Em novembro de 2024, o Ministério da Educação e
Ciência da Ucrânia publicou, em parceria com a psicóloga infantil e familiar
Svitlana Roiz, um guia para orientar professores que trabalham com crianças
expostas a experiências traumáticas decorrentes da guerra. Entre as orientações
estão evitar, nas festas escolares, elementos que remetam a explosões, como
artigos pirotécnicos com efeitos luminosos, e não aplicar provas logo no início
do dia após uma noite marcada por alertas aéreos.
São medidas simples, baseadas em uma premissa
importante: sons e situações comuns para a maioria dos alunos podem despertar medo
e insegurança em quem viveu um conflito armado.
Essa realidade está mais próxima do Brasil do que
parece. Segundo o relatório Refúgio em Números, do Ministério da Justiça e
Segurança Pública, o país recebeu 68.159 pedidos de refúgio em 2024 e
reconheceu 13.632 pessoas como refugiadas. A Venezuela concentrou 93,1% dos
reconhecimentos, seguida por Afeganistão, Colômbia e Síria. Entre os
reconhecimentos concedidos por procedimentos simplificados do Comitê Nacional
para os Refugiados, aproximadamente 40% correspondem a crianças e adolescentes.
Afeganistão e Síria estão entre os países marcados por conflitos armados, e
crianças e adolescentes refugiados têm direito à matrícula nas redes públicas
de educação básica, conforme resolução do Conselho Nacional de Educação de
2020.
Isso não significa que toda criança que tenha
vivido uma guerra apresente sintomas de trauma. A National Child Traumatic
Stress Network, organização norte-americana dedicada ao estudo e ao atendimento
do estresse traumático infantil, ressalta que muitas crianças refugiadas se
adaptam bem ao novo ambiente. Ainda assim, algumas podem reagir de forma
intensa a estímulos que remetam a experiências anteriores.
Em materiais destinados às escolas, a instituição
cita o exemplo de jovens que sentem medo diante de barulhos fortes, como o som
de um avião ou até o ruído de tênis em uma quadra, quando esses sons evocam
lembranças de situações ameaçadoras. Essas reações também podem ser confundidas
com oposição, desinteresse ou falta de motivação.
A pesquisa científica ajuda a compreender esse
mecanismo. Em estudo publicado em 2023 na revista Developmental Psychobiology,
pesquisadores da Wayne State University, nos Estados Unidos, avaliaram 71
jovens sírios reassentados no país, com idade média de 12,7 anos e histórico de
exposição a traumas de guerra.
Durante um experimento de aprendizagem do medo, os
participantes foram submetidos a sons súbitos para que os pesquisadores
medissem suas reações de sobressalto. Entre os jovens com provável transtorno
de estresse pós-traumático, a resposta a um sinal associado à ameaça permaneceu
mais intensa ao final do teste, mesmo após repetidas situações em que nenhum
evento adverso ocorreu. Embora realizado em laboratório, o estudo contribui
para a compreensão de como experiências traumáticas podem influenciar a
resposta a determinados estímulos sonoros.
A pesquisa, porém, não investigou especificamente
os sinais utilizados nas escolas.
No Brasil, a mudança dos sinais sonoros escolares
também ganhou espaço no Legislativo. Projetos de lei em âmbito federal e
municipal propõem substituir toques estridentes por alternativas mais suaves,
sobretudo para proteger alunos com transtorno do espectro autista (TEA). Essa
discussão é importante e pode ampliar a atenção das escolas à diversidade de
necessidades dos estudantes. O cuidado com o ambiente sonoro, no entanto, não
precisa se limitar a um único grupo. Também pode beneficiar crianças que
chegaram ao país após experiências de guerra, deslocamento forçado e outras
situações de violência.
Muitas instituições de ensino ainda utilizam
sirenes semelhantes às empregadas em ambientes industriais, projetadas para serem
ouvidas mesmo em locais com elevado nível de ruído. No cotidiano escolar,
porém, a escolha do sinal pode considerar outros fatores, como o ambiente, a
finalidade do aviso e a sensibilidade de quem o escuta.
Na Beatek, empresa que atua desde 1985 no segmento
de sinalização sonora, sabemos que comunicar não significa apenas produzir um
som audível, mas escolher um sinal adequado à situação. As tecnologias
disponíveis permitem, por exemplo, programar melodias e diferentes toques
conforme o horário e a função de cada aviso, oferecendo alternativas às sirenes
tradicionais.
É importante reconhecer que o efeito dos sinais
escolares sobre crianças refugiadas ainda é pouco estudado. Não se pode afirmar
que a substituição de uma sirene por uma melodia, por si só, evite reações
relacionadas ao trauma. Há, contudo, medidas simples que podem tornar a rotina
mais previsível e acolhedora.
A National Child Traumatic Stress Network recomenda
que a escola explique antecipadamente às crianças o que vai acontecer, pois
saber o que esperar pode ajudá-las a se sentir mais seguras. Um sinal sonoro
familiar, utilizado em horários regulares e apresentado previamente aos alunos,
pode fazer parte desse cuidado.
Construir uma escola inclusiva também significa
observar aspectos da rotina que muitas vezes passam despercebidos. O sinal que
anuncia o recreio pode parecer um detalhe, mas pensar em como ele é produzido,
em que volume é ouvido e como pode ser percebido por diferentes crianças é uma
oportunidade de tornar o ambiente escolar mais acolhedor. Antes de decidir qual
som marca a hora do recreio, vale começar por uma pergunta simples: quem está
ouvindo?
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