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sábado, 10 de outubro de 2026

Culpa depois das refeições, dietas muito restritivas, episódios de perda de controle e preocupação excessiva com peso e corpo podem indicar que a relação com a alimentação precisa de atenção

 

Comer escondido, sentir culpa depois de uma refeição, passar horas sem se alimentar para “compensar” um excesso, eliminar grupos alimentares sem necessidade clínica, pensar constantemente em calorias ou ter a sensação de perder o controle diante da comida. Nem todo comportamento desse tipo significa necessariamente um transtorno alimentar, mas alguns deles podem funcionar como sinais de que a relação com a alimentação está se tornando fonte de sofrimento.

Segundo a psicóloga Tatiana Vainboim, que atua na área de obesidade, entender o comportamento alimentar exige olhar além da pergunta “o que você come?”.

“Comer é um comportamento complexo. Nós não comemos apenas em resposta à fome fisiológica. A alimentação também está relacionada a emoções, cultura, memória, prazer, convivência, disponibilidade de alimentos e à maneira como cada pessoa aprendeu a lidar com o próprio corpo. O problema começa quando essa relação passa a ser marcada por sofrimento, culpa, rigidez ou perda de controle”, explica.


Quando a comida vira resposta para tudo

Depois de um dia difícil, algumas pessoas procuram chocolate. Outras perdem completamente a fome. Há quem coma quando está ansioso, entediado, frustrado ou solitário.

Usar a comida ocasionalmente como fonte de prazer ou conforto não caracteriza, por si só, um transtorno. A atenção deve aumentar quando ela se transforma em uma das principais estratégias para lidar com emoções difíceis.

“É importante observar a frequência, a intensidade e principalmente o sofrimento associado ao comportamento. A pessoa sente que não consegue parar? Come sem fome repetidamente? Depois sente culpa ou vergonha? Tenta compensar restringindo a alimentação no dia seguinte? Quando isso vira um ciclo, precisamos olhar com mais cuidado”, afirma Tatiana.


O ciclo restrição, exagero e culpa

Um comportamento comum é tentar controlar a alimentação por meio de regras extremamente rígidas. A pessoa passa a dividir os alimentos entre “permitidos” e “proibidos”, restringe calorias excessivamente e acredita que qualquer saída da dieta representa fracasso.

O problema é que a restrição intensa pode contribuir para um ciclo difícil de romper: restrição → desejo aumentado → perda de controle → culpa → nova restrição.

“Quanto mais rígida fica a relação com a alimentação, maior pode ser a sensação de fracasso quando aquela regra é quebrada. Em alguns casos, a pessoa come algo que considera proibido e pensa: ‘já estraguei tudo’. A partir daí, pode ocorrer um episódio de exagero seguido de culpa e de uma tentativa ainda maior de controle”, explica a psicóloga.


Quando é preciso pensar em transtorno alimentar?

Os transtornos alimentares são condições de saúde mental e não devem ser reduzidos a “falta de força de vontade” ou a uma preocupação excessiva com aparência.

Entre eles estão anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno de compulsão alimentar, além de outros quadros que também podem provocar prejuízo significativo.

Alguns sinais merecem atenção, especialmente quando aparecem de maneira persistente:

  • preocupação intensa com peso, corpo, calorias ou alimentação;
  • restrições alimentares importantes;
  • medo excessivo de engordar;
  • episódios recorrentes de perda de controle ao comer;
  • comer grandes quantidades em pouco tempo acompanhado de sofrimento;
  • comportamentos compensatórios após comer;
  • evitar situações sociais por causa da comida;
  • comer escondido;
  • culpa ou vergonha frequentes após as refeições;
  • autoestima excessivamente dependente do peso ou da aparência.

“Não precisamos esperar o quadro se tornar grave para procurar ajuda. Muitas vezes existem comportamentos alimentares disfuncionais antes mesmo de um diagnóstico estabelecido. Se comer está gerando sofrimento e ocupando uma parcela muito grande dos pensamentos e da rotina, isso já merece atenção”, ressalta Tatiana.


Nem todo transtorno alimentar é visível no corpo

Outro ponto importante é abandonar a ideia de que é possível identificar um transtorno alimentar apenas olhando para uma pessoa.

Pessoas com diferentes pesos e tipos corporais podem apresentar comportamentos alimentares disfuncionais ou transtornos alimentares.

“Existe uma imagem estereotipada de quem teria um transtorno alimentar. Isso pode fazer com que muitos casos passem despercebidos. Peso corporal isoladamente não conta toda a história. Precisamos observar comportamento, pensamentos, emoções e o impacto que essa relação com a comida está causando na vida da pessoa”, destaca.


Redes sociais também entram nessa relação

A exposição constante a dietas, corpos idealizados, desafios de emagrecimento e conteúdos que classificam alimentos como “bons” ou “ruins” pode aumentar a pressão sobre pessoas vulneráveis.

Para Tatiana, o problema não está apenas no conteúdo, mas na comparação permanente.

“Quando alimentação e corpo passam a ocupar o centro da identidade, qualquer mudança na balança pode ser interpretada como sucesso ou fracasso pessoal. É importante reconstruir uma relação em que comer não seja uma prova moral e o corpo não determine o valor daquela pessoa.”


Tratamento não é simplesmente “aprender a fechar a boca”

Quando existe sofrimento relacionado à alimentação, o cuidado pode exigir uma abordagem multiprofissional, envolvendo psicologia, psiquiatria, nutrição e acompanhamento médico, de acordo com cada caso.

Na psicoterapia, um dos objetivos é compreender qual função aquele comportamento alimentar exerce.

“Em vez de perguntar somente ‘por que você comeu isso?’, precisamos entender o que estava acontecendo antes, o que a pessoa estava sentindo, quais pensamentos apareceram e o que a comida representou naquele momento. O comportamento alimentar conta uma história”, explica.

E o objetivo não deve ser criar mais uma lista de proibições.

“Uma relação saudável com a comida não significa comer perfeitamente o tempo inteiro. Significa conseguir se alimentar sem viver permanentemente entre controle, medo e culpa. Quando toda refeição vira uma batalha, é importante procurar ajuda”, conclui Tatiana Vainboim. 



Tatiana Vainboim - Psicóloga especialista em Psicologia Hospitalar Pelo Programa de Aprimoramento em Hospital Geral do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) e mestre em Neurologia pela Faculdade de Medicina Da Universidade de São Paulo (FMUSP). 
Especialista em Psicologia Hospitalar pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP) e Psico-Oncologista pela Sociedade Brasileira de Psico-Oncologia (SBPO).
https://www.instagram.com/tatianabvainboim/


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