Experiências como amizade, namoro, sexo e
divertir-se com outros ganha pouco valor no “autismo aprendido”, tanto
pela imaturidade social como pelo fato de reconhecer no universo virtual um
mundo melhor.
O “autismo aprendido” é um conjunto de comportamentos
e posturas aprendidas que tenho observado em um crescente número de crianças e
jovens adultos com específicos gostos-valores-crenças que os levam a se
interessar pouco em se relacionar com outras pessoas.
Causas para isso sempre existiram, comumente
provocadas por fontes de prazer que não exigiriam relações sociais desde uma
idade muito precoce (menos de 1 ano de idade), podendo ser música, desenho,
pintura ou esportes (principalmente individuais). Porém, há uma nova e
enormemente maior causa para o “autismo aprendido” nos dias de hoje: o mundo da
internet. Este “universo virtual” oferece drama, ação, jogos, filmes,
incontáveis atraentes seriados e relações sociais virtuais de pouco prazer,
baixo atrito e com pobre complexidade. O efeito é um prazer constante em que um
contato social real não é necessário, nem sonhado e pensado como pobre.
Portanto, cria-se o ciclo de retroalimentação do
“autismo aprendido”: ao viver no mundo virtual onde há muito prazer, pouca
rejeição e incontáveis horas de distração; e ao ficar muito tempo ali, tendo
poucas reais interações sociais, sendo limitadas por vezes a momentos de alimentação
(seja em casa ou na escola), frequentar a escola ou reunião de familiares;
pouco a pessoa aprende sobre lidar com críticas, frustrações, ter que ser
minimamente agradável para poder ser feliz e reconhecer que é inferior a uma ou
outra pessoa em termos de maturidade, inteligência ou diferentes conhecimentos.
Isto tudo acontecendo, as interações sociais se tornam cada vez menos agradáveis
ou até desagradáveis, restando o mundo virtual como a maior fonte de prazer e
distração; para onde, assim que puder, voltará; retroalimentando o ciclo do
“autismo aprendido”.
Experiências como amizade, namoro, sexo e
divertir-se com outros ganha pouco valor no “autismo aprendido”, tanto pela
imaturidade social como pelo fato de reconhecer no universo virtual um mundo melhor.
Não poderia ser dito que este “autismo aprendido”
seria algum tipo de doença ou psicopatologia, pois não necessariamente gera dor
na pessoa que o aprendeu, sendo, na realidade, o oposto, pois o prazer seria
até mais constante com menos desconfortos no dia a dia do que o viver
presencial com outras pessoas. Entretanto, no momento em que este indivíduo
chegar ao final da adolescência e início da vida adulta, entrando em contato
com a necessidade de se relacionar frente a frente com outros na busca de um
emprego ou até ir para uma faculdade, encontrar-se-á num ambiente no qual tem
pobres recursos para lidar com a complexidade das relações humanas gradualmente
aprendidas pela maioria das pessoas que não viveram dentro do universo virtual
nos seus primeiros 20 anos de vida.
Dentre os tantos caminhos possíveis de quem
desenvolveu este “autismo aprendido”, posso salientar três que vejo frequentemente:
(1) buscar uma profissão que mantenha o viver neste universo virtual, como
trabalhar essencialmente com computadores; (2) sofrimentos constantes com
sensações de desespero e inadequação no processo de aprender a se relacionar
socialmente e, gradualmente, aprendendo a saborear o contato com outras
pessoas; e (3) oscilar entre isolamentos sociais intercalados por exigências
vitais de estar com alguém para poder se sustentar financeiramente e/ou cumprir
minimamente com expectativas sociais, seja ir a um natal, happy hour
ou variações; sofrendo, geralmente, pela inabilidade de se movimentar nestes
contextos.
Na eventualidade de um pai, mãe ou educador estar
preocupado com o filho ou filha em desenvolver um “autismo aprendido”, proponho
um limite de horas diárias de diversão ou uso do universo virtual, não
excedendoseis horas, sobrando 10 horas para se relacionar com outras pessoas,
fazer esportes ou outras atividades, não circunscrevendo a própria vida à
“realidade virtual”.
Dr. Bayard Galvão - Psicólogo Clínico formado pela
PUC-SP, Hipnoterapeuta e Palestrante. Especialista em Psicoterapia Breve,
Hipnoterapia e Psiconcologia, Bayard é autor de cinco livros, criador do
conceito de Hipnoterapia Educativa e Presidente do Instituto Milton H. Erickson
de São Paulo. Ministra palestras, treinamentos e atendimentos individuais
utilizando esses conceitos. www.institutobayardgalvao.com.br
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