Especialistas destacam que legislação
revolucionou o combate à violência doméstica ao transformar a forma como o
Brasil enxerga o problema. No Paraná, redução dos feminicídios contrasta com
aumento das tentativas de assassinato e do descumprimento de medidas protetivas
Há 20 anos, o Brasil dava um dos passos mais importantes
no enfrentamento à violência contra a mulher. Sancionada em 7 de agosto de
2006, a Lei Maria da Penha mudou a forma como o Estado e a sociedade tratam a
violência doméstica, ampliando os mecanismos de proteção às vítimas,
endurecendo a responsabilização dos agressores e reconhecendo que a violência
vai muito além das agressões físicas.
A legislação recebeu o nome da farmacêutica cearense
Maria da Penha Maia Fernandes, que sobreviveu a duas tentativas de feminicídio
praticadas pelo então marido e aguardou quase duas décadas por uma resposta da
Justiça brasileira. A condenação do Estado brasileiro pela Comissão
Interamericana de Direitos Humanos da OEA impulsionou a criação da lei. Desde
então, a violência doméstica deixou de ser tratada como um conflito privado
para se tornar uma questão de interesse público, com instrumentos específicos
de proteção às vítimas e responsabilização dos agressores.
Para o advogado criminalista Dr. Eduardo Perine,
especialista em Direito Penal, o maior legado da Lei Maria da Penha foi
promover uma profunda mudança cultural.
"A Lei Maria da Penha não é apenas um marco
legislativo. Ela representa uma mudança cultural porque fez a sociedade
enxergar que violência doméstica vai muito além da agressão física, alcançando
também as violências psicológica, patrimonial, moral, financeira e emocional.
Isso mudou a forma como o Brasil passou a olhar para essas relações."
Vinte anos depois, os desafios permanecem. Dados do
Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 mostram que, embora o Paraná tenha
registrado queda de 20,7% nos feminicídios em 2025 — passando de 109 para 87
casos —, houve aumento de 36,2% nas tentativas de feminicídio. Também cresceram
os registros de violência psicológica (36,2%), perseguição (14%) e,
principalmente, os descumprimentos de medidas protetivas, que avançaram 22,8%,
colocando o estado na liderança nacional desse indicador.
Para Perine, os números mostram que a legislação precisa
continuar sendo aperfeiçoada.
"A Lei Maria da Penha representa um enorme avanço,
mas ainda existe um desafio de efetividade. Em muitos casos, a medida protetiva
não consegue impedir que o agressor volte a atacar. A lei precisa continuar
evoluindo para transformar proteção jurídica em proteção real."
No cenário nacional, o Anuário registrou 1.571
feminicídios em 2025, média superior a quatro mulheres assassinadas por dia,
além de 4.189 tentativas de feminicídio e crescimento dos casos de violência
psicológica, perseguição e descumprimento de medidas protetivas.
Para Danda Coelho, idealizadora do movimento Mulheres
Cuidando de Mulheres, os 20 anos da Lei Maria da Penha simbolizam uma conquista
histórica, mas também um chamado à responsabilidade coletiva.
"A lei deu voz às mulheres e mostrou que elas não
precisam enfrentar a violência sozinhas. Mas nenhuma legislação muda uma
cultura sem que exista acolhimento, informação e uma rede de apoio preparada
para agir."
Segundo ela, fortalecer essa rede continua sendo um dos
maiores desafios. "Celebrar os 20 anos da Lei Maria da Penha é reconhecer
o quanto avançamos, mas também lembrar que cada mulher protegida depende de uma
sociedade que não se cale diante da violência. Quando uma mulher encontra
acolhimento, ela encontra coragem para romper o ciclo da violência."
Duas décadas depois de sua criação, a Lei Maria da Penha
permanece como um dos maiores marcos da legislação brasileira. Mais do que
punir agressores, ela mudou a percepção da sociedade sobre a violência
doméstica e reafirmou que proteger mulheres é uma responsabilidade de todos.
Lei Maria da Penha em números
Paraná (2025)
- 87
feminicídios (-20,7% em relação a 2024);
- 148
tentativas de feminicídio (+36,2%);
- 2.550
casos de violência psicológica (+36,2%);
- 23.220
descumprimentos de medidas protetivas (+22,8%), maior índice do Brasil;
- 13
mulheres assassinadas tinham medida protetiva ativa, cerca de uma em cada
sete vítimas.
Brasil (2025)
- 1.571
feminicídios (mais de quatro mulheres mortas por dia);
- 4.189
tentativas de feminicídio;
- 132.025
descumprimentos de medidas protetivas;
- Para
cada feminicídio consumado, foram registrados, em média:
- 502
ameaças;
- 182
agressões em contexto doméstico;
- 84
descumprimentos de medidas protetivas;
- 79
casos de perseguição (stalking);
- 39
registros de violência psicológica.
Nenhum comentário:
Postar um comentário