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segunda-feira, 1 de junho de 2026

Desafios no combate às doenças inflamatórias intestinais incluem diagnóstico tardio, preconceito e mudanças no estilo de vida

Em média, 40% dos pacientes com Doença de Crohn precisam de cirurgia

 

Segundo estimativas, entre 2 e 4 milhões de brasileiros convivem com algum tipo de doença inflamatória intestinal (DII), como a Doença de Crohn e a retocolite ulcerativa — condições crônicas que impactam diretamente a qualidade de vida. Apesar dos avanços no tratamento, especialistas alertam que o diagnóstico tardio, o preconceito e até mudanças no estilo de vida da população seguem como grandes desafios no enfrentamento dessas doenças.

 

Para o gastroenterologista Antônio Carlos Moraes, diretor do setor de Gastroenterologia da Rede D’Or e diretor da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), com mais de 40 anos de experiência no cuidado de pacientes com DIIs, um dos fatores que ajudam a explicar o aumento dos casos está relacionado à chamada teoria da hiper-higienização. “Estamos vivendo em um grau de higienização excessivo. Crianças que nascem de cesariana ou que passam por um ambiente extremamente higienizado nos primeiros anos de vida podem não desenvolver uma microbiota intestinal adequada, o que aumenta o risco de doenças autoimunes”, explica. Segundo ele, enquanto as doenças infectocontagiosas diminuíram nas últimas décadas, as doenças autoimunes, como as DIIs, vêm crescendo de forma consistente.

 

Outro entrave importante é o tempo para o diagnóstico. Dados da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn (ABCD) apontam que, no Brasil, o tempo médio até a confirmação da doença é de três anos e meio. “Esse atraso compromete diretamente o tratamento e a qualidade de vida do paciente”, afirma Moraes.

 

Ele relata casos frequentes em que pacientes apresentam sintomas típicos, como dores abdominais e diarreia crônica, mas não recebem o diagnóstico adequado mesmo após exames. “Quanto mais tardio o diagnóstico, maior o impacto na vida da pessoa. Muitos pacientes deixam de trabalhar, estudar ou sair de casa devido à intensidade dos sintomas. A diarreia, diferente de outros sintomas, é incapacitante e interfere profundamente na rotina”, destaca.

 

O preconceito e a falta de informação também dificultam a busca por ajuda médica. Segundo Moraes, ainda existe resistência das pessoas em falar sobre o funcionamento do próprio corpo. “É comum que as pessoas tenham vergonha até de observar as próprias fezes. Todos olham a urina, avaliam a cor, mas não fazem o mesmo com as fezes. A presença de sangue, muco ou alterações na coloração são sinais importantes e não devem ser ignorados”, alerta. Ele acrescenta que o ideal seria que os vasos sanitários fossem brancos, justamente para facilitar essa observação.

 

A presença de sangue nas fezes, por exemplo, é um sinal de alerta que exige investigação imediata. “Muitas pessoas associam automaticamente à hemorroida, mas pode indicar uma inflamação intestinal ou até câncer de intestino. Qualquer alteração deve ser avaliada por um médico”, reforça.

 

Além da conscientização da população, Moraes destaca a importância de capacitar médicos da atenção primária para reconhecer sinais precoces da doença. “Os sintomas podem ser confundidos com outras condições mais comuns, como infecções intestinais. Por isso, é fundamental que o profissional esteja atento às chamadas ‘red flags’ e encaminhe rapidamente ao especialista”, explica. Segundo ele, na Rede D’Or há treinamento contínuo das equipes de emergência para identificação desses sinais.

 

Em muitos casos, a demora no diagnóstico pode levar a complicações mais graves, incluindo a necessidade de cirurgia. Estima-se que entre 30% e 40% dos pacientes com Doença de Crohn precisem de intervenção cirúrgica em algum momento da vida. Em situações mais severas, pode ser necessária a retirada total do intestino grosso, além do uso temporário ou definitivo de bolsa de estomia.

 

Apesar dos desafios, há avanços importantes no horizonte. Novas terapias, especialmente os medicamentos biológicos, têm proporcionado melhores resultados no controle da doença e na redução de complicações. “Conseguimos diminuir internações, evitar cirurgias e garantir mais qualidade de vida aos pacientes”, afirma Moraes. Ainda assim, ele ressalta que é fundamental avaliar a relação custo-efetividade dessas novas tecnologias para ampliar o acesso de forma sustentável. 


Para o especialista, iniciativas de conscientização, como o Maio Roxo — mês dedicado à informação sobre as doenças inflamatórias intestinais — são essenciais para reduzir o preconceito, estimular o diagnóstico precoce e melhorar o cuidado aos pacientes.

 

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