Resultados do ensaio clínico RASolute 302, apresentados no maior congresso de oncologia do mundo, são descritos como divisor de águas no tratamento da doença
Um comprimido tomado uma vez ao dia pode dobrar o
tempo de vida de pacientes com câncer de pâncreas avançado. É o que mostram os
resultados do estudo clínico de fase 3 RASolute 302, apresentados neste domingo
(31) durante o congresso anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica
(ASCO), em Chicago, e publicados simultaneamente no New England Journal of
Medicine. Os dados foram recebidos com entusiasmo pela comunidade médica
internacional e com expectativa crescente no Brasil.
O medicamento em questão é o daraxonrasib, desenvolvido pela empresa americana Revolution Medicines. Trata-se de um inibidor oral seletivo da proteína RAS, classificado como RAS(ON) multi-seletivo, testado em pacientes com adenocarcinoma ductal pancreático metastático previamente tratado.
“Esses
resultados representam uma virada real na oncologia pancreática. Pela primeira
vez temos um medicamento que ataca diretamente o mecanismo molecular que
impulsiona esse tumor e os números são impressionantes”, afirma o oncologista
Mauro Donadio, especialista em tumores do aparelho digestivo da Oncoclínicas.
Por que o câncer de pâncreas é tão difícil de tratar
O câncer de pâncreas é considerado um dos tumores mais letais da oncologia. A taxa de sobrevida em cinco anos para pacientes com doença metastática é de apenas 3%, e cerca de 80% dos pacientes recebem o diagnóstico já em estágio avançado ou metastático.
Por décadas, cientistas trabalharam para encontrar soluções para uma forma de câncer frequentemente diagnosticada tardiamente — mais da metade dos pacientes só recebem o diagnóstico após a doença já ter se espalhado.
A
escassez de opções terapêuticas eficazes torna qualquer avanço nessa área
especialmente significativo. O principal investigador do estudo, Dr. Brian
Wolpin, do Dana-Farber Cancer Institute, em Boston, reconheceu que a
quimioterapia padrão na segunda linha de tratamento simplesmente não funciona
tão bem quanto se desejaria.
O mecanismo: atacando o coração do tumor
O daraxonrasib age sobre uma proteína chamada RAS - mais especificamente sobre sua variante KRAS, que funciona como um acelerador do crescimento tumoral. Os genes RAS podem fazer com que as células cancerígenas continuem recebendo sinais para crescer e se dividir, mesmo quando não deveriam, levando ao crescimento e à disseminação do câncer. Mais de 90% dos pacientes com a forma mais comum de câncer de pâncreas apresentam uma mutação no gene KRAS.
O daraxonrasib é um novo tipo de inibidor RAS denominado RAS(ON) multi-seletivo. Ele é capaz de desligar a proteína KRAS para interromper o crescimento do câncer, independentemente de haver ou não uma variante específica do gene.
Para
Donadio, isso representa um salto qualitativo em relação ao que existia até
agora. “O KRAS sempre foi considerado um alvo praticamente intratável. A
chegada de um medicamento oral que bloqueia essa via de sinalização, com
resultados dessa magnitude, muda completamente o horizonte de tratamento para
esses pacientes.”
Os
resultados do estudo
O
ensaio RASolute 302 acompanhou 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático
que já haviam realizado ao menos uma linha de quimioterapia. Os participantes
que tomaram o medicamento viveram em média 13,2 meses, comparados a 6,6 a 6,7
meses dos pacientes que receberam quimioterapia.
O
daraxonrasib reduziu o risco geral de morte em 60% em comparação com os
pacientes tratados com quimioterapia convencional.
O tratamento também deteve ou reverteu a progressão tumoral em quase um terço dos pacientes, contra apenas 10% no grupo de quimioterapia. A taxa de resposta objetiva — ou seja, a proporção de pacientes cujo tumor encolheu ou desapareceu — foi de 33,2% com daraxonrasib versus 11,8% com quimioterapia.
Donadio,
que acompanhou a apresentação do estudo na plenária do congresso, explica os
resultados do RASolute 302 são inequívocos. “De forma prática, o estudo avaliou
pacientes com câncer de pâncreas que já haviam progredido após a primeira linha
de tratamento paliativo. Esses pacientes foram randomizados para receber
daraxonrasib, um comprimido de 300mg por dia, ou quimioterapia padrão. Aqueles
que receberam a medicação oral dobrou a sobrevida livre de progressão - de 3,5
para 7 meses - e dobrou a sobrevida global - de 6 para 13 meses -, com redução
do risco de morte e de progressão em torno de 60% e taxa de resposta três vezes
maior, subindo de 11% para 33%. Isso o torna o novo padrão de tratamento de
segunda linha para o câncer de pâncreas metastático”.
Além da sobrevida, os pesquisadores avaliaram a qualidade de vida dos participantes. O tempo até a deterioração, medido com base em dor e qualidade de vida relatada pelos próprios pacientes, foi significativamente maior com daraxonrasib do que com quimioterapia.
“Sobreviver
mais tempo é fundamental, mas sobreviver com qualidade de vida é o que
transforma o tratamento de verdade. Ver esses dois desfechos melhorando
simultaneamente é o que torna esse estudo tão relevante clinicamente”, destaca
o oncologista da Oncoclínicas.
Segurança
e efeitos adversos
O principal efeito adverso observado foi o rash cutâneo, presente em 86,3% dos pacientes que usaram o medicamento após o início do tratamento — mas que, segundo os pesquisadores, é em grande parte manejável com antibióticos e corticosteroides tópicos.
Os eventos adversos relacionados ao tratamento que levaram à descontinuação ocorreram em apenas 1,2% dos pacientes no grupo do daraxonrasib, contra 11,2% no grupo de quimioterapia, um indicador importante de tolerabilidade, sobretudo para pacientes já fragilizados por uma doença grave.
“O
perfil de segurança é administrável e, comparado à toxicidade da quimioterapia,
representa um ganho real para o paciente. Descontinuação de apenas 1,2% é um
dado que fala por si”, avalia Donadio.
Reação
da comunidade médica e perspectivas para o Brasil
As
reações ao estudo no congresso foram de entusiasmo, considerado um verdadeiro
“gol” para o tratamento do câncer de pâncreas. Os especialistas que
acompanharam a plenária afirmam que os resultados estabelecem o daraxonrasib
como o novo padrão de cuidado para pacientes com tumor metastático previamente
tratado.
Segundo
Donadio, o próximo passo é acompanhar a trajetória regulatória do medicamento e
sua eventual chegada ao Brasil. A Revolution Medicines já está testando o
daraxonrasib em estágios mais precoces da doença e em combinação com outros
tratamentos, na esperança de ampliar ainda mais o benefício de sobrevida.
Em maio, a FDA concedeu acesso expandido ao medicamento e planeja uma revisão acelerada do processo de aprovação. “O Brasil precisa estar atento a esse desenvolvimento. Nossos pacientes merecem ter acesso às inovações que estão mudando o prognóstico dessa doença. O trabalho agora é acompanhar de perto o processo regulatório e garantir que, quando aprovado, esse medicamento chegue também ao sistema de saúde brasileiro”, conclui Mauro Donadio.
O estudo RASolute 302 foi financiado pela Revolution Medicines. Os resultados foram apresentados neste domingo (31/05) no congresso anual da ASCO e publicados simultaneamente no New England Journal of Medicine.
Oncoclínicas&Co
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