Na reforma de uma loja, uma das decisões com maior impacto no
orçamento acontece antes de qualquer parede ser derrubada: definir o que vale a
pena manter e o que precisa ser refeito.
A lógica parece simples. Se já existe, aproveitar deveria custar
menos. Mas quem acompanha obras sabe que nem sempre é assim.
Uma loja pode estar visualmente ultrapassada e ter estrutura e
instalações perfeitamente aproveitáveis. Outra pode parecer pronta para receber
apenas uma modernização, mas esconder limitações elétricas, de climatização ou
infraestrutura capazes de transformar uma reforma aparentemente simples em uma
obra muito mais cara.
Os números mostram o tamanho dessa diferença. Um estudo realizado
em 2025 pela Society of Chartered Surveyors Ireland (SCSI), entidade
profissional independente, analisou sete casos reais de retrofit de edifícios
de escritórios. Os custos encontrados foram de €225 a €1.814 por metro
quadrado. Mais importante: apenas três dos sete projetos foram considerados
financeiramente viáveis nas condições analisadas.
Mesmo entre quatro edifícios considerados em boas condições, a
diferença de custo foi enorme: de €225 a €1.814 por metro quadrado. Ou seja,
olhar para o estado aparente do imóvel está longe de ser suficiente para prever
quanto uma intervenção irá custar.
O
que está escondido pesa na conta
Um dos pontos mais interessantes do levantamento é justamente onde
estava parte relevante dos custos. Sistemas mecânicos e elétricos, incluindo
iluminação, aquecimento e ventilação, representaram entre 21% e 76% dos gastos
nos projetos analisados.
É exatamente aí que uma decisão aparentemente econômica pode se
tornar cara.
Imagine uma loja na qual o projeto prevê aproveitar o sistema de
climatização existente. A obra começa e se descobre que ele não suporta o novo
layout e o fluxo previsto de clientes. O problema não se resume à compra de
novos equipamentos. Pode ser necessário rever elétrica, forro, projeto,
fornecedores e cronograma.
Uma descoberta passa a interferir em várias outras etapas da obra.
Para o lojista, isso também pode significar adiar a abertura ou prolongar as
restrições ao atendimento durante a reforma.
Por isso, considero perigoso começar um retrofit perguntando apenas: “o que conseguimos aproveitar?”. Antes disso, precisamos saber em que condições está aquilo que pretendemos manter e quanto custará fazê-lo funcionar para a nova operação.
Eficiência
também precisa fechar a conta
O desafio fica ainda mais evidente quando desempenho e retorno
financeiro são colocados lado a lado.
Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Mato Grosso
do Sul analisou três propostas de retrofit para uma edificação corporativa dos
Correios. A alternativa de melhor desempenho chegou a indicar redução de 62,57%
no consumo de energia para resfriamento. Ainda assim, nenhuma das três
propostas apresentou resultado satisfatório de payback.
É um exemplo interessante porque mostra que uma solução
tecnicamente eficiente não é automaticamente a melhor decisão financeira.
Na reforma de uma loja, precisamos olhar para as duas coisas.
Isso não significa defender a demolição e a reconstrução sempre
que uma conta de curto prazo parecer desfavorável. Muito pelo contrário. Na
maioria dos projetos, a melhor resposta pode estar entre os dois extremos.
É possível preservar a estrutura, modernizar instalações,
substituir sistemas que chegaram ao limite e redesenhar apenas aquilo que precisa
acompanhar a nova operação.
O melhor retrofit, portanto, não é aquele que preserva mais. É
aquele que preserva o que ainda gera valor.
E essa análise precisa considerar mais do que o orçamento inicial:
prazo, manutenção, eficiência, vida útil, possibilidade de expansão e
capacidade de o espaço acompanhar mudanças no negócio. No varejo, também
importa avaliar como a obra afetará o atendimento e as vendas.
Uma economia feita hoje pode significar uma nova intervenção daqui
a dois anos. Da mesma maneira, demolir algo que ainda poderia cumprir
perfeitamente sua função significa abrir mão de um ativo pelo qual a empresa já
pagou.
Por isso, antes de decidir entre retrofit e começar novamente, eu
faria uma pergunta mais importante:
O que neste espaço ainda faz sentido para o negócio que queremos
construir aqui?
Quando essa resposta vem antes da obra, fica
muito mais fácil fazer arquitetura, operação e orçamento trabalharem do mesmo
lado.
Maria Angela Polo - CEO da We Are Group, empresa
especializada na execução de ambientes corporativos e comerciais de alto
padrão. Mais informações no site.
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