Com sistemas mais autônomos e integrados à rotina clínica, especialistas apontam que a inteligência artificial pode contribuir para maior precisão e segurança no atendimento — desde que sob comando do médico
Reduzir erros médicos é um dos maiores desafios dos
sistemas de saúde em todo o mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, falhas
evitáveis durante o atendimento estão entre as principais causas de danos a
pacientes globalmente, muitas vezes relacionadas a falhas de comunicação,
registros incompletos ou sobrecarga de trabalho dos profissionais.
Nesse cenário, a inteligência artificial começa a assumir um papel
relevante, não como substituta da decisão clínica, mas como ferramenta de apoio
à organização de informações e redução de falhas operacionais. O avanço mais
recente desse movimento é o que especialistas vêm chamando de “era agêntica” na
medicina, marcada pela transição de sistemas que apenas auxiliam o médico para
soluções mais autônomas na execução de tarefas administrativas.
Relatório da McKinsey & Company aponta que até 30% das
atividades administrativas na saúde podem ser automatizadas, incluindo tarefas
como documentação clínica, organização de dados e geração de relatórios. Já
estudos publicados pela revista científica Annals of Internal Medicine indicam
que médicos podem gastar quase duas horas com tarefas administrativas para cada
hora de atendimento direto ao paciente, o que aumenta o risco de erros por
fadiga e sobrecarga.
É nesse contexto que surge uma nova geração de ferramentas,
conhecidas como agentes “autopilot”, capazes de executar tarefas completas a
partir de comandos simples do profissional de saúde. Diferente dos modelos
anteriores, muitas vezes comparados a “copilotos”, que exigem múltiplas
interações e validações, esses sistemas atuam de forma mais fluida,
acompanhando a dinâmica da consulta.
A Mediccos desenvolveu um desses agentes, chamado Oscar, projetado
para atuar como um assistente médico digital. A ferramenta permite que o
profissional conduza a consulta normalmente, enquanto a inteligência artificial
organiza as informações em tempo real e gera documentos como prontuários e
prescrições estruturadas em formato digital.
Segundo o Dr. João Ladeia, médico e porta-voz da empresa, a
proposta não é automatizar o raciocínio clínico, mas reduzir falhas
relacionadas ao registro das informações. “O diagnóstico, a escolha do
tratamento e todas as decisões clínicas continuam sendo do médico. O que a
tecnologia faz é garantir que essas informações sejam registradas de forma
completa, organizada e sem retrabalho, o que ajuda a reduzir erros
operacionais”, afirma.
De acordo com ele, a sobrecarga administrativa é um dos principais
fatores que contribuem para inconsistências nos registros. “Quando o
profissional precisa dividir a atenção entre o paciente e o computador, aumenta
a chance de omissões ou erros de digitação. Ao automatizar essa etapa,
conseguimos tornar o processo mais seguro e padronizado”, explica.
Além da organização dos dados, a padronização dos documentos
também é apontada como um fator relevante para a segurança do paciente.
Registros mais claros e completos facilitam o acompanhamento clínico, a
continuidade do cuidado e a comunicação entre diferentes profissionais de
saúde.
A digitalização da medicina, no entanto, traz novos desafios. A
Autoridade Nacional de Proteção de Dados reforça que informações de saúde são
consideradas dados sensíveis pela legislação brasileira e exigem alto nível de
proteção. Por isso, especialistas destacam que o uso de inteligência artificial
precisa estar alinhado a boas práticas de segurança, governança de dados e
conformidade regulatória.
Para os próximos anos, a expectativa é que a adoção de sistemas
mais autônomos se intensifique, especialmente em tarefas administrativas e
operacionais. Relatório da Gartner indica que o uso de inteligência artificial
na saúde deve continuar crescendo, com foco em eficiência, redução de custos e
melhoria da qualidade do atendimento.
Nesse cenário, a chamada “era agêntica” tende a redefinir o papel
da tecnologia na medicina. Mais do que ferramentas de apoio pontual, os sistemas
passam a atuar como extensões da prática clínica, sempre sob supervisão humana.
“A tecnologia não substitui o médico, mas pode reduzir riscos
quando bem aplicada. Quanto mais organizado e estruturado for o registro da
informação, maior a segurança para o paciente e para o profissional”, conclui o
Dr. João Ladeia.

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