Com recorde de brasileiros endividados, especialistas apontam que
apostas esportivas online já pressionam o orçamento doméstico mais do que fatores
tradicionais, como juros e crédito fácil
Com
a aproximação da Copa do Mundo de 2026, as estatísticas financeiras no país vem
chamando atenção para um novo fenômeno: o avanço das apostas esportivas online
já aparece entre os principais fatores de pressão sobre o orçamento das
famílias brasileiras.
Um
estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo
(IBEVAR), em parceria com a FIA Business School, aponta que as chamadas “bets”
já superaram fatores tradicionais, como juros altos e expansão do crédito, como
vetor de endividamento das famílias. O levantamento mostra uma mudança no
comportamento financeiro dos consumidores, com recursos que antes eram destinados
ao consumo, à poupança ou ao pagamento de despesas básicas migrando para
plataformas de apostas.
Com
a proximidade da Copa do Mundo, período historicamente associado ao aumento do
volume de apostas esportivas, o cenário tende a se agravar. A expectativa é de
que a combinação entre maior exposição publicitária, engajamento emocional com
o futebol e facilidade de acesso às plataformas digitais intensifique o impacto
das bets sobre o orçamento doméstico.
Os
reflexos desse movimento já aparecem em diferentes levantamentos sobre
inadimplência e comportamento financeiro. Uma pesquisa recente do PoderData
mostrou que 35% dos brasileiros que apostam online afirmam já ter se endividado
em função das apostas. Cerca de um ano antes, esse percentual era de 16%,
indicando que o problema mais do que dobrou no período analisado.
Segundo
o estudo, o impacto é mais frequente entre homens, pessoas de menor renda e
grupos em situação de maior vulnerabilidade financeira, reforçando a relação
entre apostas recorrentes e fragilidade econômica. Ao mesmo tempo, o
endividamento das famílias brasileiras segue em patamares recordes. Dados da
Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação
Nacional do Comércio (CNC), mostram que, em abril de 2026, 80,9% das famílias
brasileiras declararam possuir algum tipo de dívida, o maior índice da série
histórica.
A
pesquisa também aponta forte dependência do crédito no orçamento doméstico. O
cartão de crédito segue como principal modalidade de endividamento, presente na
maior parte dos casos, enquanto uma parcela significativa da renda familiar
permanece comprometida com pagamento de dívidas.
Para
Marco Afonso, especialista de negócios da Simplic, fintech de crédito pessoal
100% online, “o crescimento das apostas esportivas amplia um comportamento de
risco já observado em cenários de pressão financeira: a tentativa de recuperar
perdas por meio de novas apostas. Esse ato pode acelerar o comprometimento do
orçamento e criar um ciclo difícil de interromper”, alerta.
Afonso
complementa: “As apostas acabam mexendo com um componente emocional muito
forte, principalmente em grandes eventos como a Copa do Mundo. Muitas pessoas
começam apostando valores baixos, mas entram em uma lógica de tentar recuperar
perdas rapidamente. Quando isso passa a acontecer com frequência, o impacto
financeiro tende a ser cumulativo, comprometendo as despesas essenciais da
família”.
Desenrola Brasil: programas
de renegociação de dívidas
Diante
desse cenário, programas de renegociação ganham protagonismo como alternativa
de reorganização financeira. Entre eles está o novo Desenrola Brasil,
iniciativa voltada à renegociação de dívidas com descontos que podem chegar a
90%, além da possibilidade de utilização do FGTS em determinadas condições.
No
entanto, o programa também estabelece uma restrição importante: consumidores
que aderirem à renegociação ficam impedidos de realizar apostas online por 12
meses. A medida busca evitar que o ciclo de endividamento continue durante o
período de recuperação financeira.
Para
Marco Afonso, a combinação entre reorganização das dívidas e mudança de
comportamento financeiro é essencial para evitar o agravamento do problema.
“Renegociar
dívidas é importante, mas recuperar o controle financeiro exige também rever hábitos
de consumo e estabelecer limites claros para o uso do dinheiro. Em períodos de
grande apelo emocional, como a Copa, planejamento e educação financeira fazem
diferença para que o entretenimento não se transforme em um problema de longo
prazo”, conclui.
Simplic
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