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segunda-feira, 22 de junho de 2026

O risco do PL 2.338: por que a regulamentação da IA pode atingir justamente quem mais precisa dela

"Para milhões de micro e pequenos empresários, a IA não é uma ameaça ao emprego; ela é a única forma de competir com empresas muito maiores. É justamente esse empreendedor que precisa ser protegido na construção do marco regulatório da IA"

 

A discussão sobre o PL 2.338, o projeto que estabelece regras para o desenvolvimento e uso da inteligência artificial no Brasil, costuma ser apresentada como um embate entre grandes empresas de tecnologia e reguladores.

Mas existe um grupo que aparece pouco nesse debate e que pode ser um dos mais afetados: os micro e pequenos empresários. O paradoxo é curioso. A tecnologia que prometia democratizar acesso à produtividade pode acabar se tornando mais complexa e custosa justamente para quem tem menos estrutura para absorver novas exigências.

O projeto segue uma lógica semelhante à adotada na Europa, baseada na classificação de risco dos sistemas de inteligência artificial. Dependendo da aplicação, empresas poderão ter obrigações relacionadas a governança, transparência, documentação, avaliação de riscos e prestação de contas. 

A intenção é legítima: proteger direitos, reduzir abusos e criar segurança jurídica. O problema surge quando se observa a distância entre a capacidade de uma big tech e a realidade de uma empresa com dez funcionários utilizando ferramentas de IA para marketing, vendas ou atendimento.

Imagine uma pequena clínica médica que utiliza inteligência artificial para organizar triagens, uma escola que usa IA para personalizar o aprendizado ou uma empresa de recrutamento que automatiza parte da seleção de candidatos.

Dependendo da interpretação regulatória e da classificação de risco dessas aplicações, essas empresas poderão ser obrigadas a documentar processos, revisar decisões automatizadas e comprovar conformidade. O custo não estará apenas na tecnologia. Estará nos advogados, consultores, auditorias e processos internos necessários para operar dentro das regras.

O risco econômico é conhecido por qualquer empreendedor brasileiro. Grandes empresas costumam transformar regulação em vantagem competitiva porque possuem equipes jurídicas, departamentos de compliance e orçamento para adaptação. Já os pequenos negócios enfrentam um desafio diferente: cada nova obrigação representa tempo, dinheiro e complexidade operacional. Em muitos casos, o efeito prático não é a proibição da inovação, mas a desaceleração dela. E inovação que demora a chegar custa competitividade.

Existe ainda uma questão pouco discutida. A inteligência artificial está se tornando para esta década o que a internet foi para os anos 2000. Hoje, um pequeno escritório de advocacia consegue produzir conteúdo, atender clientes e organizar processos utilizando ferramentas que, há poucos anos, estavam disponíveis apenas para grandes corporações. Se o ambiente regulatório elevar excessivamente o custo de adoção, corre-se o risco de ampliar a distância entre quem pode investir em tecnologia e quem depende dela para competir.

Isso não significa que o Brasil deva abandonar a regulamentação. A ausência de regras também gera insegurança jurídica, afasta investimentos e dificulta a proteção de direitos fundamentais. O desafio está em encontrar equilíbrio. Regulamentar inteligência artificial é necessário. Regulamentar da mesma forma uma multinacional de tecnologia e uma pequena empresa que utiliza ferramentas prontas de mercado pode produzir efeitos muito diferentes. O debate, portanto, não deveria ser entre regular ou não regular. Deveria ser sobre proporcionalidade.

No fim, a pergunta que o Congresso precisará responder é simples. O Brasil quer criar uma lei para controlar riscos ou uma lei que, sem intenção, reduza a velocidade de adoção da tecnologia mais importante desta geração? Porque, para milhões de micro e pequenos empresários, a inteligência artificial não é uma ameaça ao emprego. Ela é, muitas vezes, a única forma de competir com empresas muito maiores. E talvez seja justamente esse empreendedor que mais precise ser protegido durante a construção do marco regulatório.


**As opiniões expressas em artigos são de exclusiva responsabilidade dos autores e não coincidem, necessariamente, com as do Diário do Comércio**



Camila Farani - Investidora, presidente da G2 Capital e CEO da FEN Educação para negócios. Eleita como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina pela Bloomberg Linea


Fonte: https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/o-risco-do-pl-2-338-por-que-a-regulamentacao-da-ia-pode-atingir-justamente-quem-mais-precisa-dela


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