Inovação já está virando assunto de
boteco. As rápidas e impressionantes transformações sociais e dos negócios
estão preocupando tanta gente que o tema já não é mais algo exclusivo das
reuniões corporativas ou bancos acadêmicos. Duas pessoas reunidas onde quer que
seja, já são suficientes para que o papo - e todas as dificuldades e mitos que
o cercam - entre em pauta.
Mais que uma modinha passageira, a
inovação se tornou um conceito impossível de passar despercebido. Por mais que
alguns ainda teimem em manterem-se deitados eternamente em berços esplêndidos,
mais dia menos dia, a água vai bater no nariz, obrigando a gente a fazer alguma
coisa para não morrer afogado.
Inevitavelmente, seremos obrigados a
rasgar nossas cartilhas, aquelas recheadas de certezas e verdades absolutas que
já não servem mais para quase nada. E fazer isso dói. Dói muito! É como se nos
perdêssemos dentro de nossa própria identidade, questionando o até então
inquestionável. Entramos num ciclo de desaprender para reaprender, sendo
obrigados a jogar velhas crenças na lata do lixo.
Por mais que o homem inove desde sempre
- caso contrário não teríamos chegado até aqui - o século XX trouxe tantas
facilidades que acabamos criando falsas zonas de conforto, acreditando que tudo
o que precisamos é de um diploma na parede, um bom emprego, contas pagas e um
corpo sarado. Não! A vida não se resume a pagar boletos e tentar emagrecer. É
preciso ir além.
Para isso, precisamos nos render ao que
o psicólogo Hermann Ebbinghaus definiu em 1885 como curva de aprendizagem.
Segundo ele, há uma certa negação no início, uma tendência a acharmos que já
sabemos o suficiente. Até que chega um momento inevitável, como já está acontecendo
com diversas empresas e segmentos profissionais. A partir desse momento,
inicia-se a fase de preparação, onde o indivíduo se prepara para aprender
coisas novas.
Logo vem a fase chamada de adoção, que
é seguida da curva de aprendizado, que muito se assemelha a um vale sombrio e
perigoso, já que desperta a sensação de que tudo o que você sabia então, não
serve para mais nada. É a hora do desespero, da decepção, da derrota. É só
quando o aprendizado começa a fazer sentido, por meio do chamado aprendizado
experiencial, é que a retomada acontece, seguindo uma curva ascendente. Aí, o
indivíduo é capaz de encontrar benefícios reais e torna-se melhor do que era
antes.
Não por acaso, essa curva é muito
semelhante à do luto, definida pela psicóloga Elisabeth Kubler-Ross. No começo,
há sempre a negação, a raiva e a barganha. Até que, convencido que a morte é
imutável, caímos no vale da depressão. Com o tempo e força de vontade, saímos
do limbo para entrarmos na fase de consciência, aceitação e atitude.
Talvez, essa comparação seja a melhor
explicação para o fato de inovar ser algo tão difícil e desafiador para a
grande maioria dos reles mortais. O processo de aceitar que o que se sabe não é
mais suficiente dói tanto quanto a perda de uma pessoa querida. Só que no caso,
o que perdemos é um pedaço de nós mesmos. Uma parte que lapidamos com a
relevante ajuda dos nossos pais, professores e amigos.
Em suma, quem realmente quiser inovar
em sua carreira, sua empresa ou sua vida, precisará encarar de frente a dura
realidade de que nada mais será como antes. Será necessário encarar a descida
da “desaprendizagem” para que a subida seja, de fato, transformadora. Dói, mas
compensa. É melhor chegar ao fundo do poço e subir do que passar a vida inteira
fingindo que não tem nada acontecendo. Se joga! Erre rápido para aprender mais
rápido ainda.
Marília
Cardoso - sócia-fundadora da PALAS,
consultoria pioneira na implementação da ISO 56.002, de gestão da inovação.
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