Pesquisar no Blog

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

HPV: adesão à vacinação esbarra na desinformação e preconceito de pais e adolescentes

 

Câncer de colo de útero é o principal tumor causado pelo vírus. Até o final do ano, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima o surgimento de 19.310 casos no território nacional, a maioria em mulheres dos 30 aos 50 anos.

 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) quer eliminar o câncer de colo de útero — ou câncer cervical — como um problema de saúde pública até 20301. Para atingir este objetivo, estabeleceu várias metas, entre elas a vacinação de 90% das meninas de até 15 anos contra o HPV, o Papilomavírus Humano, responsável pela quase totalidade da doença. Mesmo disponível na rede pública para meninos e meninas de 9 a 14 anos, a vacinação não alcança essa meta no País, em parte pela desinformação e preconceito de pais e adolescentes.
“No Brasil, ainda é assustador o número de casos do câncer de colo do útero, uma doença que já não deveria existir, porque tem como um causa um vírus que pode ser prevenido por vacina”, afirma a oncologista clínica Candice Lima, da Oncologia D’Or.

Sem considerar o câncer de pele não melanoma, o câncer cervical é o terceiro tumor mais incidente nas brasileiras. No Norte e Nordeste, é o segundo mais frequente na população feminina. O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que até o final do ano deverão ser diagnosticados 19.310 casos2 no território nacional, a maioria em mulheres dos 30 aos 50 anos. Em 2023, a doença representou 5,94% do total de óbitos por câncer nas mulheres do País. 

Outras neoplasias que afetam o aparelho reprodutor feminino são os cânceres do endométrio (o tecido que recobre o interior do útero), de ovário, de vulva e de vagina.
 

Notícias falsas e desinformação

O Brasil ainda enfrenta desafios para atingir a meta da OMS, embora venha apresentando uma boa evolução nas taxas de imunização. Por exemplo, em 2025, a cobertura vacinal contra o HPV alcançou 86,22% das meninas e 74,55% dos meninos, de 9 a 14 anos3. Um estudo4 realizado em escolas públicas e privadas na região Nordeste revelou que 45,54% dos alunos pesquisados desconheciam a vacina, principalmente aqueles que já haviam começado a atividade sexual. O trabalho envolveu 17.805 estudantes de 13 a 17 anos. 

Para a médica Candice Lima, a falta de adesão à imunização reflete ainda os danos causados por notícias falsas que circulam em torno da vacina, como supostos efeitos colaterais. Além disso, como o HPV é uma infecção sexualmente transmissível, muitos pais temem que a imunização seria um meio de incentivar a sexualidade precoce de seus filhos. 

O problema não se restringe ao Brasil. Na França, a cobertura vacinal em 2023 atingiu 54,6% das meninas e 15,8% dos meninos. Um estudo da Universidade de Lorraine5 apontou a desinformação dos pais como um entrave à imunização. Dos pais entrevistados, 1/3 nunca havia ouvido falar do HPV. Alguns viam o contágio pelo vírus como algo distante dada a pouca idade dos filhos e consideravam o câncer de colo do útero uma ameaça remota. Outros receavam que a vacinação poderia estimular seus filhos a iniciar a vida sexual mais cedo. Já os adolescentes diziam ter medo de efeitos colaterais, não gostar de falar sobre sexo e não querer tomar injeção. 

Com o objetivo de ampliar o conhecimento e a conscientização da população sobre a importância da imunização contra o HPV, países como a Austrália, o México e o Peru6 criaram campanhas educativas, que resultaram numa taxa de cobertura superior a 80%. Ambientes online e campanhas nas mídias sociais se mostraram muito úteis para aumentar o engajamento à vacinação, principalmente entre os jovens, que são o principal público dessas plataformas6.
 

O impacto do câncer ginecológico

De acordo com o Observatório Global de Câncer (Globocan), os cânceres ginecológicos representaram 15,25% de todos os casos de câncer na população feminina no mundo em 2022, tendo sido diagnosticados em 1.473.427 mulheres7.Os cânceres de colo do útero, de endométrio e de ovário corresponderam a mais de 1/3 dos casos diagnosticados. 

Os principais tratamentos incluem cirurgia, quimioterapia e radioterapia, sendo usados em geral associados para aumentar a sobrevida das pacientes. Porém, os efeitos colaterais físicos e psicológicos têm reflexos profundos nas mulheres com câncer ginecológico. Ao atingir os órgãos reprodutivos, essas doenças afetam a identidade sexual, os relacionamentos íntimos e a imagem corporal da mulher, resultando em maior sofrimento psicológico8. 

Um estudo9 dinamarquês mostrou que mulheres tratadas para câncer ginecológico são mais propensas a usar antidepressivos do que aquelas sem essa condição. Ao acompanhar 16.833 pacientes por 19 anos, os pesquisadores constataram que, um ano após o diagnóstico, o risco foi quatro vezes maior em mulheres com câncer de ovário e três vezes maior para as pacientes com câncer cervical em relação às mulheres saudáveis. O risco para pacientes com câncer de endométrio pouco mais que dobrou.
 

