As águas deixaram a cidade, as pessoas se acalmaram. As pessoas talvez pensem que tudo se acalmou. Ninguém pergunta para onde foram as águas; seu destino não importa. As pessoas se sentem aliviadas da inundação e não desejam nem lembrar o triste assunto.
As águas, todavia,
têm que ir para algum lugar. Elas estão por aí, vão retornar. Certamente, um
dia mais, um dia menos, voltarão. Quando voltarem, virão como chuva, descerão
montanhas, ocuparão vales. Nada detém as águas; se muitas, tomarão lugares,
farão estragos.
Nós devíamos ter
construído a paisagem da cidade incluindo a paisagem das águas, considerando
que elas existem, que vão, que vêm. Nós fizemos as cidades, sem observar a
repetição das águas, o seu sempre retorno, a força que elas têm. Laboramos em
grave equívoco.
As águas que
caem sobre cidades caem sobre campos. Nos campos, grande parte das chuvas
infiltra-se no solo, some sem causar males. Nos vilarejos, se as pessoas não se
estabeleceram no caminho das águas, acontece igual: as águas adentram o solo;
desaparecem.
Muitas cidades
edificaram no caminho das águas, obstaculizando o seu curso: cobrimos os solos,
as águas não se podem infiltrar; cercamo-las, elevando o nível das estradas;
desmatamos, propiciando enxurradas; lastramos os baixios que as recebiam. Atos
de grande insensatez.
Nas cercanias das
cidades, desmatamos até mesmo as encostas. Sem árvores que retenham as águas e
lhes deem tempo de infiltração, formam-se grandes volumes que correm morro
abaixo, levando terra consigo, produzindo lama, provocando destruição. Causa e
efeito.
Fala-se em vingança
da natureza. Nada. A natureza não tem vontades; a natureza simplesmente
acontece. Nós fizemos tudo isso. Nós bem que podemos desfazer. O mundo tem
muitos exemplos de erros danosos assim. Assumindo nossos erros, nós bem podemos
consertá-los.
O mundo tem muitos
exemplos de recuperação. Essas águas que assustam as cidades, correm nos
bairros, invadem e estragam nossas casas podem ser conduzidas. Com tecnologia,
podem-se conduzir as águas. Conduzir as águas é preservar nossas casas, nossa
paz.
Refiro qualquer
cidade, mas penso na minha urbe: Tubarão. A cidade se foi fazendo sem
considerar a drenagem das águas que vêm doutros lugares: cidades, campos,
encostas de serra, riachos e outros rios. Todas essas águas desembocam no nosso
rio. O rio não dá conta.
Você já foi no Morro
de Congonhas? Todo\a tubaronense merece e deve conhecer a elevação. Vê-se o
perto e o longe: a serra, o mar, mas sobretudo vê-se a cidade. Quando eleito
vereador, fui lá; fui mirar o compromisso que acabara de assumir: legislador
municipal de Tubarão.
A cidade, exceto
poucos morros, é um baixio, uma vasta ribeira (não por acaso um “caminhão de
aterro” é valiosa moeda de corrupção eleitoral). Quando dispusemos nossa paisagem
urbana, a conformação geográfica da Cidade Azul, muitas vezes feita marrom, não
foi respeitada.
Explico: as margens
de um rio que corta vales comumente são mais altas do que os terrenos
afastados. Nas bordas do rio, lentamente se acrescentam terras resultantes das
enxurradas ou mesmo enchentes. Transborda água com terra; a terra se assenta
nas beiras (assoreia).
As bordas do rio
Tubarão, portanto, são mais altas do que a sua bacia (o vale que ligeiramente
se inclina, na medida em que se afasta do leito). Quando o rio transborda, as
águas tendem a se afastar, inundando toda a região, o que, em geral, sucede em
crescente sem violência.
No passado, as águas
transbordadas ocupavam o extenso vale; volume expressivo se infiltrava no solo
desocupado. A cidade cresceu, aterrou boa parte do território, construiu casas,
deitou calçadas, asfaltou ruas, cimentou pátios. Em solo coberto as águas não
se podem influir.
Então, outros erros
advindos do crescimento urbano pouco ordenado: primeiro, a BR-101, uma enorme
barragem; depois, a SC-370, outra barragem. Enfim, as tantas avenidas, ruas,
ruelas, todas elevadas, quase nenhuma com a adequada drenagem. As águas foram
cercadas.
Em resumo, águas
contidas se avolumam, suplantam obstáculos, provocam enxurradas, invadem casas,
destroem lares, entristecem famílias. Um desastre anunciado pela
desconsideração à arquitetura (paisagem) urbana. A adversa situação,
entretanto, pode ser resolvida.
Como disse, em meu
tempo de vereador, por dever de ofício, estudei a questão. Sei que há
tecnologia disponível a custo possível. Li e conversei sobre o tema, ouvi bons
livros, exposição de casos e alguns urbanistas. Problemas mais complexos do que
o nosso foram resolvidos.
Sofremos um “mal de origem”, a falta
de planeamento, e, hoje, uma ingênua esperança de não repetição baralhada com a
hipótese de que não há solução. Mas a cidade não tem que estar sujeita às
forças da natureza. Haverá outras cheias; seria desidioso deixá-las ao acaso.
Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicanalista e Jornalista
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