Especialistas do Instituto de Longevidade MAG apontam práticas que ainda limitam o desenvolvimento de profissionais mais experientes e mostram como empresas podem avançar na diversidade geracional
O mercado de trabalho brasileiro está envelhecendo e as práticas de gestão de pessoas nem sempre acompanham essa mudança. A maior longevidade da população e o prolongamento das trajetórias profissionais exigem das empresas uma revisão de práticas que ainda associam o avanço da idade à perda de produtividade, à menor capacidade de aprendizado ou à dificuldade de adaptação.
Uma pesquisa realizada em 2024 pela Robert Half e pela Labora, com cerca de 400 empresas, aponta que 69% das organizações respondentes não oferecem oportunidades equitativas para diferentes faixas etárias e 77% não possuem iniciativas intencionais para ampliar a diversidade geracional nos processos seletivos.
O cenário contrasta com uma mudança já em curso no mercado de trabalho. Segundo o IBGE, a participação conjunta das pessoas de 50 a 59 anos e de 60 anos ou mais entre os ocupados brasileiros passou de 19,1%, em 2012, para 24,3%, em 2024. No mesmo período, a população com 60 anos ou mais cresceu 53,3%, chegando a 34,1 milhões de pessoas.
Para a neurocientista Carla Tieppo, do Conselho Consultivo do Grupo MAG, é importante evitar uma interpretação simplificada do envelhecimento cognitivo, especialmente quando ela é utilizada para determinar antecipadamente a capacidade profissional de uma pessoa.
“Quando falamos em cognição, não existe uma curva única que determine o que uma pessoa será capaz de fazer aos 50, 60 ou 70 anos, por exemplo. O cérebro muda ao longo da vida, mas essas mudanças não podem ser traduzidas simplesmente como perda de capacidade. Algumas funções podem sofrer alterações, enquanto outras habilidades, como o repertório, o conhecimento acumulado e a capacidade de reconhecer padrões são influenciadas pela experiência. Por isso, idade cronológica não deve ser usada como atalho para definir competência profissional”, explica Tieppo.
A partir dessa perspectiva, especialistas apontam cinco erros que
ainda podem comprometer a gestão e o desenvolvimento de profissionais 50+:
Erro 1: associar idade à menor produtividade e capacidade profissional
Um dos equívocos mais comuns é tratar a idade cronológica como um indicador direto de desempenho. Essa associação desconsidera diferenças individuais e a complexidade das mudanças cognitivas ao longo da vida.
Envelhecer não significa perder capacidades de maneira uniforme ou
linear. Enquanto algumas habilidades podem apresentar mudanças, conhecimentos
acumulados, repertório profissional e experiência podem contribuir para a
tomada de decisões e a resolução de problemas. Por isso, empresas devem
substituir pressupostos relacionados à faixa etária por avaliações baseadas nas
competências e habilidades efetivamente necessárias para cada função.
Erro 2: presumir que profissionais mais velhos têm maior dificuldade com tecnologia e inovação
Outro estereótipo recorrente é considerar que profissionais 50+ seriam naturalmente menos adaptáveis a ferramentas digitais, inteligência artificial ou novas formas de trabalho.
A familiaridade com tecnologia, porém, também depende de exposição,
contexto e oportunidades de aprendizagem. Uma empresa que oferece treinamento
apenas para determinados grupos pode acabar produzindo a própria desigualdade
que depois atribui à idade. Por isso, as oportunidades de capacitação precisam
acompanhar as transformações tecnológicas e alcançar profissionais de
diferentes gerações.
Erro 3: deixar de oferecer capacitação e oportunidades de desenvolvimento
O etarismo também pode aparecer de maneira menos explícita quando a empresa deixa de investir no desenvolvimento de profissionais mais experientes por presumir que eles estão próximos da aposentadoria ou já atingiram o ponto máximo de suas carreiras. Isso pode criar um ciclo de desatualização: o profissional deixa de receber oportunidades para desenvolver novas competências e essa própria falta de atualização passa, posteriormente, a ser utilizada como justificativa para não oferecer novos desafios.
Capacitação, mentoria, mobilidade interna e participação em novos
projetos ajudam a romper esse ciclo, ao mesmo tempo que favorecem a troca de
conhecimento entre diferentes gerações.
Erro 4: considerar que, depois dos 50, já não há espaço ou interesse para novos movimentos de carreira
Chegar aos 50 anos não significa chegar ao fim de uma trajetória profissional. Com o aumento da expectativa de vida e carreiras potencialmente mais longas, uma pessoa pode chegar a essa idade ainda com décadas de vida profissional pela frente e interesse em mudar de área, assumir novas responsabilidades, empreender ou voltar a estudar.
Reconhecer que as carreiras podem ter diferentes ciclos permite às
empresas aproveitar melhor talentos, conhecimentos e experiências que já fazem
parte de sua força de trabalho.
Erro 5: desenvolver estratégias de diversidade sem considerar a diversidade geracional
Diversidade também é diversidade de idade. A convivência entre diferentes gerações já é realidade nas organizações, mas o desafio é transformar essa presença em troca efetiva de conhecimentos, evitando estereótipos como associar inovação aos mais jovens e experiência exclusivamente aos mais velhos.
Mentoria cruzada, equipes intergeracionais, oportunidades de
desenvolvimento para diferentes faixas etárias e critérios de recrutamento e
promoção que não utilizem a idade como parâmetro são algumas das práticas que
podem contribuir para esse avanço.
Carreiras mais longas também exigem planejamento
Se, de um lado, as empresas precisam rever práticas que limitam profissionais com base na idade, de outro, o aumento da longevidade também exige que os profissionais se preparem para trajetórias potencialmente mais longas, marcadas por novos ciclos, aprendizados e transições.
Para Antonio Leitão, especialista em longevidade do Instituto de Longevidade MAG, essa preparação envolve carreira e planejamento financeiro.
“A longevidade nos convida a pensar na carreira como um projeto que precisa ser revisitado ao longo da vida. Para o profissional 50+, isso significa continuar aprendendo, acompanhar as transformações do mercado e manter aberta a possibilidade de novos caminhos. Mas também significa planejar financeiramente essas escolhas. Uma transição de carreira pode exigir tempo, investimento em qualificação e até um período de redução de renda. Quanto antes a pessoa se prepara, maior tende a ser sua margem para fazer uma mudança sem que ela seja determinada apenas pela necessidade.”
Para o Instituto de Longevidade MAG, viver mais também significa ter mais tempo para construir e reconstruir projetos. Por isso, carreira, qualificação e planejamento financeiro precisam ser pensados de forma integrada ao longo da vida, e não apenas quando a aposentadoria se aproxima.
Instituto de Longevidade MAG
mag@gbr.com.br
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