Brinquedos engolidos, alimentos inadequados e medicamentos estão entre os principais riscos
Dividir a casa com crianças e pets exige cuidados que vão além da
supervisão das brincadeiras. Um brinquedo pequeno deixado no chão, um
comprimido esquecido sobre um móvel ou um pedaço de chocolate oferecido
escondido podem transformar situações comuns da rotina em uma emergência
veterinária.
Dados ajudam a dimensionar parte desse risco. O ASPCA Animal
Poison Control Center, centro norte-americano especializado em intoxicações
animais, registrou mais de 376 mil exposições de pets a substâncias
potencialmente tóxicas em 2025. Itens de venda livre, categoria que reúne
medicamentos sem prescrição, vitaminas e suplementos, responderam por 16,9% dos
registros, alimentos e bebidas por 16,4% e medicamentos de uso humano sob
prescrição por 14,6%.
Segundo Gustavo Jorge Gonçalves, médico veterinário da WeVets,
maior grupo de saúde veterinária do Brasil, casas com crianças exigem atenção
especial porque brinquedos, alimentos e pequenos objetos circulam com mais
frequência pelo ambiente.
“A criança pode oferecer um alimento ao pet como demonstração de
carinho ou deixar um brinquedo pequeno no chão sem imaginar que aquilo pode
representar risco. O papel do adulto é organizar esse ambiente e ensinar regras
simples de convivência, sem transformar a relação entre criança e animal em
algo restritivo”, explica.
Quando
o brinquedo da criança vira caso de hospital
Peças pequenas, bolinhas, partes de brinquedos, elásticos,
barbantes e outros objetos podem ser engolidos por cães e gatos. Dependendo do
formato, tamanho e localização, o material pode permanecer no estômago ou
provocar obstrução gastrointestinal.
O Merck Veterinary Manual alerta que obstruções não tratadas podem
comprometer a circulação sanguínea do intestino e evoluir para necrose ou
perfuração. Corpos estranhos lineares, como fios e barbantes, merecem atenção
especial.
Um estudo publicado no Journal of Small Animal Practice,
com 499 cães diagnosticados com corpos estranhos gastrointestinais, identificou
maior ocorrência de necrose intestinal, perfuração e peritonite nos animais que
ingeriram objetos lineares.
“Vômitos persistentes, falta de apetite, apatia e dor abdominal
depois do desaparecimento de um brinquedo ou objeto precisam acender o alerta.
Nem sempre o responsável presencia a ingestão, por isso a mudança de
comportamento do animal é importante”, afirma o médico veterinário.
O
lanche da criança também pode oferecer risco
Alimentos e bebidas destinados a humanos aparecem entre as
principais causas de exposição tóxica em pets registradas pelo centro de
toxicologia da ASPCA.
Chocolate, uvas, uvas-passas, cebola, alho e produtos que contêm
xilitol estão entre os itens que podem causar problemas. O chocolate, analisado
separadamente no levantamento da instituição, respondeu por 13,6% das
exposições registradas em 2025.
Em casas com crianças, o risco não está apenas no alimento
oferecido diretamente ao animal. Restos deixados em mesas baixas, mochilas,
lancheiras ou no chão também podem ser alcançados pelo pet.
“A regra para a criança precisa ser simples. Antes de dividir
qualquer alimento com o animal, ela deve perguntar a um adulto. Esse
aprendizado pode fazer parte da própria convivência com o pet”, orienta.
Medicamentos
também precisam sair do alcance
Medicamentos humanos vendidos sem prescrição foram a principal
categoria de exposição tóxica registrada pela ASPCA em 2025, pelo oitavo ano
consecutivo.
Em uma casa com crianças, comprimidos podem cair no chão,
permanecer em mochilas ou ser deixados sobre móveis baixos. Vitaminas e
suplementos também precisam ser guardados em locais fechados.
A orientação da WeVets é nunca oferecer medicamentos de uso humano
a cães e gatos sem avaliação veterinária.
Quando
a brincadeira passa do limite
Os riscos não se restringem à ingestão de objetos ou alimentos.
Corridas dentro de casa, quedas, pisões e brincadeiras excessivamente intensas
podem provocar traumas.
Puxar orelhas, patas ou rabo, abraçar o animal com força ou tentar
retirar um objeto diretamente de sua boca também podem provocar desconforto e
reação defensiva.
A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que as brincadeiras
entre crianças e cães sejam supervisionadas por adultos. A entidade também
orienta que os pequenos não incomodem os animais durante a alimentação ou sono,
não puxem partes do corpo e não tentem tomar brinquedos que estejam com eles.
“A supervisão não serve para impedir a interação. Ela ajuda a
criança a entender os sinais do animal e perceber quando ele quer brincar e
quando precisa de espaço”, afirma.
Cinco
cuidados para crianças e pets dividirem a casa com segurança
- Brinquedos com peças pequenas devem ser recolhidos depois da
brincadeira.
- Medicamentos, vitaminas e suplementos precisam permanecer em
armários fechados.
- Crianças não devem oferecer alimentos aos pets sem
autorização de um adulto.
- Elásticos, fios, barbantes e objetos pequenos não devem ficar
no chão ou ao alcance do animal.
- Toda interação mais intensa entre crianças pequenas e pets
deve ocorrer com supervisão de um adulto.
Se houver suspeita de ingestão de medicamento, alimento
tóxico ou corpo estranho, a recomendação é procurar atendimento veterinário
rapidamente e informar, sempre que possível, o que foi ingerido, a quantidade
aproximada e o horário do episódio.

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