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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

No mar da inteligência artificial, até onde o médico deve mergulhar?


O médico pode ir longe no uso da inteligência artificial generativa, mas não além da sua capacidade de avaliar criticamente o que ela lhe entrega. Apesar dos inúmeros benefícios, existem riscos relevantes, como omissões e alucinações. Quanto menos familiar for o território, maior deve ser a exigência de evidências, rastreabilidade e validação antes que uma informação produzida pela tecnologia influencie uma decisão clínica.

Esse talvez seja um dos princípios mais importantes para incorporar inteligência artificial à medicina. A discussão não deveria estar concentrada apenas em quanto a tecnologia é capaz de fazer, mas em quais condições podemos utilizar aquilo que ela produz. Afinal, uma resposta rápida, convincente e bem formulada não é necessariamente uma resposta correta.

Há uma imagem que ajuda a compreender essa fronteira. Podemos pensar no conhecimento médico como uma ilha cercada pelo mar.

No centro dessa ilha está o território que o médico conhece profundamente: a prática cotidiana, os diagnósticos frequentes, os protocolos que utiliza e o repertório construído ao longo da formação e da experiência clínica. Nesse espaço, a IA pode apoiar atividades como organização de informações, documentação e ganho de eficiência, mas não substitui o conhecimento clínico nem necessariamente acrescenta valor à tomada de decisão.

Ao redor da ilha está a água clara na área mais rasa e acessível. É o conhecimento que o médico possui, mas não acessa todos os dias: o nome de uma medicação pouco utilizada, um diagnóstico diferencial ou detalhes de determinado protocolo. Aqui, ferramentas de IA generativa podem funcionar como um mecanismo rápido de recuperação e organização da informação. A diferença fundamental é que o profissional possui repertório para avaliar criticamente o resultado, identificar inconsistências e recorrer à fonte original, quando necessário.

O cenário muda quando a água fica escura, mais distante da ilha. Estamos falando de diagnósticos raros, condições pouco conhecidas ou temas distantes da especialidade daquele profissional. A IA pode ajudar a levantar hipóteses, organizar possibilidades ou apontar caminhos para investigação, mas a resposta produzida passa a exigir um grau muito maior de verificação. Quanto menor o domínio prévio sobre o assunto, menor também é a capacidade de identificar uma informação plausível, porém incorreta.

É nesse ponto que a discussão sobre inteligência artificial na medicina deixa de ser apenas tecnológica. O problema não está simplesmente em utilizar ou não utilizar IA, mas em reconhecer que diferentes situações exigem diferentes níveis de supervisão, validação e evidência.

Essa lógica também deveria orientar instituições de saúde na adoção dessas tecnologias. O indicador de maturidade não é quantas soluções com inteligência artificial foram incorporadas, mas qual problema elas resolvem e como seu impacto é medido. Ganho de tempo na jornada do paciente, redução da carga cognitiva e administrativa, qualidade da documentação, segurança assistencial e desfechos clínicos são exemplos de resultados que podem ser avaliados, desde que exista metodologia adequada para estabelecer o impacto de cada aplicação.

Intervenção digital, por si só, não transforma a saúde. Incorporar uma solução digital a um processo que já funciona adequadamente apenas porque ela carrega o selo de inteligência artificial pode acrescentar complexidade sem necessariamente produzir valor. Tecnologia é um meio, e sua utilidade depende do problema que estamos tentando resolver.

Por isso, talvez a melhor medida para determinar até onde um médico pode mergulhar nesse mar não esteja na sofisticação da ferramenta, mas na capacidade de verificar aquilo que encontra pelo caminho. Na água clara, o conhecimento prévio do profissional permite avaliar criticamente a resposta. Na água escura, são necessárias outras âncoras: evidência científica, fontes verificáveis, protocolos, discussão com especialistas e julgamento clínico.

A inteligência artificial pode ampliar significativamente o território que conseguimos explorar. Mas existe uma regra que não deveria mudar conforme a tecnologia evolui: quanto menor a capacidade de validar uma resposta, maior deve ser o cuidado antes de transformá-la em uma decisão sobre a saúde de alguém. 



Dr. Kleber Araujo - médico e Chief Medical Information Officer da MV.


MV
www.mv.com.br


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