Estudo inédito do CEUB aposta em oficinas com gestantes para sensibilizar futuros médicos sobre saúde mental materna e cuidado humanizado
Enquanto segurava pinceis e tintas diante da barriga de uma
gestante, a estudante de Medicina Maria Clara de Almeida Ferreira percebeu que
aquele momento dizia muito mais sobre cuidado do que aula tradicional de
anatomia ou protocolo hospitalar. Entre traços e conversas, surgiam relatos
sobre medo do parto, ansiedade e experiências de desrespeito vividas por
mulheres durante atendimentos obstétricos. A cena fez parte de pesquisa do
Centro Universitário de Brasília (CEUB) que aposta na arte gestacional como
ferramenta para sensibilizar médicos sobre empatia, acolhimento e violência
obstétrica.
O estudo “Violência Obstétrica e Formação Médica: Oficinas de Arte Gestacional como Abordagem de Sensibilização para Estudantes de Medicina” é considerado inédito ao levar oficinas de pintura gestacional para dentro da formação médica. A iniciativa ocorre em meio às discussões do Maio Furta-cor, campanha voltada à saúde mental materna. “A arte gestacional promove uma aproximação diferente entre estudante e gestante. Ela rompe barreiras técnicas e cria espaço para escuta, troca e acolhimento, elementos essenciais para combater práticas violentas na assistência obstétrica”, afirma a autora da pesquisa.
A arte gestacional consiste na pintura artística da barriga da
gestante, representando o bebê e o ambiente intrauterino. Mas, nas oficinas
realizadas pela estudante do CEUB, o foco foi além do desenho. As atividades
funcionaram como acolhimento e troca entre estudantes e gestantes em situação
de vulnerabilidade social atendidas pela Casas Lares Humberto de Campos (CLHC),
instituição que promove ações de assistência, distribuição de enxovais e
acompanhamento pré-natal com apoio de voluntários, incluindo universitários da
saúde.
“Ali elas se sentiam ouvidas”
Antes das oficinas, os estudantes participaram de exposições teóricas sobre violência obstétrica, termo usado para definir práticas de desrespeito, constrangimento ou negligência contra mulheres durante a gestação, parto e pós-parto. Depois, veio a parte prática: realizar pinturas nas gestantes, conversar e ouvir suas histórias.
“Não era só pintar. Muitas mulheres aproveitavam aquele momento para falar sobre ansiedade em relação à gestação, abandono, medo do parto ou experiências traumáticas. Ali elas se sentiam ouvidas”, detalha a estudante. Os participantes apontaram mudanças na percepção sobre o cuidado obstétrico. Entre os aspectos mais citados pelos estudantes estão empatia, acolhimento, fortalecimento da escuta ativa e reflexões sobre a humanização do parto e do atendimento às gestantes.
Inovação na formação médica
Um dos diferenciais do estudo do CEUB está na proposta pedagógica. Segundo a pesquisadora, não há registros de trabalhos acadêmicos que utilizem a arte gestacional como instrumento de sensibilização dentro da formação médica. “A ideia foi proporcionar aos estudantes uma experiência mais humana e sensível, estimulando um olhar que vá além do aspecto técnico da medicina”, explica Maria Clara.
Para a estudante Sarah Almeida de Oliveira, a experiência da pintura foi transformadora. “Em um momento em que muitas gestantes enfrentam mudanças na autoestima, a pintura ajudou essas mulheres a se sentirem bonitas novamente. Elas se sentiam belas, tinham vontade de tirar fotos e mostrar a barriga para as pessoas. Foi algo muito forte dentro desse contexto”, destacou.
Saúde mental materna em pauta
De acordo com especialistas, ansiedade, depressão e sofrimento emocional durante a gravidez e o pós-parto ainda são pouco discutidos e frequentemente invisibilizados nos atendimentos de saúde. Para o orientador da pesquisa, Alexandre Sampaio Rodrigues Pereira, experiências como essa ajudam a aproximar futuros profissionais das dimensões emocionais e sociais do cuidado. “A medicina precisa continuar avançando tecnicamente, mas sem perder a capacidade de ouvir, acolher e enxergar a mulher para além do prontuário”, afirma o docente do CEUB.
Serviço
Gestantes interessadas em participar das ações
promovidas pela CLHC podem realizar o cadastro gratuitamente. Para isso, é
necessário:
- Estar em situação de vulnerabilidade social;
- Estar gestante até o 7º mês de gravidez;
- Apresentar os documentos obrigatórios: cartão da gestante,
RG, comprovante de residência e comprovante de renda (caso possua);
- Participar das atividades e encontros agendados pela
instituição, conforme o calendário de cadastro.
Local para cadastro e atendimento:
SGAS 909/910, módulo 29, conjunto A – Asa Sul,
Brasília (DF)


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