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domingo, 26 de novembro de 2023

Amor, tentativa frustrada de definição

 

Esforços de significação. Para o que este texto interroga, enuncia o Aurélio:
“sentimento terno ou ardente de uma pessoa por outra, e que engloba também
atração física”. Conforme o Houaiss: “atração baseada no desejo sexual”. Esta
definição alicerça o amor no desejo sexual. Aquela põe o sexo como um
agregado, ainda que necessário.

Essas definições não bastam. Amor é mais. É uma química, e acontece no
plural, entre pelo menos duas pessoas. Vontade unilateral não é amor. É estéril
insistência, resulta em infelicitação. Sem correspondência, o anseio amoroso
converte-se em rancor, em mágoa que não sara, em fixação doentia no objeto
que se nega ao sujeito desejante.

Ainda menos verdadeiro – embora na “moda” – é o amor autodeclarado. Que
se invente outra denominação para essa jurada apreciação que corações
desertos afirmam dedicar-se. Onanistas, jurar amor a si e declarar-se em
satisfação é só outro nome para a solidão glamourizada como solitude. Não
perduraria, nem se nomeará amor se não houver reciprocidade amorosa.

Mas o desejo recíproco é bastante? Não o é. Há que existir, além do desejo
afetuoso do outro, uma espagiria que provoque ardências, sustente o tesão. O
amor que persiste nunca dá por saciado o desejo, mesmo quando todos os
desejos se saciarem. O amor válido é o sempre atiçado: amor ávido que
persiste vontade, ainda que a vontade esteja de corpo cansado.

Amor também é conflito, dado que é relação de poder. Posto o amor, nasce a
angústia de alcançar controle. O\a amante quer o\a amado\a submetido\a às
suas exclusivas pretensões. Para mais e melhor fiscalizar, marca presença
acachapante. O amor fica grudento. A relação é posta “na base do só vou se
você for” (Vinícius); se você for, eu vou também.

A coisa se consome na presença cobrada e na distância monitorada. Posse e
dominação. O cotidiano, assim banalizado, cansa. O amor se põe ofensivo,
mas o ser desejado, já só objetificado, perdido de paixão – o amor em seu
estado quente, exaltado –, ilude-se: confunde domínio como afeição. No propor
um ser todo meu está a violência da marcação cerrada.

Acreditar que há eficácia no controle, apostar no grosseiro “manter em rédea
curta” é um equívoco da ânsia controladora. Ora, é difícil controlar
comportamento e impossível controlar vontade. O “investimento” tem de ser em
si, no sentido de se fazer desejado\a. Se me faço o desejo do outro\a, o\a
outro\a gravitará espontaneamente ao meu redor.

E os amantes, quanta mentira dão-se a dizer: vantagens contadas; juras
vazias, amarrações a malograr. No mais das vezes, é isso mesmo: palavras
sem lastro, compromissos a não cumprir. “Amar é dar o que não se tem ”(Lacan). Promete-se o que não se pode entregar, inclusive o “amor para toda a
vida”, não obstante “só ser eterno enquanto dure” (Vinícius).

Amor também é cultura: nos jeitos, nos rituais, na intimidade. A cultura lhe dita
os modos, pauta-lhe até os momentos essenciais. As partes se declaram,
entregam e seguem conforme os ditames sociais, ou não se sentem nos
conceitos prestigiados. As formatações sociais estabelecem as aparências
públicas e privadas do sentimento de amor.

Amar de forma alternativa à que se ama em uma circunscrição de lugar e
tempo é ofensivo às expectativas gerais de se cumprir a relação amorosa. O
amor é entregue em holocausto aos ritos solicitados pelos costumes: etiquetas
de atenção, rituais de obrigações, publicações de felicidade. Há um gozo
doentio nisso, mas que se realiza pleno de cumplicidade.

Amor ademais é havido como uma moral edificante, tem uma ética exortatória.
Brincamos com as quebras da moral amorosa, traímos o discurso embutido em
sua ética: é quando fazemos malcriação doméstica com o amor (impudicícias);
é quando nos damos licenças por fora do contrato (tácito) da relação (traímos,
somos inescrupulosos com nosso par).

Muitas outras coisas, ainda bem, acontecem. Coisas mundanas assentas na
realidade, contaminam os modos enlevados, atributo dos princípios amorosos:
quem fazia amor, agora, fode com vontade. Sim, há a pureza amorosa.
Encontra-se-a como ternura, gentileza, cuidado; como inocência, até. Tudo isso
compõe o amor. Mas amor também será bandalheira.

