Renata Torres e Kaká Rodrigues,
especialistas em inclusão e diversidade, falam sobre as políticas públicas
existentes e a ação das organizações para a redução das estatísticas alarmantes
da violência de gênero
Alguns começam com insultos, outros se tornam agressivos quando
bebem, a maioria faz com que a mulher se sinta inferior. Os relatos de vítimas
de agressão doméstica trazem diferentes histórias, mas um mesmo drama: a
intolerância de gênero. De janeiro de 2020 a maio de 2022, foram registradas
mais de 570 mil medidas protetivas de urgência para mulheres e meninas em
situação de violência doméstica, segundo o estudo divulgado pelo Conselho
Nacional de Justiça, o que equivale a, aproximadamente, uma medida a cada dois
minutos.
E se este ciclo de violência não é interrompido a tempo, aumenta
outra estatística que já assombra o Brasil há anos. O país registrou um pico de
feminicídios em 2022, com 1410 mortes de mulheres em razão do gênero, segundo
dados do Monitor da Violência, sendo o maior número de casos registrados desde
a criação da Lei do Feminicídio em 2015. Só no primeiro semestre de 2023, já
tivemos 722 mulheres assassinadas (um aumento de 2,6% em relação ao mesmo
período do ano anterior), segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher,
celebrado em 25 de novembro, evidencia ao mundo a luta feminina diária em busca
do direito básico de viver.
Kaká Rodrigues, co-founder da consultoria Div.A Diversidade
Agora! e especialista em diversidade e inclusão, sinaliza a necessidade de
novas medidas e políticas públicas efetivas de prevenção à violência de gênero.
“Tivemos avanços na legislação que auxiliaram na proteção das mulheres, como a
Lei Maria da Penha, que ajudou a coibir a violência doméstica; a Lei do Minuto
Seguinte, que ampara vítimas de violência sexual; a Lei Joana Maranhão, que
alterou os prazos de prescrição de crimes de abusos sexuais; e a Lei do
Feminicídio, que o qualifica como uma circunstância de crime de homicídio.
Porém, esses avanços não impediram que tivéssemos um pico de mortes no ano
passado, o que confirma que é uma luta constante e um problema que diz respeito
a toda a sociedade”, explica a especialista.
A conscientização da população sobre os efeitos da intolerância de
gênero pode ser trabalhada em diversas camadas da sociedade, inclusive e,
principalmente, no âmbito profissional que ocupa a maior parte do dia a dia da
população brasileira.
Para Renata Torres, também co-founder da consultoria Div.A
Diversidade Agora! e especialista em diversidade e inclusão, as organizações
devem assumir uma postura ativa diante do tema. “As pessoas colaboradoras
compõem a essência das empresas. Por isso, é necessário que as lideranças
promovam um ambiente com segurança psicológica, para que as mulheres se sintam
seguras e tenham as suas necessidades de dignidade atendidas. E, caso estejam
passando por uma situação de violência, se sintam seguras para falar sobre
isso, seja com a sua liderança ou por algum canal de denúncia”, explica Renata.
De acordo com a especialista, há uma bagagem cultural que cada
pessoa traz de sua vida externa ao ambiente de trabalho, “o que é saudável”,
diz. Porém, ressalta Renata, trabalhar de que forma essas diferenças podem
contribuir e somar para um ambiente coletivo mais harmonioso faz toda a
diferença. “É importante que todas as pessoas colaboradoras reflitam sobre o
tema, para, inclusive, terem a sensibilidade de perceber que algo pode estar
acontecendo com uma colega de trabalho”, acrescenta Renata.
Kaká Rodrigues reforça a importância da diversidade nesse
contexto: “equipes mais diversas e inclusivas, que estiverem em um ambiente de
trabalho saudável, consequentemente colaboram para conscientizar mais pessoas
impactando na diminuição das tristes estatísticas da violência contra a
mulher”, conclui.
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