Caso com o cão Orelha acende debate sobre atuação dos pais diante de ilicitudes de filhos
O recente caso do
cão Orelha, morto brutalmente em Santa Catarina por um adolescente de 15 anos,
causou comoção nacional e até internacional e acendeu um importante debate na
educação dos filhos. Diante de um ato ilícito por eles cometido, muitos pais se
veem tomados pela pergunta devastadora: devo protegê-lo a qualquer custo ou
permitir que enfrente as consequências?
“Essa escolha,
embora compreensível do ponto de vista emocional, não é neutra. Ela pode
determinar se o jovem continuará preso a um padrão de violência e negação ou se
terá alguma chance real de reconstrução moral”, destaca a psicanalista e hipnoterapeuta Yafit Laniado, criadora da
Relacionamentoria, consultoria especializada no relacionamento entre pais e
filhos.
Para além do caso
ocorrido em Florianópolis, outro, nos Estados Unidos, ajuda a refletir sobre
esse dilema. O jovem assassino do ativista Charlie Kirk foi entregue às
autoridades pelo próprio pai, que o reconheceu nas imagens divulgadas pela
imprensa, provocando reações diversas em todo o mundo. Os episódios revelam posturas
opostas, e seus efeitos vão além do âmbito privado.
“A teoria da
psicologia individual, do austríaco Alfred Adler, afirma que o comportamento
humano não nasce pronto: ele é moldado pela forma como aprendemos a lidar com
nossas falhas, frustrações e responsabilidades. Para Adler, a saúde emocional
depende do chamado interesse social, a capacidade de reconhecer o outro e
sentir-se parte da comunidade. Assim, quando os pais ensinam, direta ou indiretamente,
que o erro pode ser negado ou encoberto, ajudam a formar um estilo de vida
marcado pela fuga da responsabilidade e pela insensibilidade social”, explica
Yafit.
No caso
catarinense, além da brutalidade contra o animal, causou indignação a postura
de alguns familiares, que teriam tentado minimizar os fatos e até interferir na
investigação. Para Yafit, “essa atitude envia ao adolescente uma mensagem
clara: não importa o que você fez, vamos protegê-lo das consequências. Segundo
Adler, esse tipo de conduta reforça comportamentos antissociais, pois retira do
jovem a oportunidade de aprender com o erro e de desenvolver empatia”.
No caso americano,
a reação foi oposta. O pai encarou de frente o crime cometido pelo filho,
cooperou para que ele fosse entregue às autoridades e assumisse as
consequências de seus atos sem, contudo, abandonar o filho à própria sorte.
“Essa escolha, por
sua vez, não absolve o filho do crime cometido, mas demonstra uma compreensão
essencial: assumir a verdade é o primeiro passo para qualquer possibilidade de
reparação. Ao não negar os fatos, o pai sinalizou que responsabilidade e
humanidade caminham juntas”, ressalta Yafit.
Diante de um filho
que comete um crime, a especialista afirma que a função dos pais não é
blindá-lo das consequências, mas ajudá-lo a enfrentar a realidade com
dignidade.
“Isso implica
reconhecer os fatos, colaborar com a justiça, buscar apoio psicológico e
trabalhar a empatia e o senso de responsabilidade. Afinal, proteger do erro não
é amor. Amor é preparar o filho para responder por seus atos e, se possível,
reconstruir-se como parte da sociedade”, define Yafit.
Os casos de Orelha
e de Charlie Kirk mostram que, mesmo em contextos trágicos, há escolhas. Assim,
negar, esconder e atacar a verdade pode parecer proteção, mas apenas aprofunda
o problema.
“Assumir,
enfrentar e educar é mais difícil, porém, é a única via que ainda permite
transformação. Porque, no fim, não é o erro que define um ser humano, mas a
forma como ele aprende a responder por ele”, conclui a especialista.

Nenhum comentário:
Postar um comentário