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quinta-feira, 5 de novembro de 2026

O sinal escolar e as crianças refugiadas de guerra


Em novembro de 2024, o Ministério da Educação e Ciência da Ucrânia publicou, em parceria com a psicóloga infantil e familiar Svitlana Roiz, um guia para orientar professores que trabalham com crianças expostas a experiências traumáticas decorrentes da guerra. Entre as orientações estão evitar, nas festas escolares, elementos que remetam a explosões, como artigos pirotécnicos com efeitos luminosos, e não aplicar provas logo no início do dia após uma noite marcada por alertas aéreos.

São medidas simples, baseadas em uma premissa importante: sons e situações comuns para a maioria dos alunos podem despertar medo e insegurança em quem viveu um conflito armado.

Essa realidade está mais próxima do Brasil do que parece. Segundo o relatório Refúgio em Números, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, o país recebeu 68.159 pedidos de refúgio em 2024 e reconheceu 13.632 pessoas como refugiadas. A Venezuela concentrou 93,1% dos reconhecimentos, seguida por Afeganistão, Colômbia e Síria. Entre os reconhecimentos concedidos por procedimentos simplificados do Comitê Nacional para os Refugiados, aproximadamente 40% correspondem a crianças e adolescentes. Afeganistão e Síria estão entre os países marcados por conflitos armados, e crianças e adolescentes refugiados têm direito à matrícula nas redes públicas de educação básica, conforme resolução do Conselho Nacional de Educação de 2020.

Isso não significa que toda criança que tenha vivido uma guerra apresente sintomas de trauma. A National Child Traumatic Stress Network, organização norte-americana dedicada ao estudo e ao atendimento do estresse traumático infantil, ressalta que muitas crianças refugiadas se adaptam bem ao novo ambiente. Ainda assim, algumas podem reagir de forma intensa a estímulos que remetam a experiências anteriores.

Em materiais destinados às escolas, a instituição cita o exemplo de jovens que sentem medo diante de barulhos fortes, como o som de um avião ou até o ruído de tênis em uma quadra, quando esses sons evocam lembranças de situações ameaçadoras. Essas reações também podem ser confundidas com oposição, desinteresse ou falta de motivação.

A pesquisa científica ajuda a compreender esse mecanismo. Em estudo publicado em 2023 na revista Developmental Psychobiology, pesquisadores da Wayne State University, nos Estados Unidos, avaliaram 71 jovens sírios reassentados no país, com idade média de 12,7 anos e histórico de exposição a traumas de guerra.

Durante um experimento de aprendizagem do medo, os participantes foram submetidos a sons súbitos para que os pesquisadores medissem suas reações de sobressalto. Entre os jovens com provável transtorno de estresse pós-traumático, a resposta a um sinal associado à ameaça permaneceu mais intensa ao final do teste, mesmo após repetidas situações em que nenhum evento adverso ocorreu. Embora realizado em laboratório, o estudo contribui para a compreensão de como experiências traumáticas podem influenciar a resposta a determinados estímulos sonoros.

A pesquisa, porém, não investigou especificamente os sinais utilizados nas escolas.

No Brasil, a mudança dos sinais sonoros escolares também ganhou espaço no Legislativo. Projetos de lei em âmbito federal e municipal propõem substituir toques estridentes por alternativas mais suaves, sobretudo para proteger alunos com transtorno do espectro autista (TEA). Essa discussão é importante e pode ampliar a atenção das escolas à diversidade de necessidades dos estudantes. O cuidado com o ambiente sonoro, no entanto, não precisa se limitar a um único grupo. Também pode beneficiar crianças que chegaram ao país após experiências de guerra, deslocamento forçado e outras situações de violência.

Muitas instituições de ensino ainda utilizam sirenes semelhantes às empregadas em ambientes industriais, projetadas para serem ouvidas mesmo em locais com elevado nível de ruído. No cotidiano escolar, porém, a escolha do sinal pode considerar outros fatores, como o ambiente, a finalidade do aviso e a sensibilidade de quem o escuta.

Na Beatek, empresa que atua desde 1985 no segmento de sinalização sonora, sabemos que comunicar não significa apenas produzir um som audível, mas escolher um sinal adequado à situação. As tecnologias disponíveis permitem, por exemplo, programar melodias e diferentes toques conforme o horário e a função de cada aviso, oferecendo alternativas às sirenes tradicionais.

É importante reconhecer que o efeito dos sinais escolares sobre crianças refugiadas ainda é pouco estudado. Não se pode afirmar que a substituição de uma sirene por uma melodia, por si só, evite reações relacionadas ao trauma. Há, contudo, medidas simples que podem tornar a rotina mais previsível e acolhedora.

A National Child Traumatic Stress Network recomenda que a escola explique antecipadamente às crianças o que vai acontecer, pois saber o que esperar pode ajudá-las a se sentir mais seguras. Um sinal sonoro familiar, utilizado em horários regulares e apresentado previamente aos alunos, pode fazer parte desse cuidado.

Construir uma escola inclusiva também significa observar aspectos da rotina que muitas vezes passam despercebidos. O sinal que anuncia o recreio pode parecer um detalhe, mas pensar em como ele é produzido, em que volume é ouvido e como pode ser percebido por diferentes crianças é uma oportunidade de tornar o ambiente escolar mais acolhedor. Antes de decidir qual som marca a hora do recreio, vale começar por uma pergunta simples: quem está ouvindo?

  

Camila Vianna Brambila Kaiser - sócia da Beatek Indústria e Comércio de Eletroeletrônicos Ltda. e formada em administração de empresas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Atua nas áreas de gestão empresarial, estratégia, desenvolvimento de negócios, licitações públicas, relacionamento institucional e expansão comercial, contribuindo para a consolidação da Beatek como referência nacional em tecnologia para sistemas de sinalização sonora e sinos e relógios.


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