Garantir que conhecimento científico e popular sejam incluídos na legislação por tomadores de decisão ainda é o principal entrave para políticas ambientais eficazes no bioma.
O futuro da Amazônia depende principalmente da eficiência com que
as informações coletadas por cientistas e povos indígenas e comunidades
tradicionais serão incorporadas às políticas públicas para a agenda de mudança
do clima e sustentabilidade , alerta o artigo “Do
conhecimento à ação: fortalecendo a interface ciência-política para o futuro da
Amazônia”, publicado em 22 de maio pelo Painel
Científico pela Amazônia. Segundo os autores, o principal obstáculo para conter
a perda de vegetação nativa no bioma não é a falta de compreensão sobre o
problema, mas a dificuldade de transformar pesquisas em ações concretas e em
legislação sólida na esfera de tomada de decisão.
“Cientistas, indígenas, políticos e tomadores de decisão operam de formas diferentes dentro de suas estruturas e epistemológicas. Essas diferenças criam fragilidades no para a conservação ambiental, porque há muitos incentivos, interesses e prioridades divergentes influenciando algo que deveria seguir um caminho comum e eficiente. O que vemos hoje é um enorme desafio em alinhar múltiplos interesses, porque consomem tempo e recursos, mas seria muito importante para a efetividade da agenda ambiental”, alerta Patrícia Pinho, diretora adjunta de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e autora do estudo.
Os pesquisadores também destacam que as discussões sobre políticas públicas para a Amazônia frequentemente não incluem os povos indígenas e populações tradicionais que pretendem beneficiar, gerando desconfiança entre os diferentes atores envolvidos. Como forma de apoiar o desenvolvimento de políticas mais efetivas, os autores sugerem a criação de grupos especializados de resposta rápida, voltados ao assessoramento de tomadores de decisão em momentos de crise, além do fortalecimento da divulgação científica e da criação de laboratórios e centros de inovação dedicados ao desenvolvimento de estratégias específicas para cada região do bioma.
Para os pesquisadores, apesar dos estudos já publicados e dos
alertas feitos por lideranças comunitárias, a Amazônia ainda é tratada
politicamente como uma fonte inesgotável de recursos naturais a serem
explorados. Segundo o artigo, essa lógica de ocupação e exploração da floresta
contribui para o desequilíbrio ecológico do bioma, que se aproxima de um ponto
de não retorno.
Dificuldades de comunicação
Para os pesquisadores, as desconexões entre atores refletem
problemas sistêmicos na produção e circulação do conhecimento, em que
cientistas e formuladores de políticas públicas têm dificuldade de ultrapassar
suas próprias “bolhas” institucionais. Além disso, as interações entre ciência
e política costumam privilegiar determinadas áreas do conhecimento e certos
tipos de dados, marginalizando outros saberes e limitando a efetividade da
tomada de decisão.
“Agências governamentais na Amazônia são forçadas a produzir
regulações que lidam simultaneamente com pobreza, conservação, desenvolvimento
econômico e desigualdade social em regiões completamente diferentes entre si.
Temos bases legais, mas elas passam por alterações frequentes motivadas pela
vontade política do momento, muitas vezes pela corrupção e pela falta de
recursos para uma fiscalização efetiva. Ao mesmo tempo, vemos pesquisadores
produzindo dados relevantes, mas que frequentemente não conseguem influenciar
esse processo”, explica Pinho.
De acordo com entrevistas realizadas com 22 moradores da região
para o estudo, os problemas de comunicação decorrem, principalmente, da demora
na publicação de artigos científicos, enquanto as políticas públicas costumam
ser pautadas por debates rápidos e dinâmicos. O formato acadêmico, baseado em
estudos extensos e relatórios técnicos, também tende a ser pouco acessível para
comunidades locais e, muitas vezes, não contempla as demandas específicas dos
territórios nem fornece dados que possam ser aplicados diretamente na
formulação de políticas públicas.
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