Outros tipos de câncer

Além de atingir o colo do útero, o câncer pode acometer o endométrio, o tecido que recobre a parte interna desse órgão e descama a cada ciclo menstrual, causando o sangramento cíclico nas mulheres em fase reprodutiva. Sexto tumor mais incidente na população feminina mundial, é associado à obesidade, diabete e hipertensão arterial. Em 2020, foram 417.000 novos casos10. 

O câncer de ovário é uma doença silenciosa, que só dá sinais em estágios avançados, quando pode provocar uma pressão, dor ou aumento de volume no abdômen, alterações urinárias e intestinais. Sua causa exata é desconhecida, mas suspeita-se que esteja associada a fatores genéticos, envelhecimento, obesidade e o fato de não ter tido filhos. A doença ocupou a oitava posição entre os tumores mais frequentes em mulheres, com 324.398 novos casos em 202211. 

Os cânceres de vagina e vulva são raros, correspondendo a 1% da incidência mundial de cânceres na população feminina12. A maioria dos tumores de vagina e uma menor proporção dos cânceres de vulva também estão associados ao HPV.
 

Rastreamento

Durante anos, o rastreamento do câncer cervical baseou-se no exame citopatológico — conhecido como Papanicolau. Em 2024, o Ministério da Saúde incorporou ao SUS o teste de DNA-HPV oncogênico. Em 2025, as diretrizes passaram a recomendá-lo como método primário, com implementação progressiva13. A coleta é semelhante à do Papanicolau, mas o teste procura diretamente o material genético do vírus HPV. Na transição, a citologia segue em uso. 

A coleta não substitui o exame ginecológico, que é realizado para verificar a existência de lesões no colo do útero, na vagina e na vulva. Em caso positivo, uma biópsia pode ser realizada para ajudar a identificar a origem do problema. 

Os números mostram que, no Brasil, a vacinação contra o HPV e o rastreamento estão surtindo efeito. Dados coletados de 382.932 mulheres com câncer ginecológico por pesquisadores do Inca14 apontaram que, entre 2000 e 2015, a incidência dos cânceres cervical, de ovário e de vulva está em queda, enquanto a taxa dos tumores de endométrio e vagina está estável. 

“Precisamos continuar a divulgar a vacinação contra o HPV e desfazer as fake news sobre a vacina. A população deve entender que a vacina não previne só o câncer de útero, mas outros tumores, como aqueles que surgem na região da orofaringe, do canal anal e do pênis”, conclui a oncologista Candice Lima.

 

Oncologia D'Or

Referências

  1. World Health Organization. Global strategy to accelerate the elimination of cervical cancer as a public health problem. Geneva: 2020. Disponível em https://www.who.int/publications/i/item/9789240014107.
  2. Instituto Nacional de Câncer (Brasil). Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil/Instituto Nacional de Câncer – Rio de Janeiro: Inca, 2026.
  3. Ministério da Saúde. Vacinação contra o HPV para jovens de 15 a 19 anos é prorrogada até dezembro. Disponível em Link.
  4. Silva, T. M. R. et al. (2024). Lack of knowledge about the human papillomavirus vaccine among Brazilian adolescents: A cross-sectional study. Public Health Nursing, 41, 1453–1465.
  5. Houtin, L. et al. Perceptions of HPV vaccination: a qualitative study with adolescents, parents, school staff, and pharmacists. BMC Med 24, 291 (2026).
  6. Bonalumi dos Santos et al. Advancements and Future Perspectives of Human Papillomavirus (HPV) Vaccination in Latin America: Insights from Recent Decades. Healthcare 2025, 13, 2502.
  7. Zhu B et al. Global burden of gynaecological cancers in 2022 and projections to 2050. J Glob Health. PMCID: PMC11327849.
  8. Ma, X. et al. Women's Experience and Management of Cancer-Related Fatigue and Psychological Distress During Treatment for Gynaecological Cancer: A Qualitative Study. J Adv Nurs, 81: 3213-3225
  9. Gorsboel TA et al. Increased risk for depression persists for years among women treated for gynecological cancers - a register-based cohort study with up to 19 years of follow-up. Gynecol Oncol. 2019 ;153(3):625-632. 2019 Apr 8. PMID: 30975472.
  10. Crosbie EJ etl al. Endometrial cancer. Lancet. 2022 Apr 9;399(10333):1412-1428. PMID: 35397864.
  11. Caruso G et. al. Ovarian Cancer: A Review. JAMA. 2025;334(14):1278–1291. doi:10.1001/jama.2025.9495
  12. Bray F et al. Geographic and temporal variations in the incidence of vulvar and vaginal cancers. Int J Cancer. 2020 Nov 15;147(10):2764-2771. PMID: 32410226.
  13. Brasil. Ministério da Saúde. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero: Parte I – Rastreamento organizado utilizando testes moleculares para detecção de DNA-HPV oncogênico [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2025. Disponível em https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/pcdt/r/rastreamento-cancer-do-colo-do-utero/view.
  14. Paulino E. et al. Panorama of Gynecologic Cancer in Brazil. JCO Glob Oncol. 2020 Oct; 6:1617-1630. PMID: 33108231; PMCID: PMC7605369.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Posts mais acessados