Em média, 40% dos pacientes com Doença de Crohn precisam de cirurgia
Segundo
estimativas, entre 2 e 4 milhões de brasileiros convivem com algum tipo de doença
inflamatória intestinal (DII), como a Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa
— condições crônicas que impactam diretamente a qualidade de vida. Apesar dos
avanços no tratamento, especialistas alertam que o diagnóstico tardio, o
preconceito e até mudanças no estilo de vida da população seguem como grandes
desafios no enfrentamento dessas doenças.
Para o
gastroenterologista Antônio Carlos Moraes, diretor do setor de
Gastroenterologia da Rede D’Or e diretor da Federação Brasileira de
Gastroenterologia (FBG), com mais de 40 anos de experiência no cuidado de
pacientes com DIIs, um dos fatores que ajudam a explicar o aumento dos casos
está relacionado à chamada teoria da hiper-higienização. “Estamos vivendo em um
grau de higienização excessivo. Crianças que nascem de cesariana ou que passam
por um ambiente extremamente higienizado nos primeiros anos de vida podem não
desenvolver uma microbiota intestinal adequada, o que aumenta o risco de doenças
autoimunes”, explica. Segundo ele, enquanto as doenças infectocontagiosas
diminuíram nas últimas décadas, as doenças autoimunes, como as DIIs, vêm
crescendo de forma consistente.
Outro entrave
importante é o tempo para o diagnóstico. Dados da Associação Brasileira de
Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD) apontam que, no Brasil, o tempo
médio até a confirmação da doença é de três anos e meio. “Esse atraso
compromete diretamente o tratamento e a qualidade de vida do paciente”, afirma
Moraes.
Ele relata casos
frequentes em que pacientes apresentam sintomas típicos, como dores abdominais
e diarreia crônica, mas não recebem o diagnóstico adequado mesmo após exames.
“Quanto mais tardio o diagnóstico, maior o impacto na vida da pessoa. Muitos
pacientes deixam de trabalhar, estudar ou sair de casa devido à intensidade dos
sintomas. A diarreia, diferente de outros sintomas, é incapacitante e interfere
profundamente na rotina”, destaca.
O preconceito e
a falta de informação também dificultam a busca por ajuda médica. Segundo
Moraes, ainda existe resistência das pessoas em falar sobre o funcionamento do
próprio corpo. “É comum que as pessoas tenham vergonha até de observar as
próprias fezes. Todos olham a urina, avaliam a cor, mas não fazem o mesmo com
as fezes. A presença de sangue, muco ou alterações na coloração são sinais
importantes e não devem ser ignorados”, alerta. Ele acrescenta que o ideal
seria que os vasos sanitários fossem brancos, justamente para facilitar essa
observação.
A presença de
sangue nas fezes, por exemplo, é um sinal de alerta que exige investigação
imediata. “Muitas pessoas associam automaticamente à hemorroida, mas pode
indicar uma inflamação intestinal ou até câncer de intestino. Qualquer
alteração deve ser avaliada por um médico”, reforça.
Além da
conscientização da população, Moraes destaca a importância de capacitar médicos
da atenção primária para reconhecer sinais precoces da doença. “Os sintomas
podem ser confundidos com outras condições mais comuns, como infecções
intestinais. Por isso, é fundamental que o profissional esteja atento às chamadas
‘red flags’ e encaminhe rapidamente ao especialista”, explica. Segundo ele, na
Rede D’Or há treinamento contínuo das equipes de emergência para identificação
desses sinais.
Em muitos casos,
a demora no diagnóstico pode levar a complicações mais graves, incluindo a
necessidade de cirurgia. Estima-se que entre 30% e 40% dos pacientes com Doença
de Crohn precisem de intervenção cirúrgica em algum momento da vida. Em
situações mais severas, pode ser necessária a retirada total do intestino
grosso, além do uso temporário ou definitivo de bolsa de estomia.
Apesar dos desafios, há avanços importantes no horizonte. Novas terapias, especialmente os medicamentos biológicos, têm proporcionado melhores resultados no controle da doença e na redução de complicações. “Conseguimos diminuir internações, evitar cirurgias e garantir mais qualidade de vida aos pacientes”, afirma Moraes. Ainda assim, ele ressalta que é fundamental avaliar a relação custo-efetividade dessas novas tecnologias para ampliar o acesso de forma sustentável.
Para o especialista, iniciativas de conscientização, como o Maio Roxo — mês dedicado à informação sobre as doenças inflamatórias intestinais — são essenciais para reduzir o preconceito, estimular o diagnóstico precoce e melhorar o cuidado aos pacientes.
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