Dados da OMS mostram impacto da depressão e da ansiedade entre pessoas com 70 anos ou mais e reforçam a importância da prevenção do suicídio. Especialistas orientam sobre sinais de atenção e prevenção.
O envelhecimento da população traz consigo um
desafio que ainda recebe pouca atenção, a saúde mental na terceira idade. Neste
Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e à prevenção do suicídio,
dados recentes reforçam a necessidade de olhar com mais cuidado para pessoas
idosas, especialmente aquelas que enfrentam isolamento social, perdas, doenças
crônicas, redução da autonomia ou transtornos mentais.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS),
estima-se que 14,75% dos adultos com 70 anos ou mais vivem com algum transtorno
mental, sendo ansiedade e depressão os quadros mais comuns. Esses transtornos
respondem por 6,8% do total de anos vividos com incapacidade nessa faixa etária
e, globalmente, cerca de 16,6% das mortes por suicídio ocorrem entre pessoas
com 70 anos ou mais.
O médico psiquiatra e professor da Afya
Faculdade de Medicina de Itajubá, Dr Jorge Tostes, explica que a depressão e a
ansiedade merecem atenção especial porque são muito comuns entre pessoas
idosas, mas muitas vezes não são reconhecidas.
“Nem sempre esses transtornos aparecem na
forma de tristeza. É mais comum que se manifestem como dor, cansaço, falta de
energia, dificuldade de memória, irritação ou lentidão. Um sinal importante é a
desesperança e a sensação de desamparo. Quando a depressão vem acompanhada de
ansiedade, o sofrimento aumenta e a pessoa pode ficar mais agitada e impulsiva,
o que pode facilitar a passagem do pensamento para o ato suicida. A ansiedade
também pode atrapalhar a adesão ao tratamento e aumentar a sensação de
insegurança, medo e vulnerabilidade”.
O especialista destaca que, entre pessoas
idosas, as tentativas de suicídio costumam envolver meios mais letais e há
menor procura por ajuda em comparação aos jovens, o que aumenta o risco de
morte. Merecem atenção o uso de álcool e outras substâncias, que podem agravar
a depressão e aumentar a impulsividade, além de tentativas anteriores,
pensamentos persistentes de morte e facilidade de acesso a meios letais, como
medicamentos em excesso, armas e agrotóxicos.
“Outros fatores que podem aumentar o risco
estão problemas de saúde mental, principalmente a depressão e o transtorno
bipolar, com ou sem ansiedade, além de doenças físicas crônicas e dolorosas que
comprometem a autonomia e da sensação de ter perdido a capacidade de se cuidar
ou de se tornado um peso para a família. Perdas sucessivas e lutos acumulados,
sobretudo a morte do cônjuge, também podem contribuir para o aumento do risco.
A aposentadoria pode trazer a sensação de perda do papel na sociedade, enquanto
o isolamento social e a solidão também são fatores importantes”.
Atenção
com os sinais do envelhecimento
Um estudo publicado em 2025 pela revista científica
The
Lancet, com dados de 47 países ao longo de 25 anos, mostrou que, em
2021, a taxa global de mortalidade por suicídio entre pessoas com 65 anos ou
mais foi de cerca de 16 mortes por 100 mil, acima da média mundial de quase 11
por 100 mil.
Os homens representam 75% das vítimas nessa
faixa etária, e o acesso a meios letais, como armas e pesticidas, é apontado
como um fator determinante. Apesar da queda nas taxas individuais nas últimas
duas décadas, o número total de mortes continua crescendo em razão do
envelhecimento da população. Projeções até 2050 alertam para o risco de
estagnação dessa queda caso novas estratégias de prevenção não sejam
adotadas.
A médica geriatra e professora da Afya
Contagem, Dra Érica Abjaudi, comenta que o envelhecimento costuma trazer uma
combinação de mudanças biológicas, sociais e afetivas. Entre as mais relevantes
estão a aposentadoria e a mudança do papel social, a redução da renda, a saída
dos filhos de casa, a viuvez e a morte de amigos.
“Podem ocorrer mudanças na aparência e na percepção do próprio corpo, o aparecimento de doenças crônicas, dor persistente, limitações de mobilidade, perda de autonomia e necessidade de ajuda para realizar atividades que antes eram feitas de forma independente. Além disso, devemos considerar fatores menos visíveis, como a solidão, o isolamento social, a sensação de não ser mais útil, o preconceito etário, a violência, a negligência e a sobrecarga de quem cuida de um cônjuge doente”.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados pela Agência Senado, indicam que daqui a 45 anos os brasileiros com mais de 60 anos deverão representar 37,8% da população nacional, somando cerca de 75,3 milhões de pessoas. “O alerta para quem cuida de um idoso é prestar atenção quando há uma mudança persistente em relação ao funcionamento habitual. Entre os sinais estão o abandono de atividades que antes davam prazer, o isolamento progressivo, a perda importante de interesse, a desesperança, o sentimento de inutilidade ou de ser um peso para a família, alterações significativas no sono ou no apetite, o descuido com a higiene e os medicamentos, a irritabilidade ou ansiedade intensas, o aumento do consumo de álcool, a perda de funcionalidade sem explicação suficiente ou a presença de pensamentos recorrentes sobre a morte”, conclui a docente da Afya.

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