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terça-feira, 9 de junho de 2026

Pintura na barriga e escuta ativa: pesquisa usa arte gestacional para ensinar futuros médicos a humanizar partos

Estudo inédito do CEUB aposta em oficinas com gestantes para sensibilizar futuros médicos sobre saúde mental materna e cuidado humanizado

 

Enquanto segurava pinceis e tintas diante da barriga de uma gestante, a estudante de Medicina Maria Clara de Almeida Ferreira percebeu que aquele momento dizia muito mais sobre cuidado do que aula tradicional de anatomia ou protocolo hospitalar. Entre traços e conversas, surgiam relatos sobre medo do parto, ansiedade e experiências de desrespeito vividas por mulheres durante atendimentos obstétricos. A cena fez parte de pesquisa do Centro Universitário de Brasília (CEUB) que aposta na arte gestacional como ferramenta para sensibilizar médicos sobre empatia, acolhimento e violência obstétrica. 

O estudo “Violência Obstétrica e Formação Médica: Oficinas de Arte Gestacional como Abordagem de Sensibilização para Estudantes de Medicina” é considerado inédito ao levar oficinas de pintura gestacional para dentro da formação médica. A iniciativa ocorre em meio às discussões do Maio Furta-cor, campanha voltada à saúde mental materna. “A arte gestacional promove uma aproximação diferente entre estudante e gestante. Ela rompe barreiras técnicas e cria espaço para escuta, troca e acolhimento, elementos essenciais para combater práticas violentas na assistência obstétrica”, afirma a autora da pesquisa. 

A arte gestacional consiste na pintura artística da barriga da gestante, representando o bebê e o ambiente intrauterino. Mas, nas oficinas realizadas pela estudante do CEUB, o foco foi além do desenho. As atividades funcionaram como acolhimento e troca entre estudantes e gestantes em situação de vulnerabilidade social atendidas pela Casas Lares Humberto de Campos (CLHC), instituição que promove ações de assistência, distribuição de enxovais e acompanhamento pré-natal com apoio de voluntários, incluindo universitários da saúde.

 

“Ali elas se sentiam ouvidas”

Antes das oficinas, os estudantes participaram de exposições teóricas sobre violência obstétrica, termo usado para definir práticas de desrespeito, constrangimento ou negligência contra mulheres durante a gestação, parto e pós-parto. Depois, veio a parte prática: realizar pinturas nas gestantes, conversar e ouvir suas histórias. 

“Não era só pintar. Muitas mulheres aproveitavam aquele momento para falar sobre ansiedade em relação à gestação, abandono, medo do parto ou experiências traumáticas. Ali elas se sentiam ouvidas”, detalha a estudante. Os participantes apontaram mudanças na percepção sobre o cuidado obstétrico. Entre os aspectos mais citados pelos estudantes estão empatia, acolhimento, fortalecimento da escuta ativa e reflexões sobre a humanização do parto e do atendimento às gestantes. 


Inovação na formação médica

Um dos diferenciais do estudo do CEUB está na proposta pedagógica. Segundo a pesquisadora, não há registros de trabalhos acadêmicos que utilizem a arte gestacional como instrumento de sensibilização dentro da formação médica. “A ideia foi proporcionar aos estudantes uma experiência mais humana e sensível, estimulando um olhar que vá além do aspecto técnico da medicina”, explica Maria Clara.

Para a estudante Sarah Almeida de Oliveira, a experiência da pintura foi transformadora. “Em um momento em que muitas gestantes enfrentam mudanças na autoestima, a pintura ajudou essas mulheres a se sentirem bonitas novamente. Elas se sentiam belas, tinham vontade de tirar fotos e mostrar a barriga para as pessoas. Foi algo muito forte dentro desse contexto”, destacou.

 

Saúde mental materna em pauta

De acordo com especialistas, ansiedade, depressão e sofrimento emocional durante a gravidez e o pós-parto ainda são pouco discutidos e frequentemente invisibilizados nos atendimentos de saúde. Para o orientador da pesquisa, Alexandre Sampaio Rodrigues Pereira, experiências como essa ajudam a aproximar futuros profissionais das dimensões emocionais e sociais do cuidado. “A medicina precisa continuar avançando tecnicamente, mas sem perder a capacidade de ouvir, acolher e enxergar a mulher para além do prontuário”, afirma o docente do CEUB. 


Serviço

Gestantes interessadas em participar das ações promovidas pela CLHC podem realizar o cadastro gratuitamente. Para isso, é necessário:

  • Estar em situação de vulnerabilidade social;
  • Estar gestante até o 7º mês de gravidez;
  • Apresentar os documentos obrigatórios: cartão da gestante, RG, comprovante de residência e comprovante de renda (caso possua);
  • Participar das atividades e encontros agendados pela instituição, conforme o calendário de cadastro.

Local para cadastro e atendimento:
SGAS 909/910, módulo 29, conjunto A – Asa Sul, Brasília (DF)


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