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quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Quando o cilindro pneumático precisa ser de aço inoxidável?

 

Na especificação de um cilindro pneumático para ambientes agressivos, com presença constante de umidade, produtos químicos ou processos que exigem lavagem frequente, como na indústria de alimentos e bebidas, é comum que a decisão se resuma a uma pergunta binária: aço inoxidável ou não? Essa simplificação pode levar a duas escolhas igualmente inadequadas: superdimensionar o componente, pagando por uma resistência que a aplicação não exige, ou subdimensioná-lo, ignorando que a parte exposta ao ambiente agressivo nem sempre é a que se imagina. 

Um cilindro ISO 15552, no padrão mais comum, já combina diferentes materiais: camisa em alumínio anodizado, cabeçotes em alumínio fundido sob pressão e haste em aço C45 ou AISI 303, cromada, ou em aço inoxidável, dependendo da versão. Antes de perguntar "preciso de inox?", portanto, a questão mais precisa é: qual parte do cilindro entra em contato direto com o agente agressivo?

 

Na maioria das aplicações industriais, é a haste. 

É ela que se movimenta para fora do corpo do cilindro e entra em contato com o ambiente externo a cada ciclo. Por isso, existem versões com haste em aço inoxidável que mantêm o restante do cilindro em alumínio, combinação capaz de atender boa parte dos casos de corrosão superficial sem o custo de uma estrutura inteiramente inoxidável. 

O cenário muda quando o agente agressivo não está apenas no ambiente externo, mas também atinge a estrutura do cilindro, como em lavagens com produtos químicos concentrados ou em ambientes com exposição constante à neblina salina. Nesses casos, há versões de cilindros ISO 15552 inteiramente em aço inoxidável, com cabeçotes e camisa em AISI 304, podendo chegar ao AISI 316 sob pedido, além da haste. É uma solução mais cara e que pode ser desnecessária em aplicações nas quais apenas determinados componentes estão efetivamente expostos aos agentes agressivos. 

Há ainda um terceiro caminho, menos conhecido fora do ambiente de engenharia: cilindros com estrutura em alumínio anodizado e revestido, portanto, não inoxidável, combinados a hastes em aço inoxidável e raspadores especiais de poliuretano, desenvolvidos para reduzir a estagnação de resíduos, como em plantas de laticínios. Essa combinação pode oferecer a resistência necessária para o setor alimentício sem o peso e o custo de uma estrutura totalmente inoxidável. 

Isso expõe um ponto que costuma passar despercebido na especificação: a vedação, que também determina boa parte da resistência real do componente, independentemente do metal utilizado na estrutura. Guarnições em NBR atendem aplicações padrão, inclusive com presença de umidade. Em poliuretano, podem suportar ciclos mais longos, enquanto FKM/FPM apresenta resistência a determinados agentes químicos e a temperaturas de até 150 °C. 

Assim, um cilindro com estrutura em alumínio e a guarnição adequada pode, em determinadas aplicações, apresentar maior durabilidade do que um cilindro inteiramente inoxidável equipado com uma vedação inadequada. 

Para quem especifica automação pneumática, a implicação prática é direta: a decisão pelo uso do aço inoxidável não deveria começar pela pergunta "qual material deve ter a estrutura?", mas por um mapeamento de onde, exatamente, o cilindro entra em contato com os agentes agressivos. Pode ser a haste, a vedação ou a estrutura inteira. Tratar essa definição como uma escolha única, e não como uma combinação de componentes e materiais, pode levar tanto ao superdimensionamento quanto à corrosão prematura de equipamentos que, no papel, pareciam bem especificados.

 

Hernane Cauduro - diretor da Metal Work Pneumática do Brasil, empresa referência na produção e comercialização de equipamentos para automação industrial https://www.metalwork.com.br/

 

Mais que proteger o patrimônio: turbulência pós-eleição reacende busca por cidadania europeia

Oscilações na Bolsa e no câmbio após as eleições colocam em evidência a importância de diversificar estratégias de longo prazo, incluindo alternativas de mobilidade internacional e planejamento familiar

 

A forte turbulência registrada nos mercados financeiros brasileiros após o resultado das eleições presidenciais reacendeu o debate sobre planejamento patrimonial e diversificação de estratégias de longo prazo. Nesta segunda-feira (26), o Ibovespa chegou a registrar queda de aproximadamente 16,6%, enquanto o dólar avançou durante o pregão e superou os R$5,60, em meio à revisão de expectativas dos investidores. O movimento levou à interrupção temporária das negociações na Bolsa, mecanismo acionado em situações de perdas acentuadas. A reação evidencia como mudanças nas expectativas econômicas podem provocar ajustes expressivos nos preços dos ativos.

Nesse cenário, a cidadania europeia volta a ganhar espaço nas discussões sobre planejamento familiar e internacionalização de oportunidades. Embora não represente uma proteção financeira direta contra oscilações do mercado, a dupla cidadania pode ampliar as possibilidades de residência, trabalho, estudo e organização da vida em outro país, além de oferecer maior flexibilidade para decisões futuras. Para especialistas do setor, o interesse pelo reconhecimento da nacionalidade de origem está relacionado não apenas à conjuntura política ou econômica, mas também à construção de alternativas que possam ser aproveitadas ao longo de diferentes fases da vida.

Segundo Vinícius Gama, sócio-fundador da Pátria Cidadania, empresa brasileira especializada no reconhecimento de cidadanias europeias, momentos de instabilidade costumam estimular reflexões sobre a dependência de um único ambiente econômico e sobre as possibilidades disponíveis para as próximas gerações. “Quando o cenário econômico apresenta oscilações mais intensas, muitas famílias passam a olhar com mais atenção para o planejamento de longo prazo. A cidadania europeia não deve ser entendida como uma resposta imediata à volatilidade dos mercados, mas como uma possibilidade de ampliar horizontes e construir alternativas para o futuro, independentemente de quem esteja no governo”, afirma.

O executivo ressalta que a decisão de buscar uma segunda nacionalidade exige uma avaliação que vá além das notícias do momento. O processo envolve a análise da origem familiar, da legislação aplicável, da documentação necessária e dos objetivos de cada requerente. Por isso, a procura pela cidadania deve estar associada a um planejamento consistente, considerando tanto os benefícios potenciais quanto os requisitos legais para o reconhecimento.

