No Dia da Imunização (9/6), dados do Ministério da
Saúde revelam que apenas 2 das 16 vacinas infantis atingem a meta nacional de
cobertura; e o calendário vacinal do adulto segue como ponto cego da saúde
preventiva brasileira
O
Dia da Imunização, em 9 de junho, chega em 2026 com um contexto inédito: o
Brasil se prepara para enviar torcedores à Copa do Mundo nos Estados Unidos,
Canadá e México, precisamente os três países responsáveis por mais de dois
terços dos casos de sarampo nas Américas. Em 2025, os EUA registraram 2.144 casos
de sarampo, com transmissão ainda ativa e mais 1.792 confirmados em 2026. O
Canadá, com 5.062 registros em 2025, perdeu o status de país livre da doença.
Em 2026, já são 907 casos canadenses. Diante disso, o Ministério da Saúde
lançou em abril de 2026 uma campanha específica orientando viajantes a
verificarem e atualizarem a caderneta de vacinação antes do embarque.
O
alerta não é só para quem viaja. Dentro do Brasil, o cenário vacinal exige
atenção. Dados preliminares do Painel de Cobertura Vacinal do Ministério da
Saúde mostram que apenas duas vacinas do calendário nacional atingiram em 2025
a meta mínima de 95% estabelecida pelo PNI: a BCG, com 96,8% de cobertura, e a
hepatite B neonatal, com 95,1%. O restante do calendário — incluindo tríplice
viral, poliomielite, pneumocócica e meningocócica — ficou abaixo do limiar
considerado seguro para evitar surtos.
No
sarampo, o Ministério da Saúde registrou dois casos confirmados em 2026 até a
semana epidemiológica 14, um em São Paulo, associado a viagem internacional, e
um no Rio de Janeiro, com ausência de registro vacinal. O Brasil mantém o
certificado de país livre do sarampo, concedido pela OPAS em 2024, mas a
pressão externa é crescente. Em 2025, a Região das Américas confirmou 14.891
casos de sarampo e 29 mortes em 13 países, aumento de 32 vezes em relação aos
466 casos de 2024. Cerca de 78% dos casos ocorreram em pessoas não vacinadas ou
com histórico vacinal desconhecido.
Na
coqueluche, a situação é igualmente preocupante. Segundo Alerta Epidemiológico
da OPAS, entre as semanas epidemiológicas 1 e 19 de 2025, o Brasil registrou
1.634 casos confirmados de coqueluche, incluindo cinco óbitos — o segundo maior
número de notificações no país desde 2019. Em 2023, o país havia registrado
apenas 216 casos no ano inteiro; em 2024, esse número saltou para 7.440, o
maior em uma década, reflexo da queda nas coberturas vacinais entre 2016 e
2021, da natureza cíclica da doença e da retomada das interações sociais
pós-pandemia.
"Estamos
assistindo ao retorno de doenças que haviam deixado de fazer parte da rotina
clínica. Quando a cobertura cai abaixo do limiar seguro, o vírus encontra
brechas — e age rapidamente, especialmente em crianças não vacinadas e adultos
com esquemas incompletos", afirma Alberto Chebabo, infectologista do Alta
Diagnósticos, no Rio de Janeiro, marca da Dasa.
O ponto cego: a vacinação do adulto
A
queda nas coberturas não se restringe à infância. Uma campanha de resgate do
Ministério da Saúde para jovens de 15 a 19 anos não vacinados contra o HPV — a
primeira vez que essa faixa etária tem acesso à vacina pelo SUS — tem como meta
alcançar cerca de 7 milhões de jovens. Até dezembro de 2025, apenas 208,7 mil
doses haviam sido aplicadas nesse grupo. O prazo foi prorrogado até junho de
2026.
O
problema se estende a adultos em geral. O próprio diretor do PNI, Eder Gatti,
declarou que o Brasil não atinge a maior parte das metas de cobertura vacinal
pelo menos desde 2014, passando por inclusive, avanço da desinformação.
"Recebemos
com frequência adultos que não sabem quando tomaram a última dose da tríplice
bacteriana, que nunca completaram o esquema de hepatite B ou que desconhecem
que precisam de reforços ao longo da vida. A carteira vacinal do adulto é
tratada como algo opcional, e não é", afirma Maria Isabel de Moraes-Pinto,
coordenadora em vacinas da Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil.
Por que a população não se vacina?
Pesquisa
sobre hesitação vacinal identificou que os principais motivos para a não
vacinação no Brasil são questões de confiança (41,4%), dúvidas sobre eficácia e
segurança (25,5%) e medo de eventos adversos (23,6%). Entre as vacinas com
menor adesão está a da Covid-19, que atingiu apenas 3,49% de cobertura entre
crianças em 2025 — reflexo direto da disseminação de desinformação sobre esse
imunizante específico, segundo o Ministério da Saúde.
No
primeiro semestre de 2025, o Ministério da Saúde aplicou mais de 1 milhão de
doses em escolas de 4,1 mil municípios pelo Programa Saúde na Escola. Serviços
de vacinação domiciliar, disponíveis na rede privada — incluindo a Dasa —,
complementam essa estratégia ao eliminar barreiras práticas para idosos,
famílias com crianças pequenas e pacientes com dificuldade de deslocamento.
"Quando
conseguimos levar a vacina até a pessoa, eliminamos a principal barreira para o
adiamento. No caso de idosos e pacientes com doenças crônicas, essa
conveniência pode ser decisiva para manter esquemas vacinais completos",
reforça Maria Isabel.
Entre
as vacinas recomendadas para adultos com maior frequência de atraso estão influenza,
covid-19 atualizada, hepatite B, tríplice bacteriana e febre amarela, conforme
a região. Para idosos, pneumocócica e herpes-zóster completam o esquema
prioritário.
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