Estudo conduzido na UFSCar
conclui que a adiposidade visceral tem maior impacto sobre o problema do que o
peso corporal total
Foram avaliadas 99 mulheres, entre 18 e 49 anos,
da cidade de São Carlos
(imagem: Patricia Driusso/UFSCar)
O acúmulo de gordura na região
abdominal, especialmente a gordura visceral (aquela que se deposita entre os
órgãos), aumenta significativamente o risco de incontinência urinária de
esforço em mulheres. A conclusão é de um estudo conduzido na Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar) e apoiado pela FAPESP (processos 13/00798-2 e 22/16910-5), que identificou essa região como a mais
associada à perda involuntária de urina, superando a gordura corporal total. Os
resultados, publicados no European Journal of Obstetrics
& Gynecology and Reproductive Biology, também indicam que a
distribuição da gordura no corpo pode ser mais determinante do que o próprio
peso para explicar a condição.
A incontinência urinária de
esforço é caracterizada pela perda involuntária de urina em situações comuns do
dia a dia, como tossir, rir, carregar peso ou praticar exercícios. “É aquela
perda urinária que acontece quando aumenta a pressão dentro do abdômen e o
assoalho pélvico não consegue segurar”, explica Patricia Driusso, professora de Fisioterapia em Saúde da
Mulher da UFSCar e orientadora do estudo. Apesar de muitas vezes ser associada
somente ao envelhecimento, a condição não é exclusiva de mulheres mais velhas.
“Acontece com mulheres de todas as idades, incluindo até as que são muito
jovens. Essa musculatura do assoalho pélvico é pouco trabalhada ao longo da
vida e, sem treinamento adequado, pode ficar fraca e perder função”, afirma.
O trabalho faz parte de uma
linha de pesquisa mais ampla sobre disfunções do assoalho pélvico que incluem,
além da incontinência urinária, problemas como incontinência fecal, prolapso de
órgãos pélvicos (quando estruturas como útero e bexiga descem pelo canal
vaginal), disfunções sexuais e dor pélvica crônica. Nessa etapa, os
pesquisadores decidiram investigar especificamente a relação entre a distribuição
da gordura corporal e a perda urinária. O estudo foi conduzido pela
fisioterapeuta Ana Jéssica dos Santos Sousa, primeira autora do artigo,
em parceria com a Western Michigan University, nos Estados Unidos.
Para chegar aos resultados,
foram avaliadas 99 mulheres entre 18 e 49 anos, recrutadas na cidade de São
Carlos, no interior de São Paulo. O estudo focou exclusivamente em mulheres
porque a incontinência urinária é significativamente mais comum nesse grupo.
Nos homens, o problema costuma estar associado principalmente a cirurgias de
próstata, enquanto nas mulheres há múltiplos fatores envolvidos, como
características anatômicas, gestação, menopausa e maior sobrecarga sobre o
assoalho pélvico.
As participantes não precisavam
ter diagnóstico prévio de incontinência e apresentavam índices de massa
corporal (IMCs) diversos, o que permitiu comparar diferentes perfis. Elas
passaram por um exame chamado DXA, considerado padrão-ouro para análise da
composição corporal, capaz de medir não apenas a quantidade total de gordura,
mas também sua distribuição em regiões específicas do corpo.
Os pesquisadores analisaram a
gordura total, a gordura abdominal (androide), a gordura da região ginecológica
(ginoide) e a gordura visceral. Além disso, aplicaram questionários validados
para identificar a presença de incontinência e avaliar o impacto dos sintomas
na qualidade de vida das mulheres. Cerca de 39,4% das participantes relataram
episódios de perda urinária, número compatível com estimativas internacionais.
“O problema é frequentemente
subnotificado, mas mesmo poucos episódios de perda urinárias já indicam que o
mecanismo de continência não está funcionando adequadamente”, alerta a
professora, ao ressaltar que muitas mulheres acabam normalizando pequenos
escapes, achando que são episódios isolados.
Impacto da
gordura visceral
Os resultados mostraram que
mulheres com maior quantidade de gordura corporal tinham mais chance de
apresentar incontinência. No entanto, o principal achado foi o papel da gordura
visceral: a presença desse tipo de adiposidade elevou em cerca de 51% a
probabilidade de incontinência urinária de esforço. “Esse foi o fator mais
fortemente associado. A gente imaginava que a gordura da região ginecológica,
por estar mais próxima do assoalho pélvico, teria maior influência, mas o que
apareceu foi a gordura visceral”, afirma Driusso.