Outro aspecto relevante é a dimensão geracional. O reconhecimento da cidadania pode representar uma oportunidade para que filhos e netos tenham acesso a possibilidades internacionais, conforme as regras de transmissão e a legislação vigente em cada país. No caso da cidadania italiana, por exemplo, as mudanças recentes nas regras de reconhecimento tornaram ainda mais importante verificar individualmente a elegibilidade e as condições previstas na legislação antes de iniciar o procedimento.

“Ter uma segunda cidadania significa, para muitas pessoas, contar com mais possibilidades de escolha. Isso pode envolver uma experiência acadêmica no exterior, uma oportunidade profissional ou até mesmo a decisão de viver em outro país no futuro. O valor dessa alternativa está justamente na liberdade de decidir, sem que a família precise tomar uma decisão precipitada em resposta a um acontecimento específico”, acrescenta Gama.

Na avaliação da empresa, a turbulência nos mercados reforça a importância de separar decisões estruturais de reações imediatas. A obtenção de uma cidadania estrangeira não substitui a diversificação de investimentos, a constituição de reservas financeiras ou a orientação de profissionais especializados em finanças. Seu papel está relacionado à ampliação das possibilidades jurídicas e geográficas de uma pessoa e de sua família.

Em um contexto de mudanças econômicas recorrentes, a discussão sobre cidadania europeia, portanto, ultrapassa a proteção patrimonial em sentido estritamente financeiro. Trata-se de avaliar alternativas de mobilidade, acesso a oportunidades e planejamento familiar que possam fazer sentido no longo prazo, independentemente das oscilações de curto prazo ou do ciclo político do país.

 

https://patriacidadania.com.br/cidadania-italiana

Oito em cada dez fornecedores do governo não entendem totalmente o impacto da Reforma Tributária, aponta pesquisa

 

  • Levantamento feito pelo Portal de Compras Públicas com 365 empresas mostra que 67,4% preveem aumento da complexidade nas licitações;

  • Quase 64% projetam alta nos preços praticados para o setor público com a chegada do IBS e da CBS;

  

 

A poucos meses do início da transição para o novo sistema tributário brasileiro, a maioria das empresas que fornecem bens e serviços para o setor público ainda enfrenta incertezas graves sobre a formação de preços e a operacionalização do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS). Um levantamento exclusivo realizado com 365 fornecedores governamentais pelo Portal de Compras Públicas, maior govtech brasileira especializada em licitações, revela que apenas 20,0% dos entrevistados compreendem totalmente como as novas regras vão afetar os preços oferecidos em licitações.

 

“Nas compras públicas, a composição do preço exige que o fornecedor considere não apenas seus custos operacionais, mas também as condições previstas no edital e as obrigações que terá de cumprir durante o contrato. Em um período de transição tributária, essa análise ganha uma camada adicional de complexidade, porque os efeitos da mudança precisam ser considerados desde a proposta comercial até a execução contratual. Isso exige planejamento e maior integração entre as áreas fiscal, financeira e comercial das empresas”, afirma Bruno Ladeira, cofundador do Portal de Compras Públicas.

 

Entre os demais ouvidos pela pesquisa, 47,4% afirmam não entender o impacto ou desconhecer os detalhes da mudança, enquanto 32,6% dizem compreender apenas parcialmente a Reforma Tributária. Além disso, 28,2% das empresas não conseguem sequer estimar se seus valores finais ofertados pelo governo vão subir ou cair.


 

Incertezas podem impactar preços nas compras públicas


O desconhecimento do impacto tributário tende a se refletir no custo final das compras públicas. Segundo a análise, 63,9% dos fornecedores acreditam que a nova sistemática vai aumentar os preços cobrados da administração pública, ao passo que somente 3% esperam alguma redução. Na prática, a falta de clareza sobre como recalcular os tributos leva os empreendedores a se protegerem, ampliando suas margens diante das incertezas nas disputas.

 

A percepção de burocracia também predomina entre as pequenas e médias empresas. Para 67,4% dos entrevistados, a reforma tornará a participação de PMEs em licitações mais complexa, em contraponto aos 8,5% que projetam simplificação dos processos.


 

Gargalos operacionais e falta de planejamento

 

A maior dificuldade relatada pelo setor não é apenas o valor do imposto a pagar, mas a capacidade operacional de precificar e emitir documentos fiscais adequadamente. A revisão da formação de preços é o principal obstáculo citado por 38,9% das empresas, seguida pela adequação de sistemas e processos fiscais (24,1%). Somados, esses problemas de ordem prática atingem 63,0% das organizações.

 

Para tentar contornar a falta de preparo interno, 65,7% dos fornecedores pretendem buscar apoio externo, como contadores, consultorias, plataformas de compras públicas ou entidades de classe. Por outro lado, 26,6% das organizações ainda não decidiram qual medida tomar, evidenciando que cerca de uma em cada quatro empresas fornecedoras segue sem um plano de ação para a entrada em vigor da CBS.

 

“Os dados mostram que a principal preocupação não é apenas a carga tributária, mas a capacidade de formar preços corretamente e continuar competitivo nas licitações”, ressalta Bruno Ladeira, cofundador do Portal de Compras Públicas.



O risco invisível nos contratos em vigor

 

Além das disputas futuras, o levantamento acende um alerta vermelho para os contratos administrativos e as atas de registro de preços atualmente em execução. Como esses instrumentos foram precificados sob as regras tributárias antigas e vão atravessar a fase de transição, a mudança na carga de impostos pode provocar uma onda de pedidos de reequilíbrio econômico-financeiro dos contratos.

 

“Uma fatia importante do setor não está preparada nem no conceito, nem na operação. Quem não se preparar agora corre o risco de perder margem ou competitividade”, alerta Leonardo.

 

Para evitar prejuízos ou perda de competitividade, o especialista  recomenda que os fornecedores simulem previamente seus custos sob as alíquotas de IBS e CBS, promovam a adequação de seus sistemas de apuração e mapeiem todos os contratos vigentes para pleitear o reajuste ou o reequilíbrio formal, quando necessário. 



