Pesquisar no Blog

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Quando o filho comete um crime: proteger ou educar?

Caso com o cão Orelha acende debate sobre atuação dos pais diante de ilicitudes de filhos

 

O recente caso do cão Orelha, morto brutalmente em Santa Catarina por um adolescente de 15 anos, causou comoção nacional e até internacional e acendeu um importante debate na educação dos filhos. Diante de um ato ilícito por eles cometido, muitos pais se veem tomados pela pergunta devastadora: devo protegê-lo a qualquer custo ou permitir que enfrente as consequências? 

“Essa escolha, embora compreensível do ponto de vista emocional, não é neutra. Ela pode determinar se o jovem continuará preso a um padrão de violência e negação ou se terá alguma chance real de reconstrução moral”, destaca a psicanalista e hipnoterapeuta Yafit Laniado, criadora da Relacionamentoria, consultoria especializada no relacionamento entre pais e filhos. 

Para além do caso ocorrido em Florianópolis, outro, nos Estados Unidos, ajuda a refletir sobre esse dilema. O jovem assassino do ativista Charlie Kirk foi entregue às autoridades pelo próprio pai, que o reconheceu nas imagens divulgadas pela imprensa, provocando reações diversas em todo o mundo. Os episódios revelam posturas opostas, e seus efeitos vão além do âmbito privado. 

“A teoria da psicologia individual, do austríaco Alfred Adler, afirma que o comportamento humano não nasce pronto: ele é moldado pela forma como aprendemos a lidar com nossas falhas, frustrações e responsabilidades. Para Adler, a saúde emocional depende do chamado interesse social, a capacidade de reconhecer o outro e sentir-se parte da comunidade. Assim, quando os pais ensinam, direta ou indiretamente, que o erro pode ser negado ou encoberto, ajudam a formar um estilo de vida marcado pela fuga da responsabilidade e pela insensibilidade social”, explica Yafit. 

No caso catarinense, além da brutalidade contra o animal, causou indignação a postura de alguns familiares, que teriam tentado minimizar os fatos e até interferir na investigação. Para Yafit, “essa atitude envia ao adolescente uma mensagem clara: não importa o que você fez, vamos protegê-lo das consequências. Segundo Adler, esse tipo de conduta reforça comportamentos antissociais, pois retira do jovem a oportunidade de aprender com o erro e de desenvolver empatia”. 

No caso americano, a reação foi oposta. O pai encarou de frente o crime cometido pelo filho, cooperou para que ele fosse entregue às autoridades e assumisse as consequências de seus atos sem, contudo, abandonar o filho à própria sorte. 

“Essa escolha, por sua vez, não absolve o filho do crime cometido, mas demonstra uma compreensão essencial: assumir a verdade é o primeiro passo para qualquer possibilidade de reparação. Ao não negar os fatos, o pai sinalizou que responsabilidade e humanidade caminham juntas”, ressalta Yafit. 

Diante de um filho que comete um crime, a especialista afirma que a função dos pais não é blindá-lo das consequências, mas ajudá-lo a enfrentar a realidade com dignidade. 

“Isso implica reconhecer os fatos, colaborar com a justiça, buscar apoio psicológico e trabalhar a empatia e o senso de responsabilidade. Afinal, proteger do erro não é amor. Amor é preparar o filho para responder por seus atos e, se possível, reconstruir-se como parte da sociedade”, define Yafit. 

Os casos de Orelha e de Charlie Kirk mostram que, mesmo em contextos trágicos, há escolhas. Assim, negar, esconder e atacar a verdade pode parecer proteção, mas apenas aprofunda o problema. 

“Assumir, enfrentar e educar é mais difícil, porém, é a única via que ainda permite transformação. Porque, no fim, não é o erro que define um ser humano, mas a forma como ele aprende a responder por ele”, conclui a especialista.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados