A origem da palavra “advogado” é reveladora, pois vem do latim advocare, que significa “dar voz a outrem” ou “emprestar a voz”. Ser advogado é colocar a própria voz a serviço do outro, a serviço do Direito que se vai defender. É dizer o que o semelhante, por qualquer razão, teria dificuldade em falar. É sustentar com todas as forças e com sua energia vocal, com firmeza e serenidade, e com muita humanidade, aquilo que o cliente precisa que seja dito, para sustentar o seu Direito.
Para
o advogado, a oratória não é meramente um meio de comunicação ou simplesmente
um adorno retórico, é muito mais, é uma ferramenta de trabalho que em alguns
casos se torna pura magia. Não se trata de dizer, mas de como dizer, o que
dizer, em que tom dizer e quando dizer. É
simbolicamente uma ponte entre a razão e a Justiça. É por meio da
palavra bem empregada, bem sopesada, usada criteriosamente, que se transforma o
conhecimento jurídico em ação concreta. Dessa forma, se espera que o advogado
fale, e fale bem, especialmente com precisão, observando e empregando
adequadamente cada termo, cada expressão em sua exata extensão jurídica.
Por
óbvio não se exige que todos os advogados sejam verdadeiros tribunos, que
possuam o brilho do discurso que encanta, mas é imprescindível que o advogado
desenvolva condições mínimas para sustentar as suas ideias e as suas razões na
causa que patrocina. Especialmente os jovens colegas, neste mundo tão dinâmico,
precisam desenvolver a sua fala profissional, transformando o seu dizer em
oratória convincente.
Digo
de pronto, que ao contrário do que se costuma imaginar, oratória não é um dom,
muito menos talento inato reservado a poucos privilegiados. Não se nasce
orador, o orador se faz, quase como se faz um atleta. Ele se constrói dia após
dia durante sua vida. É resultado de esforço, observação atenta, disciplina e
muita, mas muita prática.
Costumo
afirmar que 5% da boa oratória vem da inspiração e os outros 95% da
transpiração, vale dizer, 95% é treino, muito treino. Isso quer dizer que
qualquer um, desde que se proponha a ser um orador, poderá alcançar esse
objetivo, chegando até a conquistar a excelência na arte de comunicar-se,
persuadir e convencer.
Mas
não existe atalho, corte de caminho ou redução de esforços que possam produzir,
milagrosamente, um orador. Assim, para começar, o primeiro passo é a leitura.
Quem lê com regularidade, com frequência, expande naturalmente o vocabulário,
adquire domínio sobre a linguagem, organiza melhor os próprios pensamentos e
passa a se expressar com mais precisão. Mas o treinamento não é somente a
leitura, ela é apenas o começo. É preciso ouvir os grandes oradores, tribunos,
mestres da palavra, estudar suas formas de falar, de como articulam suas
estratégias de comunicação, analisar seus silêncios – que dizem muito –, seus
gestos e trejeitos, suas pausas, seus ritmos e suas formas de respirar.
Para
o senso comum, quem advoga precisa falar, e precisa falar bem. Isso é uma
verdade da consciência coletiva e essa busca por falar bem é um trabalho para
toda a vida. O advogado precisa fazer da sua fala uma arma legítima de defesa,
uma expressão firme do Direito que defende.
Nesse
contexto bastante complexo, há ainda um aspecto fundamental, muitas vezes
negligenciado por quem se esforça para falar, que é a voz humana. Obviamente
não seu volume simplesmente, mas sua empostação vocal. É a maneira como se emite
o som de cada palavra, o tom usado, o ritmo, a força, o timbre, pois tudo isso
comunica, até mesmo antes do próprio conteúdo. Uma fala empostada e alinhada
com a emoção certa, gera o interesse necessário para dar lugar ao impacto
buscado e o consequente convencimento.
Um
bom curso de oratória ajuda muito, especialmente para quem está começando,
aprender as técnicas, dominando-as, possibilita que o treino seja eficaz. Não
descarte também um bom curso de teatro, pois o domínio dos gestos e do espaço
do palco, completa a tarefa do orador.
Outro
aspecto que repito sempre, é que o orador precisa acreditar no que diz,
especialmente o advogado que precisa convencer. De nada adianta ser ouvido tão
somente, de modo a ser escutado, pois o foco é ser acreditado. Jamais se
convencerá alguém de algo que não se acredita sinceramente, verdadeiramente.
Há
quem, não entendendo o papel singular do advogado, acredite que este
profissional se presta a defender tudo o que lhe é apresentado,
indistintamente. Isso não satisfaz, não faz sentido, isso não arrebata, não
emociona e, por óbvio, gera desconfiança e não convence. O advogado precisa ter
credibilidade. Meu saudoso pai, Dr. Umberto Luiz D’Urso, que é meu exemplo de
advogado, me ensinou que o advogado precisa construir uma reputação e isso é
trabalho diário e de toda a vida.
O
advogado não fala para enfeitar frases ou causar boa impressão nos ouvintes.
Fala para convencer alguém de uma ideia. Fala para defender o Direito que lhe é
colocado nas mãos. Fala para ser a voz de quem não a tem, ou de alguém que fora
calado. A palavra que precisa ser bem usada, em nossa profissão, não é mero
instrumento, é missão, é liberdade, é vital.
No
tribunal do júri por exemplo, diante de sete jurados que decidirão o destino
daquele que está sendo julgado, ou em uma audiência, ou na sustentação oral, ou
mesmo na reunião com o cliente, é preciso que a fala articule não apenas
palavras bem alinhadas, mas traduza a ideia, o pensamento, o Direito posto, e
além disso, importantíssimo, a dignidade humana que está por trás de cada causa
judicial, de cada processo.
Por
tudo isso, e muito mais, a oratória não é cerimônia preestabelecida, não é
privilégio inato e tampouco algo fora do alcance de todos. A oratória é
possível para todos, como eu já disse, é ferramenta diária, instrumento de
trabalho, especialmente para o advogado. É ela que permite ao profissional do
Direito impactar, transformar, esclarecer, articular, defender, encantar e,
sobretudo, convencer. A oratória é um divisor de águas na Justiça, é a força do
discurso que separa a injustiça da justiça, a palavra tem o poder de afastar o
esquecimento e produzir o reparo, de sufocar o silêncio e gritar por esperança.
É
na palavra dita, bem empregada, bem articulada, bem sentida, que mora a
grandeza da verdadeira advocacia. E se tudo começa na voz, que ela seja
instrumento da verdade. Que a palavra do orador seja como o fogo de Prometeu,
não para consumir, mas para iluminar. Que o verbo proferido pelo advogado, não
ecoe apenas nos ouvidos, mas ressoe no íntimo das consciências, reacendendo a
esperança e despertando a Justiça.
Prof. Dr. Luiz Flávio Borges D’Urso - Advogado Criminalista, Mestre e Doutor em Direito Penal pela USP, Pós-Doutor pela Faculdade de Direito de Castilla-LaMancha (Espanha), Presidente da OAB/SP por três gestões (2004/2012), Presidente de Honra da Associação Brasileira dos Advogados Criminalistas (ABRACRIM), Presidente da Academia Brasileira de Direito Criminal (ABDCRIM) e Conselheiro da Associação Comercial de SP (ACSP) e da Federação das Indústrias de SP (FIESP).
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