Portal de Compras Públicas
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Natal começa antes: o que acontece nos bastidores de uma confeitaria antes da corrida pelas encomendas

 

Previsão de demanda, compras antecipadas, fornecedores, estoque, embalagens e limite de pedidos fazem parte do planejamento de pequenos negócios para enfrentar o período mais intenso do ano


Para o consumidor, o Natal começa quando as primeiras decorações aparecem nas lojas e as confraternizações entram no calendário. Para uma confeitaria, porém, a preparação para a data começa muito antes. Enquanto o público ainda está decidindo o que vai servir na ceia, pequenos negócios do setor já precisam prever a demanda, negociar com fornecedores, organizar estoques, definir embalagens, estruturar a produção e estabelecer até onde conseguem aceitar encomendas sem comprometer a qualidade.

O planejamento antecipado é apontado pelo Sebrae como um dos fatores importantes para que empresas de panificação e confeitaria aproveitem melhor o período de fim de ano. A entidade recomenda que negócios do setor se antecipem para negociar com fornecedores e garantir matérias-primas fundamentais, evitando que a preparação fique para a última hora.

Na Regiane Canuto Confeitaria, a proximidade do Natal representa uma mudança significativa na rotina. Com o aumento da procura por doces, bolos e sobremesas para confraternizações e celebrações, a operação precisa ser planejada com antecedência para que o crescimento das vendas não ultrapasse a capacidade de produção.

 

Antes de vender, é preciso prever

Uma das primeiras decisões é estimar quanto a empresa será capaz de produzir e vender. O histórico de anos anteriores, os produtos que tiveram maior procura, o calendário de encomendas e a estrutura disponível ajudam a definir expectativas mais realistas.

Essa previsão também orienta uma série de decisões que acontecem antes mesmo de o cliente fazer o pedido. Quanto comprar de cada ingrediente? Quantas embalagens serão necessárias? A equipe atual consegue dar conta? Será preciso reorganizar a produção? Quais produtos devem entrar no cardápio?

“Não dá para esperar dezembro chegar para começar a pensar no Natal. A gente precisa se antecipar porque uma decisão interfere na outra. Se eu sei o que pretendo vender, consigo me organizar melhor com fornecedores, estoque, embalagens e produção”, explica Regiane Canuto.


Comprar antes sem transformar estoque em desperdício

A antecipação das compras é importante, mas também exige equilíbrio. Ingredientes e materiais comprados com antecedência podem ajudar a evitar falta de produtos e facilitar negociações com fornecedores, mas um estoque maior também significa dinheiro investido e maior risco de perdas quando se trata de itens perecíveis.

Por isso, o planejamento precisa considerar não apenas o volume esperado de vendas, mas também o giro de cada matéria-prima, os prazos de validade, as condições de armazenamento e o calendário de produção.

Para uma confeitaria, a relação com fornecedores também ganha peso nesse período. Ter parceiros confiáveis pode fazer diferença quando a demanda aumenta e determinados ingredientes ou materiais precisam ser repostos rapidamente.

 

Nem sempre o maior cardápio é o melhor

Outro desafio está na definição do cardápio de Natal. A tentação de oferecer muitas opções pode ser grande, mas cada novo produto acrescenta ingredientes, etapas de produção, embalagens, espaço de armazenamento e tempo de equipe.

Por isso, o planejamento passa também por escolher produtos que façam sentido para o público e, ao mesmo tempo, sejam compatíveis com a capacidade da operação.

“Uma coisa que aprendemos com o tempo é que não adianta colocar um produto no cardápio só porque ele parece interessante. Precisamos pensar se conseguimos produzir em quantidade, manter o padrão e entregar dentro do prazo. No Natal, organização é tão importante quanto a receita”, afirma Regiane.

  

A embalagem também entra na conta

Em uma temporada de encomendas, até a embalagem precisa ser planejada com antecedência. Além de proteger os produtos, ela faz parte da apresentação da encomenda e pode representar uma etapa significativa da operação quando o volume de pedidos aumenta.

Isso significa prever tamanhos, quantidades, armazenamento e tempo necessário para montagem. Quanto maior o número de encomendas, mais importante se torna organizar essas etapas para que a embalagem não vire um gargalo no momento da entrega.


O limite de pedidos também é uma decisão de gestão

Um dos dilemas mais importantes do período é definir quando parar de aceitar encomendas. Em uma época em que a demanda pode crescer rapidamente, dizer “não” a novos pedidos pode parecer uma oportunidade perdida. Mas ultrapassar a capacidade real da equipe pode provocar efeito contrário: atrasos, queda de qualidade, desperdício e uma experiência ruim para o cliente.

O próprio Sebrae destaca a necessidade de preparar estoques, equipe e operação para períodos sazonais de maior movimento, justamente para evitar desequilíbrios entre oferta e procura.

“É muito tentador aceitar todos os pedidos porque existe uma demanda maior, mas precisamos conhecer o nosso limite. Se eu aceitar mais encomendas do que consigo entregar bem, posso comprometer justamente aquilo que fez o cliente escolher a minha confeitaria. Saber a hora de encerrar os pedidos também faz parte da gestão”, diz Regiane.


Crescer no Natal sem perder qualidade

O desafio de uma pequena confeitaria durante o fim do ano não está apenas em vender mais, mas em conseguir aumentar a produção mantendo o padrão conquistado ao longo do ano. Isso exige processos, organização da equipe, controle de estoque e acompanhamento constante dos pedidos e prazos.

O período de maior movimento pode, portanto, funcionar também como um teste para a estrutura do negócio. Quanto mais organizado estiver o planejamento, maior a possibilidade de transformar o aumento sazonal da demanda em oportunidade de crescimento sem comprometer a operação.

Para Regiane, a principal diferença está em entender que o Natal não começa quando chegam as primeiras encomendas, mas quando a empresa começa a se preparar para elas.

“Quando o cliente faz o pedido, uma boa parte do trabalho já deveria estar planejada. O que ele vê no Natal é o resultado de uma preparação que começou muito antes”, conclui.


Dia Nacional do Livro: a literatura precisa resistir à IA

Eu realmente odeio escrever. O processo todo é solitário. É como fazer terapia com uma página, só que a página nem sequer pergunta: “Então, como isso faz você se sentir?” Ela simplesmente fica ali, encarando você. Coloca as coisas diante de você antes que esteja pronto para admiti-las, às vezes antes mesmo de compreendê-las.

Publiquei meu primeiro livro há um ano e só agora o reli pela primeira vez. Ele não estava pronto. Não está claro, é confuso, é difícil de explicar. Escrevi com papel e caneta, em sete dias, numa cafeteria em frente a uma pequena padaria judaica perto de casa. Não dormi, não falei com ninguém. Não consigo lembrar a sequência exata dos dias; foi um transe, algo que precisava sair de mim, todo dia o mesmo ritual: acordar, café, escrever sem parar, dormir. Café e picles, olhos inchados, cabelo bagunçado, e eu continuava porque não sabia parar. Vomitei tudo ali, no caos e no cansaço. Muita gente acha que escrever é terapia, desabafo, mas a verdade é que eu não escrevo porque amo. Escrevo porque parar parece pior.

No Dia Nacional do Livro, 29 de outubro, falamos de livros como objetos sagrados. Eu prefiro falar do que existe antes deles: a bagunça. E de por que ela está em perigo.

Minha posição é simples: delego a pontuação; não delego a hesitação, a escolha da palavra, a decisão de dizer ou de calar. Sim, eu uso IA para corrigir vírgulas (oi, hipócrita!). Mas vírgula é o único território em que aceito ajuda de uma máquina. O resto é o texto.

Quando éramos pequenos, muitos de nós tínhamos um diário: um lugar secreto onde despejávamos medos, dúvidas, conquistas e alegrias, sem julgamento. Ali não havia perigo de ser estranho demais, profundo demais, ruim demais ou bom demais. Havia apenas você.

Paul Valéry dizia que um poema nunca se termina, apenas se abandona. Abandonar é uma decisão: alguém olha para o texto imperfeito e resolve que é ali que ele para. O texto de IA, hoje onipresente em feeds, memes e modismos, nunca é abandonado, porque nunca foi sustentado. É limpo, correto, impecável, e quase sempre não há ninguém por trás dele, o problema não é que dê para detectá-lo. É que ninguém decidiu nada ali.

E preciso ser honesta sobre o outro lado. Meu livro precisava de um editor. Não de um robô: de uma pessoa. Alguém que dissesse “isto aqui não está claro” e ficasse na sala enquanto eu tentava explicar. Pedi à minha prima, que também é escritora, que lesse este artigo antes de eu enviá-lo, e até isso foi uma experiência nova: me encontrar, entender como escrevo, dividir algo com uma colega. Aprendi a diferença entre revisão e correção, uma pessoa devolve a pergunta; a máquina devolve a resposta. A bagunça do primeiro rascunho é minha, o olhar que a organiza sem apagá-la precisa ser de alguém.

Um amigo me perguntou num brunch por que eu não aproveito a onda: “Você escreve com IA? É tão mais fácil.” É, sim. O texto fica mais limpo e, na minha opinião, tedioso e vazio. Vivemos com pressa, tudo para ontem, e a facilidade, infelizmente, virou virtude.

Eu escrevi toda semana por três meses e tive uma longa pausa recentemente, simplesmente porque nada relevante me veio à mente. Em dias assim, penso que usar IA seria tão mais fácil… Mas é essa pausa que nós, escritores, precisamos. Num mundo que acelera e quer otimizar tudo, quem decide que ela é um desperdício?

Escrevo este artigo agora, sentada num café em Nova York. Acordei e pensei: vou ali escrever. Sentei, e o cheiro de croissant na mesa ao lado chamou minha atenção. Ao meu lado, uma garota também escrevia sem parar, entre uma mordida e um gole de café. Espiei sua tela, parei por um momento e perguntei se era escritora. Era. Conversamos brevemente sobre o café e voltamos aos nossos afazeres: eu, a este artigo; ela, à redação da faculdade. Esse pequeno ato de pausa e intimidade entre desconhecidas só aconteceu porque eu decidi ir à rua para escrever.

Se a literatura vai resistir, não será por proibição. Será por escolhas pequenas e repetidas: sair de casa com papel e caneta, respeitar a pausa, mostrar o rascunho feio a outra pessoa. Resistir, no fim, é continuar a escrever mal antes de escrever bem.

Meu livro não estava pronto. Mas é humano. Nasceu de um caos e de um momento de intensidade na minha vida, e é por isso que o amo: é sincero e imperfeito. Entregar a literatura à perfeição é abrir mão disso.

Eu realmente odeio escrever. Mas continuo, e resisto, porque parar parece pior. 


Lara Ferry - atriz, produtora, escritora e autora do livro “A privacidade é um luxo que o escritor não pode ter” formada em Liberal Arts pela Regent’s University London e atualmente reside em Nova York



Seis em cada dez trabalhadores brasileiros não estão engajados; desmotivação gera perda R$ 77 bilhões por ano

Magnific
Pesquisa Engaja S/A 2025 aponta o menor índice de engajamento da série histórica; Freehelper aposta no impacto social como estratégia para fortalecer a cultura organizacional e preparar equipes para 2027.

 

Apenas 39% dos trabalhadores brasileiros se consideram engajados com o trabalho, enquanto as perdas econômicas associadas ao desengajamento chegam a R$ 77 bilhões por ano. Os dados são da terceira edição da pesquisa Engaja S/A, realizada pela Flash em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV EAESP), que identificou o menor nível de engajamento desde o início da série histórica do levantamento. O cenário acende um alerta para as empresas que buscam melhorar a produtividade, reter talentos e fortalecer a relação entre profissionais e organizações. 

Divulgado em 2025, o estudo ouviu 5.397 profissionais de todas as regiões do país. Do total de entrevistados, 54% foram classificados como desengajados e 7% como ativamente desengajados. A pesquisa também estimou que o turnover (rotatividade de funcionários) responde por cerca de R$ 71 bilhões das perdas anuais, enquanto o presenteísmo (quando o profissional está presente, mas apresenta produtividade reduzida) representa outros R$ 6,3 bilhões. 

O levantamento também identificou sinais de alerta sobre a permanência dos profissionais nas empresas: 60% dos entrevistados disseram ter pensado em pedir demissão com alguma frequência. Entre os trabalhadores ativamente desengajados, esse percentual chegou a 60% para aqueles que pensavam frequentemente em deixar o emprego, o que reforça a importância de iniciativas voltadas ao ambiente de trabalho, ao desenvolvimento profissional e ao vínculo com a organização.
 

Impacto social como estratégia de engajamento

Diante desse cenário, a Freehelper, por meio do studio.fh, propõe experiências de impacto social como parte das estratégias de desenvolvimento de equipes e fortalecimento da cultura organizacional. A iniciativa conecta empresas a organizações sociais por meio de ações de voluntariado, mentoria e atividades colaborativas, com projetos personalizados de acordo com os objetivos de cada negócio. 

A proposta é transformar o propósito em uma experiência concreta para os colaboradores. Ao participar de iniciativas que respondem a desafios reais das comunidades, os profissionais têm a oportunidade de desenvolver competências, colaborar com colegas de diferentes áreas e ampliar a compreensão sobre o impacto de suas atividades. 

“O desafio das empresas não está apenas em manter seus profissionais ocupados, mas também em construir ambientes nos quais as pessoas compreendam o valor do próprio trabalho e se reconheçam nos objetivos da organização”, afirma Pedro Eilert, fundador da empresa.
 

Planejamento para 2027

Com a aproximação do final do ano, o studio.fh oferece experiências corporativas de curta duração para empresas que desejam associar as atividades de integração ao desenvolvimento de pessoas e ao impacto social. Os formatos incluem palestras sobre propósito e voluntariado, jornadas para formação de embaixadores internos e oficinas práticas com organizações sociais. 

“A proposta é levar o tema do engajamento para o planejamento estratégico das empresas, com iniciativas que conectem desenvolvimento de equipes, cultura organizacional e contribuição social. Em vez de restringir a integração a uma atividade pontual, a intenção é criar experiências alinhadas aos objetivos corporativos para o próximo ano”, ressalta Pedro.

  

Studio FH
studio.freehelper.com.br
Instagram: @studio.freehelper


Voz clonada em grupos de mensagens segue como a principal ameaça de deepfake após eleições

Precisão das ferramentas automáticas de detecção chega até 99% em laboratório, mas, segundo dados da TIVIT, cai para a faixa de 50% a 75% nas redes sociais

 

Encerradas as eleições, o conteúdo sintético fraudulento (deepfake), frequentemente associado a informações falsas, continua em circulação no país. Declarações e gravações forjadas, geralmente criadas por inteligência artificial, ainda se espalham por aplicativos de conversa durante debates políticos, mesmo após o período de votação, e merecem atenção antes de serem repassadas.

A TIVIT, multinacional de tecnologia do Grupo Almaviva, registrou uma concentração de alertas nos últimos meses, por meio de seu Centro de Operações de Rede e Segurança (SNOC), e destacou equipes de especialistas para analisar mídias sintéticas durante o período eleitoral. O movimento acompanha a escalada global desse tipo de material, que, segundo estimativas de mercado, saltou de 500 mil para cerca de 8 milhões de ocorrências no último ano, e se reflete em um aumento expressivo de tentativas de engenharia social e de falsificação de identidade.

Segundo Thiago Tanaka, diretor de cibersegurança da TIVIT, o SNOC pode combinar detecção automatizada e análise biométrica já na fase inicial de correlação. “Estendemos o monitoramento preventivo a canais externos e a ambientes ocultos da internet. A ideia é conter o ataque e preservar as provas digitais antes que o dano à reputação de um alvo ou à sua conformidade regulatória se torne irreversível”, explica.

Entre os formatos estudados, o laboratório de pesquisas cibernéticas da TIVIT apontou a clonagem de voz e os vídeos adulterados de candidatos como os formatos de maior risco ao longo de 2025 e 2026. O áudio sintético fraudulento pode ser gerado a partir de amostras curtas e ganha poder de persuasão ao circular em conversas fechadas, longe do monitoramento em tempo real.

Os vídeos com troca de rosto ou alteração de fala têm impacto imediato quando simulam uma confissão, assim como afirmações mentirosas de alto impacto sobre temas polêmicos como religião, economia, segurança e programas sociais. Somadas, as duas técnicas exploram a confiança histórica que o público deposita na imagem e no som, segundo o laboratório, e produzem uma incerteza generalizada sobre o que é autêntico. Já as peças falsas atribuídas a órgãos públicos, que minam a credibilidade das instituições, ainda costumam ser amadoras e mais fáceis de identificar.

As montagens mais elaboradas, porém, esbarram no limite dos detectores automáticos. Em testes controlados de laboratórios como o Maryland Test Facility (MdTF), nos Estados Unidos, e o Recod.ai, da Unicamp, essas ferramentas atingem precisão de 90% a 99%. Em cenários reais como o brasileiro, onde atuam quadrilhas especializadas e bem equipadas, o índice recua para a faixa de 50% a 75%, segundo observação da equipe de cibersegurança da TIVIT. Os algoritmos reconhecem marcas deixadas pelos modelos com que foram treinados e perdem eficiência diante de geradores novos e da compressão típica das redes sociais.

O erro pesa nos dois sentidos: o falso positivo pode bloquear um discurso verdadeiro até que o canal oficial confirme a autenticidade, e o falso negativo deixa áudios e vídeos fabricados circularem sem barreira em momentos críticos. Por isso, Tanaka defende que nenhum software deve dar a palavra final. “O resultado do detector entra como um sinal auxiliar. Para cravar que algo é falso, a equipe cruza essa indicação com a validação do contexto, o rastreio da procedência e a revisão de um especialista”, diz o especialista.

Para o cidadão comum, que não conta com esse aparato, a orientação da TIVIT começa pela desconfiança diante de qualquer declaração bombástica atribuída a políticos ou autoridades, sobretudo quando o tom parece calibrado para despertar raiva ou senso de urgência. Antes de reencaminhar, vale procurar o mesmo registro nos perfis oficiais de quem aparece no vídeo ou no áudio, além de verificar se a peça é recente ou se uma gravação antiga voltou a circular como se fosse atual.

Quando a dúvida persiste, a cobertura de veículos jornalísticos de credibilidade serve de contraprova, e a busca reversa de imagens ajuda a encontrar a versão original de uma cena adulterada. Os rótulos que sinalizam o uso de inteligência artificial também merecem atenção. Se nada disso confirmar a origem do material, a conduta mais segura é não compartilhar.

