Especialista orienta sobre medidas fundamentais para preservar o afeto entre pais e filhos e evitar que disputas conjugais comprometam o desenvolvimento de crianças e adolescentes
Em famílias que passaram por uma separação, datas comemorativas podem evidenciar conflitos que, no dia a dia, já afetam a convivência entre pais e filhos. Quando esses conflitos passam a interferir na relação da criança com um dos genitores, é preciso atenção para possíveis situações de alienação parental.
Prevista pela Lei nº 12.318/2010, a alienação parental acontece quando a formação psicológica da criança ou do adolescente é induzida ou manipulada por um dos genitores para afastar e prejudicar o vínculo com o outro. Na prática, isso se traduz em atitudes como dificultar a convivência, esconder informações importantes sobre a rotina do filho ou criar obstáculos frequentes para o convívio familiar.
O tema tem ganhado cada vez mais espaço e urgência nos debates sobre a proteção da infância. Em maio de 2026, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) incluiu formalmente a alienação parental no rol de violências psicológicas contra crianças e adolescentes, ao lado de condutas como manipulação, isolamento e agressões verbais. O alerta ganha ainda mais peso diante dos dados do Atlas da Violência 2026, publicado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública: impressionantes 79,9% das agressões não letais contra crianças de 0 a 4 anos acontecem dentro de casa. Os dados confirmam que a violência doméstica continua sendo a principal ameaça durante a infância.
Para a advogada de família Thaís Marques, do escritório Martins Cardozo Advogados Associados, o grande desafio é proteger os filhos do impacto dos desentendimentos dos pais. “Quando um casamento chega ao fim, a relação do casal acaba, mas a missão de ser pai e mãe continua para a vida toda. A criança tem o direito de manter o convívio com a família e não pode ser usada como objeto de disputa. O perigo real surge quando o conflito do ex-casal transborda e passa a alterar a forma como o filho enxerga, sente e se relaciona com o outro genitor”, alerta a especialista.
Abaixo,
a advogada compartilha orientações práticas para identificar sinais de
alienação parental e agir com sensibilidade e responsabilidade:
1.
Fique atento às mudanças de comportamento
“Alterações
bruscas de humor, ansiedade, isolamento, queda no rendimento escolar ou uma
rejeição repentina a um dos pais são sinais claros de que a criança está em sofrimento
emocional. Claro que esses sinais, isoladamente, não provam a alienação
parental. É preciso olhar o todo, entender o momento em que começaram e se há
um gatilho específico. O essencial aqui é acolher a criança, dar escuta sem
pressionar e jamais fazer perguntas que a obriguem a tomar um lado”, orienta
Thaís.
2.
Evite criticar ou desqualificar o outro pai
“A
criança precisa de liberdade para amar e construir sua própria relação com
ambos os pais, sem sentir que demonstrar carinho por um significa trair o
outro. Fazer comentários depreciativos, acusações ou discutir na frente dos
filhos coloca a criança em uma situação emocional devastadora. Por mais
difíceis que sejam as divergências, os adultos precisam virar essa chave: não
transforme seu filho em mensageiro, confidente ou arma de disputa”, pontua a
advogada.
3.
Respeite os combinados e acordos de convivência
“Datas
festivas como o Dia das Crianças costumam virar ponto de atrito quando não há
planejamento prévio. Por isso, os períodos de convivência devem estar muito bem
alinhados nos acordos ou decisões judiciais e, acima de tudo, cumpridos. Ter
regras transparentes traz segurança emocional para a criança e evita brigas de
última hora, impedindo que o filho sinta o peso de ter que 'escolher' com quem
quer ficar”, destaca.
4.
Busque apoio psicológico sempre que necessário
“A
terapia pode ser um refúgio fundamental para a criança expressar o que sente e
processar as mudanças da separação de forma saudável. Além disso, a
psicoterapia ajuda os próprios pais a enxergarem o impacto de suas atitudes no
bem-estar dos filhos. No entanto, vale o aviso: a terapia nunca deve ser usada
como instrumento de acusação no processo. A prioridade absoluta precisa ser o
acolhimento do que a criança está vivenciando”, ressalta Thaís.
5.
Diante de impasses persistentes, procure orientação jurídica
“Se houver uma interferência contínua na convivência ou se o diálogo entre os adultos se tornar inviável, a orientação jurídica é o caminho para entender como proteger a criança legalmente. Cada história é única e exige uma análise cuidadosa dos fatos e das provas. Vale lembrar que acionar a Justiça não serve apenas para punir, mas sim para estancar situações prejudiciais e garantir, de forma segura, a preservação dos laços afetivos”, explica.
Para
Thaís, a data comemorativa serve como um importante lembrete para toda a
sociedade. “A criança não escolheu a separação, não tem culpa pelas diferenças
dos pais e não deve carregar o peso de conflitos que são dela . Mais do que
disputar quem vai passar a data com a criança ou quem tem razão, o foco precisa
ser garantir a ela paz, estabilidade e a liberdade de amar. Proteger a infância
é, antes de tudo, saber colocar o bem-estar dos filhos acima de qualquer mágoa
do passado”, conclui.
Martins Cardozo Advogados Associados
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