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quinta-feira, 28 de maio de 2026

Ter tecnologia aprovada não significa que o paciente terá acesso

 

O Brasil nunca teve tantos beneficiários de planos de saúde. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), 2025 terminou com 53,2 milhões de pessoas vinculadas à saúde suplementar, impulsionadas principalmente pelo crescimento do emprego formal e pela expansão de planos voltados às pequenas e médias empresas.

 

O número mostra a força do setor, mas também revela uma contradição importante que ainda discutimos pouco: crescer em número de usuários não significa, necessariamente, ampliar o acesso real à medicina mais moderna.

 

Existe uma distância enorme entre o momento em que uma tecnologia médica é aprovada e o momento em que ela realmente chega ao paciente. E esse talvez seja hoje um dos gargalos mais silenciosos da saúde brasileira.

 

Nos últimos anos, a medicina evoluiu de forma impressionante. Cirurgias menos invasivas, dispositivos inteligentes, terapias regenerativas, inteligência artificial ajudando diagnósticos e tratamentos cada vez mais personalizados. O problema é que a aprovação regulatória não garante que tudo isso esteja disponível na prática.

 

Entre o aval dos órgãos reguladores e o uso dentro de hospitais e operadoras existe um caminho longo, burocrático e, muitas vezes, pouco transparente para quem está fora do setor.

 

Aprovação não significa acesso


Quando uma nova tecnologia é aprovada, ela ainda precisa passar por diversas etapas até chegar ao paciente. Os hospitais têm protocolos próprios. Operadoras criam critérios de cobertura. Áreas financeiras analisam custos. Equipes precisam ser treinadas. Processos internos precisam ser adaptados.

 

Na prática, muitas vezes o médico conhece a melhor solução para aquele caso, mas sabe que a dificuldade operacional para a utilizar será tão grande que acaba seguindo por outro caminho. E existe um ponto importante nessa discussão: a saúde vive hoje uma pressão financeira enorme.

 

As operadoras tentam reduzir custos. Os hospitais buscam equilibrar suas contas. E o médico, que sempre foi o principal balizador técnico da decisão clínica, vem perdendo espaço dentro de um sistema cada vez mais corporativo.

 

O problema é que a saúde não pode ser analisada apenas pela lógica do custo imediato.

 

Uma tecnologia pode parecer mais cara no começo, mas reduz tempo de internação, evita complicações e diminui gastos futuros do próprio sistema. Só que esse olhar de longo prazo raramente aparece nas decisões do dia a dia. E quem sente isso primeiro é o paciente.

 

O paciente tem plano, mas não consegue acessar


Existe hoje uma espécie de “zona cinzenta” na saúde suplementar brasileira. O paciente acredita que, porque tem plano de saúde, terá acesso às melhores soluções disponíveis. Mas nem sempre funciona assim.

 

Muitas vezes, a tecnologia já foi aprovada no Brasil, mas ainda não foi incorporada pelo hospital. Em outros casos, esbarra em limitações de cobertura, burocracias ou processos internos extremamente lentos. Isso cria uma situação contraditória: o paciente tem cobertura no papel, mas enfrenta dificuldades para acessar o que precisa na prática.

 

Esse movimento aparece também em outra mudança importante do setor: muitos médicos começaram a sair das redes credenciadas porque a remuneração paga pelos planos deixou de ser sustentável para manter uma medicina de qualidade. O resultado foi o crescimento do atendimento particular via reembolso e das clínicas especializadas, que conseguem oferecer agendas mais rápidas e atendimento mais acessível.

 

Na prática, cresce o número de pessoas que pagam plano de saúde, mas acabam tirando dinheiro do próprio bolso para conseguir atendimento com mais agilidade.

 

Por isso, reduzir esse debate apenas à coparticipação simplifica um problema muito mais profundo. O desafio da saúde suplementar hoje envolve sustentabilidade financeira, qualidade assistencial e acesso real ao paciente.

 

E, no fim, a conta quase sempre chega primeiro para quem está mais vulnerável.

 

Inovação só faz sentido quando chega às pessoas


A saúde é um dos setores mais complexos que existem. Mas existe uma tendência perigosa de transformar toda discussão apenas em controle de custos. Quando a planilha começa a pesar mais do que o cuidado, o sistema perde o equilíbrio.

 

Estamos envelhecendo e vamos precisar cada vez mais da medicina. Não apenas de uma carteirinha de plano no bolso, mas de acesso real a tratamentos, diagnósticos e tecnologias que já existem.

 

O Brasil avançou muito em capacidade médica, regulação e inovação. Temos profissionais extremamente qualificados e acesso a tecnologias comparáveis às dos maiores mercados do mundo. Mas ainda falta integração entre hospitais, operadoras, indústria, médicos e pacientes.

 

A informação também não circula como deveria. Muitas vezes, o paciente nem sabe que determinada solução existe. Em outros casos, o médico conhece a tecnologia, mas desiste diante da burocracia necessária para utilizá-la.

 

Discutir eficiência é importante. Mas precisamos falar da eficiência que melhora o acesso, reduz desperdício e preserva qualidade assistencial.

 

Porque inovação em saúde não pode ser medida apenas pelo número de tecnologias aprovadas. Ela precisa ser medida pelo número de pessoas que realmente conseguem acessá-las.

  

Andrea Mendes - CEO do Grupo Hemocat e idealizadora da Cath Care, com atuação voltada à inovação e ao acesso a tecnologias médicas no Brasil.



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