A validação feita fora do canal digital também funciona contra áudios clonados, como mostra um incidente recente atendido pela TIVIT em uma multinacional. Um executivo recebeu mensagens e uma ligação em que a voz e o sotaque do CEO eram reproduzidos com alta fidelidade para pedir uma transferência urgente. Ao notar uma inconsistência sutil no tom, ele fez uma pergunta pessoal que só o presidente verdadeiro saberia responder, e o golpista encerrou a chamada antes de qualquer envio de dinheiro. Assim, a conscientização e a preparação das pessoas para questionar e validar antes de qualquer decisão mostram-se novamente eficientes na prevenção de fraudes.

O mesmo recurso pode atingir empresas, com o rosto ou a fala de um líder corporativo associados a declarações ou apoios que nunca existiram. O episódio pode resultar em boicote de consumidores e perda de valor de mercado. Para esses casos, a TIVIT recomenda um protocolo que une cibersegurança, jurídico e comunicação, no qual a validação técnica e a preservação das provas digitais sustentam os pedidos de remoção às plataformas e à Justiça enquanto a empresa se posiciona em seus canais oficiais.

Embora o volume e a sofisticação das falsificações imponham desafios operacionais, a TIVIT avalia que o risco mais crítico é a perda de confiança até em registros autênticos. Conhecido como dividendo do mentiroso, o fenômeno permite desacreditar fatos legítimos sob a alegação de que foram fabricados por inteligência artificial. “O desafio estratégico é preservar a legitimidade da informação verdadeira. Se o ceticismo se generalizar, eleitores e instituições perdem a capacidade de chegar a um consenso mínimo sobre o que é real”, completa Tanaka.


TIVIT
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STF exclui ISS da base do PIS/Cofins, mas restituição segue indefinida

Divulgação
Decisão por 6 votos a 5 favorece empresas prestadoras de serviços, mas recuperação de valores pagos no passado ainda depende de definição do Supremo; advogado tributarista Lucas dos Santos orienta cautela e planejamento


O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, em 21 de outubro, que o Imposto Sobre Serviços (ISS) não deve integrar a base de cálculo do PIS e da Cofins. O julgamento do Tema 118 da repercussão geral (RE 592.616) terminou em 6 votos a 5, com o voto decisivo do ministro Luiz Fux. Apesar do resultado favorável aos contribuintes, a Corte ainda não definiu se a decisão permitirá a recuperação de valores pagos nos anos anteriores.

O entendimento segue a lógica da chamada "tese do século", estabelecida pelo STF em 2017, quando o tribunal decidiu excluir o ICMS da base de cálculo das mesmas contribuições. No caso do ISS, prevaleceu o entendimento de que o imposto municipal não representa receita própria das empresas, pois os valores apenas transitam por sua contabilidade antes de serem destinados aos cofres públicos.

O processo teve origem em recurso da Viação Alvorada, de Porto Alegre (RS), contra decisão do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4). O julgamento, iniciado em 2020, estava suspenso desde agosto de 2024, com placar de 5 a 5, e foi concluído com o voto de Fux. A ata foi publicada em 23 de outubro.

“Para quem presta serviço, a decisão mexe numa conta que aparece todo mês. É uma vitória do contribuinte, na mesma linha da tese do século. Mas o 6 a 5 resolve o mérito, não o caixa: quanto disso tem efeito financeiro, e para quem, ainda depende do Supremo”, afirma o advogado tributarista Lucas dos Santos, da L. Santos Sociedade Individual de Advocacia.


Restituição de valores ainda depende do STF

Embora tenha definido que o ISS não deve compor a base de cálculo do PIS e da Cofins, o Supremo deixou para uma etapa posterior a análise da chamada modulação dos efeitos, mecanismo que estabelece a partir de quando uma decisão judicial deve produzir consequências.

Durante o julgamento, Luiz Fux propôs que o entendimento passe a valer a partir da publicação da ata, com ressalvas para ações judiciais e processos administrativos já em andamento. A proposta também contempla determinadas situações envolvendo tributos ainda não recolhidos. A definição, entretanto, poderá ocorrer na análise de eventuais embargos de declaração.

Caso prevaleça uma limitação dos efeitos retroativos, empresas que não questionaram a cobrança anteriormente poderão enfrentar restrições para recuperar valores pagos nos últimos anos. Por isso, a decisão não representa autorização automática para restituições ou compensações tributárias.

“O erro agora é tratar a decisão como crédito garantido. Ela não dá, automaticamente, a todas as empresas o direito de recuperar o que foi pago no passado. Isso depende do recorte que o STF fizer no tempo e da situação de cada empresa. Mudar a apuração antes disso, sem respaldo, é trocar uma tese vencida por um risco de autuação”, diz Santos.

A discussão também ocorre às vésperas de uma mudança no sistema tributário brasileiro. A partir de 1º de janeiro de 2027, o PIS e a Cofins serão substituídos pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), conforme o cronograma da reforma tributária. Com isso, os efeitos do julgamento sobre essas contribuições ficam concentrados nas operações anteriores à substituição, além de situações específicas previstas nas regras de transição.


Impacto bilionário e reflexos para as empresas

A decisão também pode representar um impacto significativo para as contas públicas. Segundo estimativa da União apresentada na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, a exclusão do ISS da base do PIS e da Cofins pode gerar impacto fiscal de até R$ 35,4 bilhões. O valor, entretanto, não representa uma perda já concretizada e dependerá, entre outros fatores, da definição sobre os efeitos da decisão.

A dimensão da controvérsia também aparece no volume de processos judiciais. Levantamento do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), com dados até 29 de abril de 2026, identificou 4.903 ações relacionadas ao Tema 118 temporariamente suspensas. Elas representavam aproximadamente 53% dos 9.247 processos tributários e previdenciários sobrestados no tribunal à espera de julgamentos do STF.

Para as empresas prestadoras de serviços, o cenário exige atenção aos recolhimentos realizados, à documentação fiscal e à existência de eventuais discussões administrativas ou judiciais. A análise individualizada é fundamental para avaliar possíveis impactos financeiros, especialmente diante das definições ainda pendentes.

Para Lucas dos Santos, o momento é de gestão. “Quem presta serviço deve olhar para isso como olha para qualquer contingência relevante: entender o tamanho, medir o risco e decidir na hora certa. As regras para o passado ainda vão ser definidas pelo STF. Até lá, o que a empresa controla é a qualidade da própria informação”, conclui.


A comunicação que não conversa com o negócio está fadada a gerar vaidade


Existe uma pergunta que eu gostaria que mais empresas fizessem antes de decidir o que vão publicar: o que exatamente precisamos que essa comunicação provoque no negócio?

 

Parece simples, mas, na prática, ela costuma aparecer depois de perguntas muito mais operacionais. Quantos posts vamos fazer? Em que veículos de imprensa vamos sair? Precisamos publicar mais no LinkedIn? Quantos vídeos devemos produzir? Em quais canais ainda não estamos presentes?

 

Nenhuma dessas perguntas está errada, o problema é quando elas viram o ponto de partida de qualquer estratégia de comunicação e marketing. Quando a comunicação passa a ser planejada a partir do volume de conteúdo, da frequência de publicação ou da quantidade de canais ocupados, fica muito fácil confundir movimentação com estratégia e visibilidade com resultado.

 

Nunca foi tão fácil produzir e distribuir conteúdo. Ao mesmo tempo, nunca tivemos tantos canais, formatos, empresas e pessoas disputando atenção. Isso não significa que uma marca precise estar em todos os lugares, mas sim que ela precisa entender onde estão as pessoas capazes de influenciar seu negócio e o que precisa construir com elas.

 

Depois de mais de uma década trabalhando com comunicação e acompanhando centenas de empresas, uma coisa ficou muito clara para mim: antes de discutir comunicação, precisamos discutir o negócio.

 

Qual é o momento da empresa? O que ela quer alcançar? Com quem precisa construir relacionamento? Como quer ser percebida e como é percebida hoje? E, principalmente, quais evidências ela tem para sustentar a percepção que deseja construir?

 

São essas respostas que deveriam determinar a estratégia de comunicação. A imprensa pode cumprir um papel importante de validação e reputação. O LinkedIn pode ajudar a construir autoridade de executivos e relacionamento B2B. Um evento com 50 pessoas pode gerar mais valor para determinada empresa do que um conteúdo visto por 50 mil. O canal deveria ser consequência da estratégia, e não o contrário.

 

E os dados mostram que essa discussão está longe de ser apenas conceitual. Um levantamento da Conversion com 349 empresas brasileiras mostra que 59% publicam conteúdo próprio semanalmente, enquanto oito em cada dez produzem conteúdo sem ter uma estratégia para levá-lo à imprensa. Produzir já virou rotina. Transformar essa produção em reputação e valor para o negócio ainda é um desafio.

 

Isso também muda a forma como olhamos para os resultados. Alcance, visualizações, seguidores e curtidas não são métricas inúteis. Elas ajudam a entender distribuição e interesse, o problema começa quando se tornam o objetivo final.

 

Para uma empresa B2B, por exemplo, ser vista pelas 200 pessoas certas pode ter muito mais impacto do que alcançar 200 mil pessoas que pouco interferem no seu negócio. Uma matéria pode não gerar milhares de acessos e, ainda assim, chegar a um potencial cliente, investidor, parceiro ou futuro talento. Um evento pequeno pode abrir conversas comerciais relevantes. Um conteúdo de um executivo pode não viralizar, mas ajudá-lo a ocupar um espaço de autoridade importante para a companhia.

 

Por isso, gosto de pensar na comunicação em camadas. Primeiro, estão os indicadores de distribuição. Depois, os sinais de interesse e envolvimento. Mas precisamos avançar até os indicadores de percepção e comportamento. A marca começou a ser associada aos atributos que queria construir? Passou a ser procurada pelos assuntos nos quais deseja ser referência? Está chegando às conversas das quais gostaria de participar? Está criando relações que antes não existiam?

 

A conversa com a liderança também precisa partir dessa lógica. Se existe um objetivo comercial, podemos observar leads qualificados, origem das oportunidades e influência da comunicação sobre o pipeline. Se o objetivo é reputação, precisamos acompanhar atributos associados à marca, qualidade das menções, presença nas conversas relevantes e relacionamento com stakeholders.

 

Isso não significa afirmar que uma matéria na imprensa gerou determinado valor em receita ou que um post foi responsável sozinho por uma decisão de compra. A comunicação raramente funciona de maneira tão linear. Seu papel é ajudar a criar contexto, confiança, lembrança e percepção ao longo do tempo e precisamos ser capazes de observar se tudo isso está contribuindo para a direção que o negócio decidiu seguir.

 

Talvez uma das maiores evidências dessa desconexão esteja na distância entre aquilo que uma empresa acredita ser, aquilo que comunica e aquilo que o mercado consegue enxergar. Já vi empresas com teses de negócio extremamente interessantes quando conversamos com seus fundadores, mas que, olhando para o site e para as redes sociais, poderiam ser confundidas com qualquer concorrente. Também já vi empresas que evoluíram profundamente, mas continuavam sendo percebidas a partir da comunicação que faziam anos atrás.

 

E existe o movimento contrário: empresas tentando comunicar uma imagem que a experiência ainda não consegue sustentar. Nesse caso, não existe estratégia de conteúdo capaz de resolver o problema. Reputação não é apenas aquilo que uma empresa fala sobre si. É o resultado acumulado daquilo que ela diz, daquilo que terceiros dizem e, principalmente, daquilo que ela entrega.

 

Por isso, eu não começaria corrigindo o Instagram, aumentando a frequência de posts ou criando mais um canal. Começaria entendendo qual é a verdade estratégica da empresa hoje, onde o negócio quer chegar e qual percepção precisa construir para ajudá-lo nesse caminho. Depois vêm a narrativa, mensagens, evidências, formatos e canais.

 

No fim, a comunicação mais eficiente não é necessariamente a que produz mais ou aparece mais. É a que consegue fazer a empresa ser compreendida pelas pessoas certas e contribuir para as decisões que realmente importam para o negócio.

 

Porque uma comunicação que não conversa com o negócio pode gerar alcance, conteúdo, seguidores, matérias e uma agenda cheia de iniciativas. Pode inclusive parecer um sucesso quando olhada de fora. Mas, se ninguém consegue explicar o que todo esse movimento deveria transformar, existe uma boa chance de estarmos chamando vaidade de estratégia.