De acordo com ela, a possível
explicação envolve diferentes mecanismos. O primeiro é mecânico: como a gordura
visceral se acumula dentro da cavidade abdominal, ela aumenta a pressão sobre
os órgãos internos e sobrecarrega o assoalho pélvico, estrutura responsável por
sustentar a bexiga e controlar a saída de urina. “O excesso de peso nessa
região gera uma sobrecarga constante. Com o tempo, essa musculatura pode se
tornar mais fatigada e menos eficiente”, explica a pesquisadora.
O segundo mecanismo é
metabólico. A gordura visceral não funciona apenas como um depósito de energia,
pois ela é metabolicamente ativa e libera substâncias inflamatórias que circulam
pelo organismo. Esse processo pode comprometer a qualidade muscular e reduzir a
capacidade de contração, inclusive dos músculos do assoalho pélvico. “A gente
fala em uma inflamação crônica de baixo grau, que vai afetando diferentes
tecidos do corpo. Isso também pode contribuir para o enfraquecimento muscular”,
diz a professora.
Além disso, a obesidade já é
reconhecida como um fator de risco para a incontinência urinária, ao lado de
envelhecimento, menopausa, número de gestações e condições do parto. No caso do
parto, Driusso faz um alerta: “O problema não é o parto em si, mas a
assistência obstétrica. Intervenções inadequadas, como a episiotomia [incisão
cirúrgica realizada no períneo, região muscular entre a vagina e o ânus,
durante o parto normal para ampliar a abertura vaginal], podem aumentar o risco
de disfunções do assoalho pélvico”, afirma.
Prevenção
e tratamento
De acordo com Driusso, o estudo
traz uma contribuição importante ao mostrar que não apenas o excesso de peso,
mas a forma como a gordura está distribuída no corpo pode influenciar o
desenvolvimento do problema, inclusive em mulheres com IMC dentro da faixa
considerada normal. Mas por se tratar de um estudo transversal – que analisa os
participantes em um único momento – os pesquisadores não podem afirmar relação
de causa e efeito, apenas que existe uma associação entre os fatores. Ainda
assim, os achados ajudam a orientar estratégias de prevenção e cuidado.
Uma das principais formas de
tratamento é o fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico, por meio da
fisioterapia. “Hoje temos alto nível de evidência de que o treinamento dessa
musculatura é eficaz. É o padrão-ouro para tratar a incontinência urinária de
esforço”, afirma Driusso.
Segundo ela, o acompanhamento
profissional é essencial, já que muitas mulheres não conseguem realizar
corretamente a contração desses músculos sozinhas. “Cerca de 30% das mulheres
não conseguem contrair adequadamente sem orientação. Algumas fazem o movimento
contrário, o que pode até piorar o quadro”, explica. O treinamento, quando bem
orientado, pode trazer melhora significativa em cerca de três meses. No
entanto, como qualquer outro grupo muscular, o assoalho pélvico precisa ser
exercitado continuamente. “Se parar, perde força. É um cuidado que deve ser mantido
ao longo da vida”, diz.
Os pesquisadores já planejam os
próximos passos da investigação, incluindo o uso de ressonância magnética para
avaliar a presença de gordura infiltrada diretamente nos músculos, um fenômeno
conhecido como mioesteatose. Também estudam se mulheres com obesidade podem se
beneficiar de protocolos específicos de treinamento.
Para Driusso, os resultados
reforçam a necessidade de ampliar o debate sobre o tema, ainda cercado de tabu.
“A incontinência urinária impacta a qualidade de vida, limita atividades e
muitas vezes é silenciosa. Mas tem tratamento e tem prevenção. O mais
importante é que as mulheres saibam que não precisam conviver com isso.”
O artigo Which body
region’s fat accumulation increase the risk of stress urinary incontinence? pode
ser lido em: sciencedirect.com/science/article/pii/S0301211526000230
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/gordura-abdominal-esta-ligada-a-maior-risco-de-perda-urinaria-em-mulheres/57955
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