Durante a Copa do Mundo já em andamento nos Estados Unidos, a
presença de influenciadores digitais no país passou a ser atravessada por uma
leitura mais rígida das regras migratórias, com autoridades americanas
reforçando que a produção de conteúdo com fins de monetização pode configurar
violação do visto de turista. O endurecimento ocorre em um momento em que a
cobertura do evento é amplamente mediada por criadores de conteúdo, o que
amplia a tensão entre economia digital e regulação de imigração.
O tema ganhou repercussão após relatos dos brasileiros Michel Elias, humorista e imitador conhecido por paródias automotivas e sátiras de celebridades, e Hiago Marques, o “Thiago Sem T”, criador de esquetes de humor com situações cotidianas, ambos com milhares de seguidores nas redes sociais. Os dois afirmaram ter tido pedidos de visto de turista negados sob a justificativa de que iriam produzir conteúdo durante a cobertura da Copa.
O governo americano sustenta que o visto de turismo não autoriza qualquer atividade remunerada em território dos Estados Unidos. Em nota conjunta, a Alfândega e Proteção de Fronteiras e o Departamento de Segurança Interna reforçaram que a criação de conteúdo com finalidade comercial pode ser interpretada como trabalho não autorizado, o que abre espaço para deportação, cancelamento do visto e restrições futuras de entrada.
O visto B-2 permite entrada para lazer, visitas familiares e tratamento médico, mas não autoriza qualquer forma de remuneração ligada a atividades realizadas no país. Já casos em que há produção de conteúdo com fins comerciais podem exigir outros enquadramentos migratórios, como o visto O-1, destinado a profissionais com habilidades extraordinárias em áreas como artes, negócios ou esportes, que permite atuação remunerada nos Estados Unidos mediante autorização específica.
Para Fabiano Rocha,
CEO e fundador da Jumpstart, o ponto central está na dificuldade
de enquadrar a economia de influência dentro de categorias migratórias
tradicionais. “O problema não é apenas a presença no país, mas a finalidade
econômica da atividade. Quando há monetização direta ou indireta associada à
estadia, isso pode ser entendido como exercício de trabalho, mesmo que o
conteúdo seja publicado em redes sociais”, diz.
O endurecimento ocorre em meio a uma Copa do Mundo já em andamento
e com forte presença de criadores digitais na cobertura dos jogos. Os Estados
Unidos concentram 78 das 104 partidas do torneio, incluindo a final marcada
para 19 de julho, o que intensifica o fluxo de profissionais de mídia e
influenciadores.
A atuação de criadores estrangeiros passa a depender de
enquadramentos migratórios mais específicos. Em alguns casos, a alternativa
legal seria o visto O-1, destinado a profissionais com habilidades
extraordinárias em áreas como artes, negócios ou esportes, que permite atuação
remunerada no país.
O debate também se amplia diante da presença de grandes
influenciadores já em atividade durante o torneio. É o caso de Virgínia
Fonseca, que vem produzindo conteúdo sobre os jogos da Copa, inclusive em
parceria com a TV Globo. Por possuir cidadania americana nata, já que nasceu em
Danbury, Connecticut, ela não depende de visto de trabalho ou autorização
especial para atuar e monetizar conteúdos nos Estados Unidos.
O endurecimento das regras expõe uma tensão estrutural entre a
economia de influência digital e um sistema migratório desenhado antes da
consolidação das redes sociais como espaço de trabalho, especialmente em
eventos globais em que a produção de conteúdo se tornou parte central da
cobertura.
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