulsividade ou
dificuldade de organização. “O pico de diagnósticos maternos ocorre geralmente entre
2 e 5 anos após o nascimento do filho, período que coincide com a idade em que
as crianças são mais frequentemente avaliadas”, pontua o Dr. Trilico.
Esse fenômeno, conhecido como "diagnóstico em cascata", transforma a
jornada de autodescoberta em um processo familiar.
Para muitas mulheres, o diagnóstico tardio, embora
possa trazer um luto pelo "tempo perdido" e pelas dificuldades
enfrentadas sem o devido suporte, é também um alívio imenso. Ele oferece uma
explicação para uma vida inteira de lutas, culpa e sensação de inadequação,
permitindo uma transição da autocrítica para a autocompaixão e a busca por
estratégias eficazes.
Maternidade e TDAH: caminhos para uma vida mais
leve
O Dr. Matheus Trilico enfatiza que o
diagnóstico e o tratamento do TDAH na mãe não beneficiam apenas ela, mas toda a
dinâmica familiar. Uma mãe com TDAH tratado consegue gerenciar melhor o
estresse, organizar a rotina e responder de forma mais consistente às
necessidades dos filhos.
Algumas estratégias são fundamentais para construir
uma maternidade mais saudável e equilibrada:
- Rotina
e Estrutura: Criar rotinas previsíveis e usar ferramentas visuais (agendas,
listas) ajuda a compensar as dificuldades de planejamento e memória.
- Delegação
e Apoio: Não
tentar fazer tudo sozinha. Delegar tarefas e buscar apoio da rede familiar
ou profissional é crucial.
- Gerenciamento
Sensorial: Identificar
e minimizar gatilhos sensoriais (ruídos excessivos, luzes fortes) e criar
"refúgios" de calma.
- Terapia
e Medicação: O tratamento multimodal, que pode incluir terapia
cognitivo-comportamental e medicação, é altamente eficaz para gerenciar os
sintomas e melhorar a qualidade de vida.
- Autocompaixão: Aprender a ser gentil
consigo mesma, reconhecendo que as dificuldades são parte do transtorno e
não uma falha pessoal.
A rede de apoio, incluindo parceiros e familiares,
desempenha um papel vital. É importante estar atento a sinais como o aumento da
irritabilidade, a necessidade de isolamento, a dificuldade em iniciar ou
finalizar tarefas, ou a sobrecarga emocional. Identificar esses sinais
precocemente permite oferecer suporte, assumir demandas e dar à mãe o espaço
necessário para se recuperar, evitando o esgotamento.
“O TDAH não define a mãe, mas entender como ele
funciona permite que ela se liberte da culpa e encontre seu próprio ritmo. Uma
mãe que se cuida e se entende é uma mãe mais presente e feliz para seus
filhos”, conclui o Dr. Matheus Trilico.
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico - CRM 35805PR, RQE 24818. Médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR - Pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/
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