Por que muita gente está em um relacionamento e continua profundamente sozinha?
Estar solteiro nunca foi o maior problema. O
verdadeiro problema é estar acompanhado e ainda assim se sentir invisível.
Todos os
anos, quando chega o Dia do Solteiro, vemos uma enxurrada de conteúdos
ensinando como encontrar um relacionamento, conquistar alguém ou deixar de
estar sozinho. Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada. E se o problema
nunca tivesse sido a solteirice?
Como
sexóloga, uma das frases que mais escuto é: "Eu namoro há anos, mas
me sinto completamente sozinho." Sempre que alguém diz
isso, eu percebo o quanto ainda romantizamos a ideia de que encontrar um
parceiro é o suficiente para sermos felizes. A verdade é que estar em um
relacionamento nunca foi garantia de conexão.
É possível
dividir a mesma cama, jantar na mesma mesa, viajar juntos e, ainda assim, viver
uma profunda solidão emocional. A pior solidão nem sempre acontece quando
estamos sozinhos. Muitas vezes, ela acontece quando estamos ao lado de alguém
que já não nos escuta, não demonstra curiosidade sobre quem nos tornamos e faz
com que nos sintamos invisíveis.
Vivemos um
paradoxo curioso. Nunca foi tão fácil conhecer pessoas. Aplicativos aproximam
desconhecidos em segundos, as redes sociais mostram milhares de possibilidades
e basta um clique para iniciar uma conversa. Mas, ao mesmo tempo, nunca foi tão
difícil construir intimidade. Criamos conexões rápidas, conversas superficiais
e relações descartáveis, enquanto a ansiedade para encontrar alguém cresce cada
vez mais.
Parte disso
acontece porque ainda carregamos uma crença silenciosa de que estar solteiro é
um problema a ser resolvido. Como se a felicidade tivesse, obrigatoriamente, a
forma de um casal. Como se chegar sozinho a um casamento despertasse pena. Como
se toda pessoa solteira estivesse desesperadamente procurando alguém.
Essa pressão
tem um efeito perigoso: ela faz muita gente aceitar relacionamentos que nunca
deveriam ter começado. Pessoas ignoram sinais claros de desrespeito, normalizam
a falta de diálogo, toleram migalhas de atenção e permanecem onde já não são
felizes apenas para não enfrentar o desconforto de voltar à solteirice.
E é
justamente aí que nasce uma das formas mais dolorosas de solidão: a solidão
acompanhada.
Existe uma
diferença enorme entre solidão e solitude. A solitude é a capacidade de
aproveitar a própria companhia, de sentir prazer em estar consigo mesmo e de
entender que a felicidade não depende da presença constante de outra pessoa. Já
a solidão aparece quando existe desconexão emocional. E essa desconexão pode
acontecer tanto quando estamos solteiros quanto dentro de um casamento de vinte
anos.
Talvez o Dia
do Solteiro devesse nos lembrar de algo muito mais importante do que encontrar
alguém: aprender a construir uma boa relação consigo mesmo. Porque pessoas que
têm medo da própria companhia costumam aceitar qualquer companhia. Já aquelas
que aprendem a gostar de quem são fazem escolhas mais conscientes sobre quem
merece ocupar espaço em suas vidas.
Antes de
perguntar quando você vai encontrar alguém, talvez valha fazer uma pergunta
mais difícil: você está procurando um parceiro ou apenas tentando aliviar a
ansiedade de ficar sozinho?
Existe uma
diferença enorme entre amor e carência. A carência procura alguém para
preencher um vazio. O amor procura alguém para compartilhar uma vida que já faz
sentido.
Por isso,
talvez o Dia do Solteiro mereça, sim, ser comemorado. Não porque estar solteiro
seja melhor do que estar em um relacionamento, mas porque aprender a ser feliz
sozinho é uma das maiores proteções contra aceitar um relacionamento que nunca
deveria existir.
No fim das
contas, a verdadeira meta nunca deveria ser deixar de estar solteiro. Deveria
ser construir relações em que a presença do outro some, e nunca substitua, a
felicidade que você já encontrou em si mesmo.
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