 

Maria Cecília Bere - empreendedora e fundadora do reverbere e do Movimento reverbere. Com mais de 15 anos de experiência em comunicação, esteve por 11 anos à frente de uma agência que atendeu mais de 300 empresas. Hoje, atua com foco em posicionamento, reputação e estratégia de comunicação para negócios e lideranças.


Dia Nacional do Livro (29/10): ler é voltar para casa

Como escritora brasileira vivendo na Suécia, penso na força que uma história pode ter quando atravessa fronteiras. Ela não precisa falar diretamente sobre saudade para aproximar alguém de casa, pode fazer isso pelo ritmo de uma frase, por uma palavra conhecida, uma paisagem ou um personagem familiar. 

Viver longe do Brasil muda a maneira como percebemos coisas que antes pareciam tão naturais. A língua, por exemplo, está no cotidiano, nas lembranças e nas palavras que usamos para explicar o mundo a quem amamos. Quando estamos em outro país, percebemos que ela também é um lugar de pertencimento; muitas vezes, basta abrir uma obra de autor brasileiro para sentir essa presença. 

A literatura brasileira reúne muitas vozes, regiões e maneiras de enxergar a vida. Ao escolher esses livros, contribuímos para que suas narrativas continuem sendo contadas. Para quem está longe, essa escolha pode ganhar um significado especial. Muitos procuram títulos brasileiros para ler com os filhos e para que as crianças tenham contato com o idioma também fora de casa. Nas páginas, elas encontram palavras que escutam dos pais, cenários que evocam a terra natal e referências com quem se identificam. A leitura permite que cresçam ligadas ao lugar onde vivem e mantenham uma relação com o Brasil. Uma coisa não apaga a outra. 

Divulgação
Mas valorizar a literatura nacional não é importante apenas no exterior. Em solo brasileiro, ler esses autores é descobrir toda a riqueza e diversidade do país. Há relatos que nos fazem reconhecer experiências parecidas com as nossas e outros que nos apresentam realidades diferentes. Em ambos, podemos encontrar motivos para imaginar, questionar e olhar o mundo com mais atenção. 

Esse reconhecimento pode começar em gestos simples: escolher um livro de um autor nacional, visitar uma biblioteca, ler com uma criança ou indicar uma obra a um amigo. Assim, ajudamos as histórias a circular e os leitores a encontrá-las, pois a literatura feita no Brasil merece não só estar nas conversas entre amigos e famílias, mas também nas escolas e em bibliotecas pelo mundo.  

Por isso, exalto cada livro que nos leva a outro lugar e, às vezes, nos devolve um pouco ao nosso. Para quem vive no exterior, uma história brasileira pode encurtar distâncias. Para quem está no Brasil, pode revelar novas paisagens dentro do próprio país. Ler nossos autores é manter a língua em movimento, reconhecer nossas muitas raízes e abrir espaço para o que ainda será escrito. 

 

Isabel Cintra - escritora brasileira radicada na Suécia e autora de Joana Joaninha. Atua na divulgação da língua portuguesa no exterior. 


São Paulo: alfabetizar 95% das crianças até 2029 levaria 88 mil jovens a mais a concluir a escola com aprendizado adequado

 Simulação com o IIE Legado mostra que, só com o avanço da alfabetização, o percentual de estudantes com perspectiva de concluir o Ensino Médio na idade certa e com aprendizado adequado passaria de 37,3% para 51,7% em São Paulo

 

São Paulo chega ao Dia Nacional da Alfabetização, em 14 de novembro, com 61% das crianças alfabetizadas ao fim do 2º ano do Ensino Fundamental, segundo o Indicador Criança Alfabetizada (ICA) 2025, do Ministério da Educação (MEC) e do Inep. O resultado está abaixo da média nacional (66%), mas atinge a meta definida pelo MEC para 2025 (61%). Em relação a 2024, o avanço foi de 3 pontos percentuais. 

Uma simulação feita pelo Instituto Natura com o Índice de Inclusão Educacional Legado (IIE Legado) mostra o que esse dado pode significar para o futuro. O indicador, desenvolvido pela Metas Sociais em parceria com o Instituto Natura, projeta quantos estudantes que entram na educação básica vão concluir o Ensino Médio na idade certa e com aprendizado adequado. Se São Paulo chegar a 2029 com 95% das crianças alfabetizadas, mantidas as demais condições das redes de ensino, esse percentual passaria de 37,3% para 51,7%, um ganho de 14,4 pontos percentuais. São 88.079 jovens a mais, em uma geração de cerca de 611 mil, concluindo a educação básica com aprendizado adequado. 

Em São Paulo, a alfabetização tem grande potencial de mover o ponteiro da educação. Análise da Lupa Social mostra que o percentual de crianças alfabetizadas na idade certa funciona como um teto para a inclusão educacional: a cada etapa escolar, parte dos estudantes que não atingem o nível básico de aprendizagem fica pelo caminho. Por isso, quanto mais espaço há para avançar na alfabetização, maior é o efeito sobre toda a trajetória escolar. 

Mais inclusão educacional também significa desenvolvimento. Estudo coordenado por Reynaldo Fernandes, um dos criadores do IIE, associa avanços no índice a menos gravidez na adolescência, menos homicídios entre jovens, mais jovens no ensino superior e mais pessoas empregadas. 

Porta-voz: David Saad, diretor-presidente do Instituto Natura e organizador do livro Aprender com qualidade na idade certa: uma visão integrada para a Educação Básica (Fundação Santillana, 2026)

 

O que ele pode comentar:

  • o que os dados da alfabetização e a simulação mostram para São Paulo;
  • por que a alfabetização na idade certa é a base de toda a trajetória escolar;
  • por que o avanço precisa vir acompanhado das etapas seguintes (visão integrada da educação básica);
  • o papel do regime de colaboração entre estado e municípios na continuidade das políticas.


Simule o efeito da alfabetização no seu estado: simulador.painel-iie.com.br

 

Fontes: ICA 2025: MEC/Inep. IIE Legado: Metas Sociais, em parceria com o Instituto Natura. Simulação feita pelo Instituto Natura no simulador do IIE Legado, desenvolvido pela Lupa Social em parceria com o Instituto Natura, considerando 95% de crianças alfabetizadas até 2029 e as demais condições das redes mantidas.


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