Nesse ponto incide outro equívoco: confunde-se atração amorosa com gana de
sexo. Todavia, amor é amor e sexo é sexo, ainda que a conjugação de ambos
pareça ser, segundo a tradição declarada, o ideal constitutivo da relação.
Suponho que haja um percentual significativo de amantes com tesão recíproca,
porém são inegáveis os deleites do puro prazer da carne.

Conteúdo sacana: se não houver fêmea se esfregando sequiosa, dando-se
toda, não haverá amor; se não houver macho cobiçoso lambuzando a fêmea,
se não houver pegada, o amor não será a contento. Amor é carinho, mas morre
sem sexo puto, com pecado. A fêmea quer ser tomada; o macho quer tomar.
Se tudo pode, isso pode ser invertido? Pode e deve, em havendo desejo por
qualquer outro modo de transar.

O amor se realiza no gozo. Quero objeto; sou objetificado. Se não faço do outro
o objeto do meu gozo, nunca saciarei o meu gozar. Se não me objetifico ao
gozar do outro, o outro jamais gozará sua vontade. No gozo, pois, há oferta e
império da vontade. Cada qual, a um tempo próprio, se dará por objeto de gozo
e cumprirá a soberania do gozar. No gozo inexistem cortesias, só saciedade.
Amor carnal: dar-se em uso e usar abusadamente.

Há um indescritível no amor. Gresiela Nunes da Rosa: “Há um não sei. O amor
perdura enquanto não descrevo o que sinto, enquanto não sei das suas razões.
Quando me sei na relação, quando delineio o outro, já não há amor”. “Hoje eudiria que cogitar que sabe do outro é mais perder o direito de amar e ser
amado. Quem é que sabe? Tanto o amor quanto o desejo carecem da
alteridade e aí, me parece, tem, necessariamente, um impossível de saber”.

Tenho sede de saber o outro. Mais e mais. Oponho-me a demarcações e corro
riscos. Creio que compreendo Gresiela, todavia pelo inverso do dito: morre o
amor se resumido à vivência das coisas dadas. Se me basta o que sei e já não
quero saber mais nada, talvez não aconteça que eu saiba a tal ponto que não
tenha mais que saber; quiçá, apenas, já não me interesse. O outro já não me
entretém o querer, já não me açula desejo.

Amor por inércia: muita gente, embora esgotadas as vontades, permanece.
Namora de caso acabado. Pode ser pelas boas lembranças, que sempre as há,
pode ser por perdurar um amor amigo que nos dê escora para os medos da
vida. Uma pessoa ao lado sempre fará grande bem. Mas não é disso que se
trata. Seja porque a relação está demais desvendada, seja porque já não
interessa desvendar a relação, os ímpetos de sedução estarão arrefecidos.

Desilusão. Se uma das partes pretender partir para a vida, desmancha tudo,
reacomoda as circunstâncias, termina a relação. Melhor que seja vontade de
ambas as “carametades”, assim se podem despedir com alegria, até com
alguma saudade antecipada. Quando a coisa está azeda, dois caminhos: ou se
desvencilham reciprocamente com elegância, ou acaba em demanda judicial
com passagem pela delegacia especializada em violência doméstica.

Há, porém, casos que seguem por válidos ou mesquinhos interesses; outros
persistem porque os casais se habituaram a estar casados. Alguns se
convertem em belas amizades. Às vezes, questão prática, os corpos se
emprestam ao sexo: não haverá encanto, mas haverá alívio após o sexo de
ocasião, alívio da vontade, mas, já, alívio no afastamento. Eu diria que é
quase uma tarefa: cumpre-se-a; realizada, as partes regressam ao cotidiano.
 

Outro tipo de amor: companhia de conversa; convívio de respeito. Convivência
respeitosa, sem arrebatamento. Não estão “felizes para sempre”, não há sexo
com gosto nem com “criatividade”. Algum acalanto é um beijo na testa.
Inocentes o nomeiam “amor verdadeiro”. Nada. Não tem paixão. O amor
mesmo, só “porque ela era ela e eu era eu” (Chico), o amor indefinito, perdeu
seu crisol, está acabado. Nada disso comporta o amor sem definição.

  

Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicanalista e Jornalista.


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