Nova
legislação resgata o lado humano da arquitetura corporativa e transforma
projetos em promotores de saúde mental
Com as atualizações da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entraram em vigor nesta terça-feira (26), as empresas brasileiras agora são legalmente obrigadas a mapear e gerenciar os riscos psicossociais dentro de seus Programas de Gerenciamento de Riscos (PGR). A urgência da medida reflete um cenário corporativo alarmante no país
Em 2025, o
Ministério da Previdência Social registrou 546.254 afastamentos por transtornos
mentais, alta de 15,6% em relação ao ano anterior, com ansiedade e depressão
liderando as causas. Os custos associados ultrapassaram R$ 30 bilhões em 2024.
A mudança acende
um alerta jurídico e financeiro imediato para os setores de RH e Compliance.
Por outro lado, a lei impulsiona uma revolução urgente e necessária no setor de
Arquitetura e Design: o resgate da humanização genuína dos espaços de trabalho
para conter esse adoecimento em massa.
Para a
arquiteta, consultora e empresária Priscilla Bencke, uma das principais
referências em neuroarquitetura no Brasil e cofundadora da Academia Brasileira
de Neurociência e Arquitetura (NEUROARQ® Academy), a nova legislação marca o
fim das soluções apenas cosméticas. O cenário exige uma mudança drástica de
mentalidade: o arquiteto e o designer de interiores precisam deixar de se ver
apenas como projetistas de layouts para se assumirem definitivamente como
profissionais da saúde.
"A clássica
'salinha de descompressão' com puffs coloridos e mesas de pingue-pongue perde o
sentido se o layout onde o colaborador passa a maior parte do dia é tóxico e o
adoece. A arquitetura corporativa deixa de ser uma vitrine estética para atuar
como um abraço no usuário. Precisamos projetar com empatia, entendendo que o
ambiente construído deve se adaptar às necessidades fisiológicas, cognitivas e
emocionais do ser humano, e não o contrário", afirma a especialista.
Respeito
às necessidades básicas
De acordo com
Priscilla, a experiência humana em um espaço depende de uma base ambiental
sólida que respeite nossos sentidos: acústica adequada, iluminação eficiente
que siga o ciclo circadiano e qualidade do ar", explica.
Se o escritório
sobrecarrega o sistema nervoso do colaborador com ruído e caos visual, os
esforços bem-intencionados dos Recursos Humanos, como oferecer terapia, atuarão
apenas como curativos em uma ferida aberta. "Cuidar da saúde mental, como
orienta a Organização Internacional do Trabalho (OIT), tornou-se um direito
fundamental. E o arquiteto e o designer de interiores têm o poder, e agora o
dever, de materializar esse direito através do conforto espacial", pontua
a arquiteta.
Uma
nova posição dentro do negócio
Com a nova NR-1
atuando em conjunto com a NR-17 (Ergonomia), o conceito de saúde ocupacional se
expande, deixando de se resumir a uma cadeira ergonômica para englobar todo o
espectro psicofisiológico do ambiente. Essa mudança regulatória tem dois lados
claros para os profissionais de arquitetura e design.
O primeiro é o
risco. O “projeto bonito”, sem embasamento técnico em saúde ocupacional,
tornou-se um passivo jurídico, tanto para a empresa contratante quanto,
potencialmente, para o profissional responsável pela assinatura do projeto.
Isso pode exigir reformas imediatas de readequação, caso o ambiente não atenda
aos novos parâmetros psicossociais estabelecidos pela norma.
O segundo é a
oportunidade. O arquiteto e o designer corporativos saem de uma posição de
fornecedores e passam a atuar como parceiros estratégicos multidisciplinares,
lado a lado com especialistas em Segurança do Trabalho, ergonomistas e gestores
de RH. O orçamento que antes saía do centro de custo de "Manutenção"
migra para "Saúde e Pessoas”, com escopo, complexidade e valor de contrato
proporcionalmente maiores.
"Essa é a
maior valorização que nossa profissão já recebeu por via regulatória. O mercado
está sendo obrigado a entender o que a neuroarquitetura já sabe: ambiente não é
cenário, é sistema de saúde. E quem projeta esse sistema precisa ser tratado
como tal", afirma Priscilla.
Projetar
com evidência, não com intuição
A adaptação a
esse novo papel exige do profissional uma mudança de método e o abandono
imediato do "achismo". Decisões baseadas puramente em referências
visuais ou tendências de mercado precisam dar lugar ao diagnóstico mais humano,
baseado em evidências científicas: mapeamento de percepção dos usuários,
medição acústica, análise da iluminação e avaliação de fluxo, por exemplo, que
deverão ser realizados antes da concepção do projeto, não após
a entrega.
Nesse contexto,
a neuroarquitetura oferece ferramentas precisas, como a Escala de Autopercepção
dos Ambientes (EAPA®), solução autoral da NEUROARQ Academy criada para traduzir
as respostas subjetivas e emoções que os clientes experimentam, dando voz às
suas reais necessidades.
"Não se
trata de inserir plantas de forma aleatória e chamar de biofilia, ou pintar uma
parede de azul achando que isso trará calma. Estamos falando de medir
cientificamente como o corpo humano reage ao espaço e projetar a partir dessa
resposta. É o que diferencia o profissional que vai liderar esse novo mercado
daquele que vai ficar para trás. O mercado finalmente entendeu: cuidar do ambiente
é, antes de tudo, cuidar de quem está dentro dele", conclui a
especialista.
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